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@f-oible-blog
Abri as portas, perdi as chaves e deixei você entrar. Como fui estúpida. Perdi-me novamente em teus mares e me afoguei em lágrimas. Não sei se é motivo para tu te orgulhardes, mas você me torna impotente e me causa dúvidas. Nós realmente não temos futuro, pois eu não tenho efeito algum em você. Sou tua garota certa, na hora errada. Quanto você, o garoto errado, na hora totalmente errada. Mesmo que tu sintas algo por mim, é passageiro. Desculpe o vocábulo, mas, vindo de você não tem como durar. Esses teus olhos verdes não se apegam fácil à outros olhares. Não se apegam nunca. E quando essa tamanha façanha acontecer, bem, eu ainda não vou ser a dona do teu coração. Mas você, querido, sempre vai ser o dono de minha essência. E por mais que eu não goste de você, eu sempre vou gostar de você mais do que você de mim. Eu ainda estou perdidamente apaixonada por ti, mas do que eu deveria, talvez. Mas do que eu já consegui algum dia. Mas do que eu aguento. Você vem me desequilibrando desde que nos conhecemos. Vem me acabando, me esgotando. Me tirando do chão. E eu, estupidamente, te aceitando. E sua melodia monótona vem me atormentando. Olhos verdes, o holofotes estão brilhando sobre você. É arrepiante o modo como isso faz sentindo, pois mesmo depois de tanto tempo eu ainda te quero de toda a alma. Eu ainda te coloco sobre um pódio e te faço ganhador de meu coração. Você me torna clichê. Você e teus cabelos castanhos, olhos verdes e pele macia. Você e teu ego inflado. E eu, estupidamente sem motivos, vou aceitando esse teu jeito de me mudar. Esse teu jeito de lembrar de ti e esquecer de dizer para mim: Ele é perda de tempo. Pois você, querido, não passa de uma perda de tempo. Perda de sono e de voz. Você não vale à pena. Mas vai entender esse meu coração leviano que teima em te lembrar toda vez que tem de esquecer. Que teima em você. Mas eu fico na esperança de um fim verdadeiro e direto. De um fim que aumente esse abismo entre nós dois e que tire desse meu peito esse sentimento canalha. Gabriela e Willa.
Inconstante. Metamorfose ambulante, perdida em quimeras e anseios, dividindo um café numa tarde banal de domingo no bar da esquina, com um desconhecido. Desencontrada. Duvidosa, desconfiada, confusa. Guardava a mesma mania de segunda-feira, despertava todas as manhãs com o mesmo peso no peito. Supria uma melâncolia doce, mas tão antiga que poderia ter provindo de outra vida. Ela era ela. Eram dela aqueles olhos castanhos definhando eternamente num avelã nostálgico. Eram dela os lábios ressecados, ainda assim corados, chamuscados de leve pelo cigarro. Eram dela as unhas curtas e bem feitas, com o esmalte corroído. Eram dela as pernas magras e esguias, seguindo meio sem rumo a mesma rotina todos os dias, desde que aquela doçura meio triste se instalara em seu coração. Era dela aquele jeito meio cansado, fatigado de todos. Sentava no canto do bar engordurado, lá no fundo, e se recostava na parede, quase se abrigando ali. Com o tempo o homem encorpado de bigodes passou a perceber sua presença. Notava o cabelo louro