Entre borboletas e silêncios: o que o pré-amor me ensinou
Quando vemos algo bonito e nos deparamos com o encanto de uma energia estranha, mas ao mesmo tempo boa, é uma sensação única, diferente e impossível de explicar em palavras. Essa é a fase inicial do sentimento amoroso. Se formos parar para analisar a reflexão geral, essa fase é chamada de paixão, mas creio que se encaixe em pré-amor. É importante deixar claro que esse algo bonito que nos envolve inicialmente não é necessariamente a beleza como conhecemos. Para além disso, o que torna alguém interessante ao ponto de fazer nascer o pré-amor em nosso ser é a essência — o primeiro perfume, não literal.
Gosto de pensar que essa fase é aquela que nos prende a ponto de esquecermos de todo o resto. Ficamos tão presos ao aconchego e à necessidade de se sentir amado e amar que queremos os momentos eternizados. Nasce a vontade de ser livre ao lado daquela pessoa – o que é irônico, pois esquecemos da liberdade de ser sozinho, sem perceber. Eis que aí mora o lado sombrio, quando não é dosado corretamente e a terapia não está em dia.
Não dá para negar que essa é a sensação que a maioria de nós busca, e quando a sentimos, morremos de medo de tudo o que pode dar errado – o que é outra parte ruim dessa sensação emocionante. É difícil até para mim entender se, no contexto, estou aplaudindo o pré-amor ou depreciando-o sem intenção, mas creio que minhas reflexões sejam válidas. Apenas quero destacar que todas as fases do amor têm o seu lado florido e o seu lado obscuro, como tudo na vida. Mas o fato é que a escolha de qual lado seguir é totalmente nossa.
Minha conexão com o pré-amor começou cedo. Eu tinha 16 anos e era completamente introvertida, por ter sido criada sem muito contato social, a não ser na escola. Esse fato me levou aos aplicativos de relacionamento – sim, eu menti que tinha 18 anos para acessar o Tinder, mas quem nunca mentiu sobre alguma coisa, não é mesmo(?) Conheci um menino e, como toda menina nova e de cabeça emocionada, eu me encantei por ele. Todo domingo saíamos e passávamos o dia juntos. Teria sido lindo se o final não fosse trágico! A sensação era de borboletas no estômago, e as conversas e toques eram únicos — pelo menos para mim eram. Pelo visto, só para mim, pois no fim percebi que me doei em solidão, mesmo estando apreciando o momento a dois.
Eu tinha muitos problemas de relação em casa, o que me desencadeou depressão e ansiedade — traumas do século. Por isso eu andava meio para baixo, mas esse menino foi, por um período, o meu refúgio. Porém, isso não durou muito. Como todo amor de adolescência, esse não foi diferente. O que me trouxe o desastre foi o motivo de ele ter decidido se retirar da minha vida: minha depressão, minha negatividade. Esses foram os motivos que ele mencionou e que o fizeram partir de mim — e me partir.
O que aprendi com esse pré-amor naquela época foi que o amor não era para mim, que jamais iria querer alguém novamente e toda aquela bobagem de adolescente exagerada e sentimental. Mas hoje, com 27 anos, posso ver uma lição diferente. Vejo que os momentos não deixam de ser bons por algo ruim, e que a escolha de descartar o amor só porque alguém não soube amar é toda minha. Além disso, com muita terapia e choradeira, aprendi que as relações em que eu me colocava eram reflexo do que eu buscava nos outros — algo que já existia em mim mesma. Não há nada melhor do que se dar amor, porque ninguém vai te amar como você mesma se ama.
Em resumo, o pré-amor é a sensação inicial do querer mais — como um perfume bom que você toma banho antes de sair, para que o cheiro fique em cada esquina e a lembrança do seu rosto permaneça. É a sensação do desconhecido a ser descoberto, aquele interesse curioso que desperta logo de cara quando a química bate. Sentimento único que abre um pouquinho do coração e aquece o interior do ser. “Borboletas no estômago” é uma frase curta para definir essa experiência tão complexa e imensa.
É importante lembrar que o pré-amor pode ser algo que se sente pelo outro, mas principalmente, algo que devemos sentir por nós mesmos primeiro. Gosto da ideia de associar essa fase de amar ao sentimento de sentir por si próprio também, pois isso me ajuda a entender que não dependo de outro alguém para ter essa sensação. Posso senti-la ao deitar na cama à noite, sozinha, e ouvir as músicas que amo e que me abraçam através do toque e da leveza das palavras cantadas. Para mim, essa sensação vivida individualmente é como ouvir Chico Buarque, deitada debaixo das cobertas, de olhos fechados, imaginando o mundo que existe em mim.
Falar dessa primeira fase do amor é falar de amar o outro, mas, antes de tudo, amar a si em primeiro lugar. Quando me amo, não tenho a busca pela necessidade de ser amada; logo, não sofro de ansiedade pensando em tudo o que pode dar errado na minha vida amorosa quando alguém novo chega. Faz bem pensar nessa fase do amor e lembrar de bons momentos ao lado de alguém, mas também lembrar dos bons momentos que tive sozinha. Não sei se consegui ser clara nessa breve reflexão sobre o pré-amor, nem sei se consegui expressar o que estava se passando pela minha mente quando decidi iniciar este discurso, mas, se você é louco como eu sou, vai entender cada parte desse pensamento confuso e desorganizado que, no fim, faz sentido para a alma de quem tem sede de si.