(Não) é só mais um texto
O clima urbano parece sempre perfeito para mim. Dias nublados, escuros e chuvosos são um convite a minha playlist de Jazz Noir, acompanhada de uma generosa dose de melancolia. Há nisso um sentimento agradabilíssimo de conforto e serenidade, sem necessariamente ser triste ou deprimente.
Vejo pessoas grudadas nas telas do celular, ignorando as janelas abertas a contemplação bem à sua frente, alheias a beleza sutil que um clima frio consegue oferecer. O transporte público reúne uma miríade de indivíduos que não canso de observar.
Não raro desejo compartilhar esse sentimento com todos, mas solitária abraço os fones de ouvido que confortam meu dia. Ninguém parece dividir a mesma sintonia.
Gosto das ruas do centro do Rio de Janeiro. Sua arquitetura clássica se confundindo com prédios modernos dão um toque charmoso e único. Não fosse o atual estado de degradação, não fosse o cheiro de urina misturada ao esgoto, não fosse os emaranhados de fios elétricos enrolados pelos postes, quem sabe o quão mais maravilhosa seria essa cidade.
Mas talvez seja exatamente essa deterioração que torne algumas casas refúgios tão agradáveis. Deslizo meus dedos pelo copo grosso de vidro que jaz vazio sobre a mesa. Resta apenas gelo. A bebida acabou. A meia luz amarelada constrói um clima soturno que não me canso de apreciar. E lá no pequeno palco, depois do casal apaixonado que se beija, um trio cria a atmosfera perfeita ao som do saxofone, piano e baixo.
Já me acostumei ao cheiro do charuto do senhor da mesa ao lado, que derrama mais uísque na garganta sem parecer se importar muito com ninguém. O chapéu desbotado e o bigode branco desalinhado confirmam que ele não liga para minha opinião.
Em um buraco ou outro é possível achar paz nessa cidade, mas na maior parte do tempo, tudo isso é apenas uma fantasia. Quando o show termina e os músicos saem do palco, o bar fecha e o garçom recolhe as cadeiras, subo as escadas do porão e me deparo com a dura realidade. Meu único lamento é que durou tão pouco.
Tudo bem. Na minha memória posso reviver bons momentos quando quiser. É o que gosto de acreditar. Olho o relógio. Nem meia-noite. Que bom! A criança demora a crescer.
A chuva fina amedronta a multidão. Trabalhadores cansados tentando sobreviver a volta para casa, desarmados de proteção porque subestimaram a previsão do tempo. Para mim, a garoa é um doce agradável, a cereja do bolo que termina de ornar a madrugada mais serena de todas.
Minha única tristeza é não poder enxergar a Lua Crescente, tímida entre as nuvens densas e enegrecidas com a precipitação. Mas isso é compensado com as luzes da cidade, que parecem sempre me acolher quando mais preciso.
Parte de mim não suporta a ideia de viver sem aproveitar a experiência que é mergulhar em si durante períodos de introspecção. Mas há quem viva assim, mecanicamente, sem nem pensar em coisas etéreas.
Para essas pessoas, apenas meu pesar.
Mas no fim, algo me incomoda: A injustiça da solidão involuntária, que me obriga a permanecer sem ninguém ao lado para aproveitar um momento tão afável. No celular não há mensagens. Em contrapartida a caixa de email permanece cheia de trabalho. Sem alternativas, sem amigos, sem perspectiva, frustro-me e me apoio no meu próprio vazio, que só não enche meu peito por respeito a lógica. Tal antítese seria, no mínimo, engraçada.
Se fosse sensata, diria a mim mesma que é hora de ir para casa. Mas sensatez não costuma me acompanhar nessas noites. Na verdade outra espelunca brilha aos meus olhos, parecendo um convite a duas ou três (talvez sete ou oito) taças a mais.
Infelizmente a trilha sonora não é das melhores, mas relevo tudo a medida que aumenta a embriaguez. Duvidas se tornam certezas. Medos se tornam desejos. E meu terno preto desalinhado já não esconde minhas intenções nem um pouco republicanas.
Os três botões soltos da minha camisa social branca também não são por acaso. Desejo que alguém note esse convite silencioso. Além de tudo, aprendi que para roupas alvas a lingerie deve ser vermelha. E era minha intenção valer-me disso essa noite.
Mas o delírio de um roteiro digno da década de 40 só vive na sombra da minha esquizofrenia. Após pagar a conta, tudo que me resta é a verdade do metrô carioca, que cruza a cidade superando a paisagem das favelas com indiferença.
Olhares cansados, afetados pelo peso da rotina, esmagados pela essência de viver. Nem o alto teor alcoólico me impede de notar a opressão em seus ombros.
Se ficção fosse, mais fácil seria acreditar nesse destino. Mas por ser tão real, fica ainda mais difícil crer. E pensar que há duas horas minha única preocupação era se conseguiria afogar tudo em uma única dose.
Não consegui.
Volto para casa. As ruas desertas. Dizem ser perigoso, mas não sobram alternativas para quem é daqui. Violência é cotidiano. Medo é opcional.
Quando finalmente o terno cai e os sapatos libertam os pés, o sofá me convida a descansar. Desligo os pensamentos, suspiro profundamente. “Ok, google: tocar música”.
As minhas músicas.
O restante das minhas energias vão direto para o celular. Mas a verdade é que nenhum entretenimento do smartphone consegue suprir minha necessidade de dopamina.
O cheiro do meu perfume doce começa a se confundir com o estofado cheio de pelos de gato que cultivei durante tantos anos. E digo com tranquilidade que é o ambiente mais aconchegante da casa.
Do meu lado, o piano que já não toco, junto da prateleira de mangás que nunca mais pude ler. A maioria dos passatempos fora se deteriorando com o tempo, mas alguns outros, como a escrita, voltam ocasionalmente para me lembrar dos prazeres antigos do tempo de colégio.
Assim nasce esse texto.
Por último, antes que o sono pudesse me tocar para sempre, levo a mão ao peito esperando sentir a mesma hesitação que um terceiro poderia me proporcionar, mas descubro que um estímulo tão ínfimo não vai me satisfazer.
Então, finalmente, termino aqui com um convite: aceita me fazer companhia? Atenciosamente, Senhorita M.