recortado meio torto, e servia o mesmo café amargo. Ela ficava ali, sozinha. Ocasionalmente pedia panquecas. Descansava os pés no assento vazio a sua frente, e observava os minutos correrem. Hoje ela arranjara companhia meio sem querer. Um jovem alto, com o cabelo escuro e sem corte bagunçado caindo displiscente na testa. Os olhos mais escuros ainda que os dela. Perguntou se podia sentar ali, como quem não quer nada mas ao mesmo tempo quer tudo, como quem pensa “Um não é tudo o que pode acontecer.” Ela disse que sim sabe-se lá por que. Eles falaram sobre o clima, é claro. Falaram sobre o café, sobre o homem encorpado de bigodes que atendia ali. Ele contou um pouco da sua vida, contou da faculdade de direito que fazia obrigado pelos pais. _”Mas você já tem 19.” A voz dela, baixa, mas não leve. Pesada e quase morta. Ele ri parecendo satisfeito, “ao menos disse alguma coisa.” Dá de ombros. _”Eles querem que eu termine a faculdade por causa do dinheiro que dá ser advogado.” Enquanto falava ele fitava a mesa de madeira, traçando padrões imaginários com os dedos no prato vazio a sua frente. “Acho que eles estão certos, no final.” “Então por que reclama?” Ela não disse em voz alta. Assentiu e tomou um gole do café amargo, agora quase um purgante, descendo frio pela garganta. Não falou da sua vida, embora ele esperasse ansioso que ela movesse novamente os lábios nem que fosse num murmúrio. Ela tinha um jeito legal, ele pensava. Sorria pouco, mas tinha a feição tão bela que isso não contava. Mas seria bom se ela sorrise. Mais uns dois ou três minutos de conversa e o rapaz se levantou. Quando ele sorriu amarelo da porta do bar, o vento gelado agitando os cabelos escuros, ela quase se compadeceu e correu até lá. Ele havia sido gentil aguentando tantos minutos de diálogo com o marasmo em pessoa, merecia o beijo que usara como pretexto para seus sorrisos pacientes. Ao menos o número do orelhão da rua da mãe dela. Ela ensaiou um sorriso e ele saiu parecendo decepcionado. Observou através do vidro embaçado do bar ele atravessar a rua e desaparecer numa esquina. Olhou o relógio de pulso, ajeitou a gola do casaco e levantou, meio mole. Preferiu deixar o dinheiro no balcão, não estava disposta a encarar o olhar de estranhamento do desconhecido de bigodes. Abriu a porta do bar com um rangido, abraçou forte os braços magros, e seguiu pela calçada com aquele andar sem rumo e meio molengo, a cabeleira loura dançando ao vento. Por um momento pensou em dar meia volta e seguir o rapaz com quem conversara, ao menos virar a mesma esquina. Seus pés pisaram as ruas sujas, porém, e guiaram-na até o número 12 de uma casa apertada entre dois prédios altos. Parou. Pendeu a cabeça, o cabelo recortado caiu de lado, e fitou todo o caminho por onde tinha vindo. Uma moto passou rugindo com uma buzinada insolente. Ela destrancou a porta e girou a maçaneta com os dedos gélidos e frios, e o olhar perdido, eternamente indagando, que também era dela. Bateu a porta e o vento, barrado, viu-se obrigado a rumar para outras casas e prédios, enquanto ela retornava a morbidez, o gosto amargo do café forte ainda na boca.
