Prefácio do livro
Tudo o que é lembrado é fictÃcio. A memória é um sistema
de armazenamento contaminado com subjetividades,
fantasias e elipses. A escrita é sempre uma ficção,
portanto não é necessário embaçar a linha tênue que
separa um relato factual de um relato fictÃcio: essa linha
é embaçada por natureza.
Nos contos que apresento nas próximas páginas, eu aumento
o volume da promiscuidade entre ‘o que aconteceu’
e o ‘inventado’ na tentativa de criar um hÃbrido de
memória e invenção ancorado em dados geográficos e
temporais que podem corresponder ao fatual ou não.
Eu arrisco dizer que cada unidade de escrita formata
como conto ou relato é, na realidade, um documentário
da minha imaginação durante o ato de escrever (o
fatual se limita à decisão de escrever). Elas são a transformação
de um processo quÃmico do meu cérebro em
sinais gráficos que primeiro passam pela versão digital
do meu computador e, se destinados a um final mais
feliz, às páginas de um livro.
Nas páginas de um livro, a ficção se torna um fenômeno
fÃsico na forma de um objeto com odor, volume, textura,
uma confortante presença em nossas vidas como um dos
artefatos mais simples e influentes que a humanidade
inventou. Um livro é a condensação de milhares de fios
narrativos, lampejos e ideias que pelas mãos do escritor
se aglutinam e tomam forma para chegar até o leitor
como uma nova experiência.













