Um defeito de permanência
Mesmo sem você aqui, tenho funcionado. Uso essa palavra porque viver, às vezes, parece uma máquina com passarinho dentro. A gente acorda, abre as janelas, responde o mundo, põe o corpo para cumprir suas pequenas engenharias. Por fora, quase nada denuncia. Por dentro, algumas coisas continuam em estado de experiência.
Você fica como ficam certas bactérias boas: invisível, insistente, fazendo fermento onde eu pensava haver ausência. Não é exatamente saudade. Saudade é palavra muito arrumada para isso. O que sinto parece mais um resto de sinal atravessando uma antena velha. Uma frequência que não chega limpa, mas chega.
Eu quase não penso em você. E quando penso, penso como quem encontra um inseto dentro de um livro de física: não era para estar ali, mas agora faz parte da explicação. Há dias em que tua lembrança passa pequena, sem barulho. Há dias em que ela encosta no meu peito e muda a pressão atmosférica da casa.
Ouvi, certa vez, que um dia novo não nasce para apagar os antigos; nasce, às vezes, só para provar que a terra não morreu depois do incêndio..
Você ainda é parte da minha origem no mundo. Também é parte dessa infelicidade miúda que eu carrego sem fazer cerimônia. Uma espécie de ferrugem bonita no instrumento. Não atrapalha a música inteira, mas muda o timbre.
Eu sei, algumas pessoas não vão embora. Viram temperatura, mania, ruído de fundo. Ficam morando nas dobras da matéria, nesses lugares onde a ciência ainda não sabe distinguir lembrança de fantasma.
Quando dá, desenho um sol no chão. Quando chove, deixo apagar um pouco.