Juliana Nery (salt-rain)
Respiramos fundo ao mesmo tempo naquele dia, depois nos viramos pra olhar a cara do outro e rimos. Você me aconselhava sobre a vida, me ensinava como eu tinha que fazer pra ser feliz. Ia falando e pausando, tragando o cigarro e olhando os pés. Porque você tinha medo de deparar com minha testa franzida de desdém, porque eu não gostava de conselhos, ainda não gosto. Mas ainda assim eu não quis te interromper. Fiquei ouvindo enquanto você falava da minha vontade de ser feliz, e de como eu estava fazendo do jeito errado. No fundo eu quis te falar que felicidade não se ensinava. Mas eu te conhecia há tanto tempo, conhecia sua risada, que de tão verdadeira me dava vontade de rir junto. Eu sempre me perguntava se você ria assim só comigo, até que um dia sai contigo e um grupo de amigos teus e percebi que era só o seu jeito de ser. Senti alguma coisa pinicando a garganta, acho que era o meu orgulho. Aí eu respirei fundo ao mesmo tempo que você pousou o copo de cerveja na mesa e soltou o ar preso pela boca. Eu me virei para te olhar na mesma hora que você virou pra me olhar. E rimos. E eu percebi que não importava muito se eu não fosse a dona do seu riso mais bonito, ou se você saísse por ai rindo com todo mundo. Bastava ter você ali, rindo do meu lado. Nesse nosso último encontro depois que o inverno chegou, e ficou frio demais para sair, você não estava fumando nem nada, nem olhava os pés. Só tinha as mãos enterradas nos bolsos do sobretudo. E quem sabe porque dessa vez você me olhou nos olhos, e eu não segurei a língua; ou quem sabe porque eu nunca mais te vi desde então, não sei dizer. Por algum motivo eu me lembro de cada detalhe daquela tarde, talvez simplesmente porque eu tinha mesmo que lembrar, ou porque eu queira lembrar. Lembro de você me chamando pelo meu nome inteiro, lembro de você rindo de como meu sobrenome soava estranho. Lembro do sorrissinho que eu dei ao te ver falar daquele jeito, e da vontade que me deu de pular no seu pescoço e nunca mais largar. E lembro de ter sentido um arrepio na espinha quando você disse todo sábio que eu nunca ia ter o que eu queria, e que estava dando as costas ao que eu precisava. O arrepio foi subindo até a nuca quando eu perguntei, num murmúrio, do que eu precisava, e você me olhou nos olhos pela primeira vez para me aconselhar, e deixou claro que eu já tinha. Meus olhos arderam e dessa vez fui eu quem baixou o queixo para olhar os pés, mas era o vento. Eu não queria chorar, eu queria perguntar: O quê? Me diz. Me diz que você se deixou escondido nessa frase também, junto com mais uma tranquilharia de livros, cds e banalidades. E naquele momento a minha mão direita estava vazia e fria, pousada no banco de madeira. As tuas mãos, quentes e protegidas. E eu só queria que você retirasse uma mão do bolso, uma sequer, e a arrastasse até a minha mão gélida. Queria que você fizesse isso porque eu com certeza ergueria os olhos pra te olhar, e saberia mesmo sem você precisar dizer. Mesmo sem eu precisar perguntar. Mas você só enterrou as mãos ainda mais fundo nos bolsos, e eu me resignei a suspirar e sorrir de leve, comentando como o vento era bom ali. O que era uma mentira. Agora o vento parecia atravessar a minha alma, e os meus olhos lacrimejavam nos cantos. O silêncio estranho foi a sua deixa para ir embora. E hoje enquanto a primavera não chega, essa é a minha deixa para não te procurar. Enquanto eu fico aqui sozinha, lembrando dessas coisas, eu invento mil verdades subentendidas naquela sua frase, e todas elas são negadas no meu interior. Eu me pego perguntando a mim mesma do que eu preciso, e a resposta é sempre a mesma. Mais pela ausência do que por qualquer outra coisa. O que me faz pensar que estava todo mundo certo sobre o valor das coisas perdidas. Mas essa é só mais uma das coisas que eu nego. Porque não importa do que eu preciso, eu fico me torturando com pensamentos sobre outro alguém ao teu lado aquele dia. O que você faria? Teria quem sabe chegado mais perto, deixado as mãos desprotegidas para proteger outras mãos. E se não fosse eu ali? Quem sabe se eu erguesse os olhos, eu te visse e enxergasse o que eu insistia em deixar no escuro. Mas e você, o que veria nos meus olhos vidrados e castanhos? E eu concordo com você em um ponto, porque o que eu quero é muito simples também. Fuma cigarros e encara os pés quando vai dar conselhos. Talvez eu nunca tenha mesmo o que eu quero, e talvez não seja de mim que você precise nesse inverno. Embora o meu medo irracional me diga que eu preciso só de você e de mais nada. Por isso eu te dou as costas agora, e aguardo a primavera chegar. E torço para que a realidade faça jus a música, e que tudo mude dessa vez.
