Você mastigou todo um dicionário e eu ainda sou capaz de tirar poemas de você, da gente, desse corpo que mal se mexe no chão em busca de ar. O afeto que sai da sua boca, que seu punho desenha, marca nas paredes e papéis já não revoluciona nada. É fraco, falso, falta tempero. Meu analista, entretanto, disse que preciso encontrar o significado. Do afeto. Engraçado. Com a mesa já posta e equipamentos em mãos eu percebi que planejava examinar a coisa errada, o que me foi dado enrolado num pedaço de grama, num nó singelo, rodeado de flores sobreviventes do pavimento não era afeto, não era amor, não tinha cuidado, tampouco sei o que era. O afeto pode até revolucionar, mas você nunca o teve. Te falta a coragem pra tanto, te falta grandeza. O amor bondade que movia montanhas se esvaiu dos seus olhos de sol e de repente tudo virou escuridão de novo, sem cor, sem cheiro, numa devastação digna de filme hollywoodiano. Quando o amor morre não há muito o que dizer, não sobra nem mesmo tempo pra se lamentar, e não foi diferente. As palavras ainda me escapam, você às engoliu todas, egoísta que é, mas eu ainda guardava essas poucas escondidas no fundo de mim, na certeza de que um dia voltaria a precisa-las. Eis que se eu fosse um espelho e me colocasse na sua frente a sua imagem guardada em mim se chocaria contra esse desconhecido que te habita, que eventualmente tenho o desprazer de encontrar caminhando pela rua, me gerando desconforto com a mesma capacidade de um fantasma. Como na afirmação de Einstein, a relatividade do tempo fez desse quase um ano que se passou bem diferente pra nós dois. Mas graças a Deus que passou. Um ano foi necessário pra começar a tirar suas raízes do meu peito, e chego até a sorrir de novo pensando em tudo que a vida me reserva, principalmente por saber que seu turbilhão de caos não passará mais por aqui devastando tudo. Te prometo nunca mais ouvir Perota, nem Zimbra, nem Rubel ou Castello Branco. Ventos de Netuno do 5 a seco só ouço quando o peito aperta muito e preciso me lembrar que já doeu mais, mesmo que eu esteja anestesiada agora... É melhor que tentar tirar notas tortas do violão num quarto pequeno e sem luz. É melhor que tentar encontrar um jeito de fingir que ainda funcionava. É melhor que ter o outro lado da cama vazio mesmo quando achava estar acompanhada. É melhor não ter o seu sorriso comigo agora que eu sei o quanto ele te custava. É melhor sorrir sozinha, sem ferida. É melhor agora que sou de novo minha casa, a porta tá sempre livre pra eu passar.