O Santuário do Sagrado Coração de Jesus, Monte de Santa Luzia, Viana do Castelo, PORTUGAL
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O Santuário do Sagrado Coração de Jesus, Monte de Santa Luzia, Viana do Castelo, PORTUGAL
White-bellied Hummingbird by Kusi Seminario Behar Via Flickr: Colibrí de Vientre Blanco Elliotomyia chionogaster
Por eras, acreditei que a luz era a morada última da alma
e que a sombra era apenas um exílio,
um território de queda,
um desvio da graça.
Mas o espírito, em sua arquitetura secreta,
jamais se ergue sem antes atravessar ruínas.
Há um equívoco antigo na linguagem dos homens:
o de chamar profano aquilo que apenas pulsa fora de sua compreensão.
Profano.
Como se o desejo não fosse liturgia.
Como se a carne não fosse altar.
Como se a fúria, a fome e o delírio não fossem também idiomas do divino.
Passei muito tempo apartando céu e abismo dentro de mim,
como se fossem forças inconciliáveis,
como se a claridade e a treva travassem uma guerra eterna em meu peito.
Mas hoje compreendo:
não há guerra.
Há dança.
Uma coreografia arcana entre o fulgor e o véu.
Minha luz nunca foi solar.
Nunca pertenceu ao excesso do dia.
Ela sempre foi lunar.
Uma claridade oblíqua,
delicada e espectral,
dessas que não rasgam a noite,
mas a beijam.
Minha alma é lua.
Mas minha sombra...
minha sombra é oceano abissal.
Um ventre escuro onde repousam os fragmentos que exilei de mim:
os desejos indizíveis,
as dores sem nome,
as nostalgias de um lugar que jamais habitei nesta existência
e, ainda assim, recordo.
Durante muito tempo temi essas águas.
Confundi profundidade com perdição.
Silêncio com vazio.
Escuridão com ausência de Deus.
Que ingenuidade.
Porque é precisamente no fundo,
onde a luz não ousa permanecer,
que o sagrado se faz mais antigo.
Mais cru.
Mais verdadeiro.
Há templos submersos em nossas sombras.
Há relíquias esquecidas no lodo daquilo que negamos.
E toda iniciação exige descida.
Não se adentra o mistério pelos portões da pureza,
mas pelas fendas da própria fratura.
Hoje sei:
a sombra não é o avesso da luz.
É sua gestação.
Assim como a noite prepara a aurora
e o útero obscuro prepara o nascimento.
O divino não habita apenas a serenidade das preces,
mas também o tremor da carne,
o incêndio do desejo,
o colapso das certezas.
Porque Deus, ou o Nome que antecede todos os nomes,
não é apenas ordem.
É também caos primordial.
E talvez despertar seja justamente isto:
não ascender como quem foge da própria noite,
mas submergir nela
como quem retorna ao ventre primeiro do universo.
Ali,
onde o sagrado e o profano se dissolvem,
onde a luz se curva à sombra
e a sombra devolve à luz sua profundidade.
Ali onde, enfim,
a alma deixa de escolher entre céu e abismo
e aprende a ser ambos.
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Há algo de sagrado no olhar, não falo apenas da beleza que se revela na íris ou na cor que reflete a luz do mundo, mas daquilo que transborda além da matéria. O olhar é linguagem secreta, é um livro que não se escreve com palavras, mas com verdades. Há quem passe a vida inteira lendo romances, teorias, tratados e ainda assim jamais consiga compreender o que significa ser atravessado por um par de olhos que se demoram nos seus. Com você eu descobri essa outra dimensão, não foi imediato, mas foi inevitável. O instante em que seus olhos encontraram os meus foi como se o universo tivesse se calado, nos concedendo a eternidade de um segundo. Desde então percebi que o amor não mora em declarações ou em promessas, mas nesse espaço quase invisível onde um olhar sustenta o outro sem medo. Eu amo ler o que seus olhos têm a dizer, principalmente quando me olham e brilham, mostrando que sua alma é mais radiante do que o próprio sol. É como se cada vez que nossos olhares se cruzam, uma nova revelação se escrevesse dentro de nós, um segredo que só a sua presença é capaz de decifrar. E nesse instante eu percebo que não preciso de provas nem de certezas, porque nada é mais incontestável do que a verdade refletida no brilho dos teus olhos. Há quem diga que os olhos mentem, que aprendem a disfarçar sentimentos, mas os nossos não sabem fingir. Eles denunciam nosso desejo, quando tentamos nos manter firmes, revelam nossa força quando o mundo parece pesado demais e confessam um amor que talvez nós não ousemos colocar em palavras, mas que lemos com clareza. É essa transparência que nos desarma, essa intensidade que prende. Por vezes, penso que seus olhos são portais, não para outro mundo, mas para a sua essência. Quando me perco neles, não encontro máscaras nem artifícios, apenas a verdade nua daquilo que você é. E talvez seja por isso que eu me encantei com esse abismo luminoso: porque me reconheço ali. O amor, afinal, não é feito apenas de gestos ou de promessas. O amor é esse instante silencioso em que dois olhares se encontram e se reconhecem. É ali que o tempo deixa de correr, que as feridas se tornam pequenas, que a vida inteira parece caber dentro de um único segundo. E se me perguntarem onde habita o seu amor por mim, eu não apontarei para cartas, flores ou lembranças. Eu apontarei para os seus olhos, porque é ali que o seu coração se revela inteiro, é ali que encontro a verdade que me sustenta. Pois nada no mundo é mais vasto, mais intenso e mais eterno do que a história que seus olhos contam quando se encontram com os meus.
— Diego em Girassóis de Vênus./ licença poética Valentina S2