Juliana Nery (salt-rain)
Como apagar seu nome da minha história? Fadiguei-me de ter de fingir não ser tua de corpo e alma e sei que você também se cansa desta brincadeira cretina. Aliás, você não sabe fazer-se de ferro e simular não ser afetado por minha face. Par à mim, pois eu também não sei. Nós dois tentamos esconder a saudade que temos dos abraços que costumavam ser o refúgio do cansaço e do stress que nos comprometiam durante o dia. Tentamos, sabendo que não teríamos sucesso, pois isso se torna inexecutável quando se trata de um sentimento tão grande. E com a mesma ideia, eu faço a minha escolha decisiva para o final dessa história que se fez tão longa, que enjoou. Te deixo. Mesmo sabendo que todo moço alto, de pele branca, olhos castanho-esverdeados e de cabelos bagunçados, vão me fazer pesar o coração e que todos os passos que eu der em frente, vão ter uma vontade desumana de voltar atrás, te deixo. Sabendo da impossibilidade de te esquecer, eu tento conseguir tal proeza. É hora de dizer adeus às inconstâncias, pois como dizem, o fim justifica os meios. Por mais que esse não seja o fim, afinal eu ficarei presa à ti por um bom espaço de tempo, essa frase se encaixa perfeitamente aqui e agora. […] Não se trata apenas de mim ou de você, mas sim de nós, do que nos tornamos com o tempo, com o rumo que a as coisas levaram, porque até ontem éramos apenas eu e você, e mais nada, mas hoje somos eu, você, e mais milhões de outras coisas que nos separam. Não podemos viver nesse vai e vem, não podemos continuar na incerteza, e você sabe bem que eu sempre fui muito certa perante o que sinto, e muito correta com as coisas de minha vida, não seria agora que perderia o rumo. Deixamos todo o sentimento escapar, como um sopro de pequenas pétalas no ar. Mas hoje pergunto-me onde foram parar, para onde foram as promessas, os planos ? E as memórias, pra você vão ficar apenas as boas ? Pois pra mim irão. Não deixarei poluir-me de sentimentos repugnantes ao teu respeito, pois apesar de tudo, eu bem sei que me amou, apenas não foi capaz de lidar com esse turbilhão que sou, pois sempre fui tudo ou nada, oito ou oitenta. Pensarei apenas nos bons momentos, naqueles em fizeste-me a mulher mais feliz, naqueles que pude sentir-me realizada, tudo por ti. Saiba que não te deixo por um erro teu, pois sempre fora um anjo para mim, deixo-te pelo simples fato de que acabou, e temos que aceitar, como disse não se dá para viver de incertezas, e mesmo não querendo acreditar, acabou, e hoje eu coloco um ponto final nisso tudo. Espero que ainda lembre-se de mim ao final do dia, espero ter te feito um pouquinho do bem que me fez. Te deixo hoje querendo que viver o ontem, te deixo hoje sabendo que sofrerei, pois já estou a sofrer, te deixo hoje sem saber se sou capaz de viver sem ti amanhã. Gabriela feat Letícia.
Continuamos no frio da glaciação, com as memórias vivas na mente e voltando a todo o tempo para nos assombrar. Os olhares, quando se encontram, se perdem num mar de lembranças e eu sinto uma vontade absurda de congelar o tempo para nós dois termos mais uma chance. Mas eu lembro que nossa história não é ficção, e não é nada senão um filme de romance aguado que passa nos sábados à tarde. Então, desvio o foco. Porém, você continua com palavras entaladas na garganta, esperando para serem o milagre de nos fazer um só. Prosseguimos frios como o vento do inverno, cada qual, fazendo seu caminho. Lugares diferentes, que, no entanto, acabam se encontrando em uma encruzilhada mais à frente. Começamos do mesmo lugar, e por mais que tenhamos progredido, acabamos sempre no começo. Reduzidos à corpos repletos por saudade. Não valemos à pena, mesmo assim, o destino continua nos fazendo voltar um para o outro, por mais errado que isso seja. Mas, me diz como tem sido desde a minha ausência. Me conta como você sobreviveu ao meu silêncio abafado por dores e meu olhar distante, procurando encontrar mísera fagulha de sentimento em ti. E, me explica como é que você consegue me deixar como eu nunca estive antes. Eu estou aqui para te ouvir. Estou aqui esperando tua boa vontade de voltar, ou, esperando que o meu orgulho passe. E, se vier, que venha vestido para um funeral. Funeral de dois corações apaixonados, prontos para virarem cinzas, depois de um encontro de olhares tão forte, capaz de colocar em combustão qualquer vestígio de sentimento. Mas você sabe que isso é um mal necessário, e sabe também que preciso desse encontro para ter esperanças e calar minhas inseguranças. Mesmo assim, continua sendo tanta vontade, mas, tão poucas chances de dar certo, que machuca. Gabi Silveira.
Flashback de uma noite comum.
“Sou inútil”, rabisquei essas palavras num caderno que sabia de mais sobre mim do que muita gente. Com pesar, meus olhos transformaram-se em oceanos e eu arfei, com dor no peito imensa. Como uma cascata que acabara de se formar, veio a primeira torrente de água, e a segunda, a terceira, e logo o rio já estava cheio. Lágrimas. O pensamento voou léguas, e num ínfimo instante, voltou para o caderno posto bem à minha frente. Olhei para as palavras escritas e vi a escuridão que elas revelavam. Para algumas pessoas “inutilidade” é fato cômico, que passa. Para mim, entretanto, era doído admitir e eu vivia tentando colocar aquilo na minha cabeça. “Sou inútil. Legal.” Mas eu já havia me conformado. Ser inútil não é bem o problema, a dificuldade aparece mesmo quando se é fraco. E eu fui fraca. E continuo sendo totalmente fraca. E continuarei sempre. Sinto-me atingida a cada palavra tropeçada, atropelada, dita até sem querer. Sensibilidade. “Eles não têm culpa. Ninguém tem.” digo, espantando tais pensamentos doídos. Quase estática, escrevi “Sou fraca”. Suspirei e percebi minhas mãos tremulando. A respiração descompassada me afligiu. Numa tentativa – falha – de organizar as mágoas, caminhei até lugar algum. Parei em frente ao espelho e chorei mais profundo. E chorei. E chorei até a visão ficar turva. A boca secou. Abafei meus gritos desesperados. Senti-me uma desgraçada. Minhas estribeiras se fragilizaram em meio a tanta dor e eu caí no chão. Desmoronei totalmente, com o coração feito borracha no fogo. Se derretendo sordidamente, como se me humilhasse. Sufoquei-me com a respiração desacertada e me embarguei em mais lágrimas. Levantei-me, meio tonta, do chão gelado. Talvez pela hipoglicemia de passar as últimas 12 horas sem colocar comida alguma no estômago. Mas a vontade foi de ficar caída. De se jogar novamente e ficar o resto de minha vida no chão, demonstrando ainda mais a minha inutilidade. Limpei a garganta, tentando desatar o nó. Pus-me de pé em frente ao caderno e fiquei encarando o estojo. Não era bem o estojo, era o compasso, que já, várias vezes servira de instrumento de mutilação. O peito apertou-se, os olhos enturvaram e eu engoli o choro. “Quantas voltas pode dar o coração em um milésimo de segundo, sem antes explodir?” A guerra era interior, se tornando exterior, e apostaria ter sido a pior de minhas guerras. O peito apertou-se mais uma vez e doeu até a náusea. Doeu mais do que o suportável. Mais do que o “doível”. Escrevi “É possível um coração ter cãimbra?”. A letra saiu um garrancho. Minhas mãos tremulavam tanto que nem a caneta eu conseguia segurar. Vieram mais de duzentos insultos em minha mente. Meu coração queimava. E o pior, eu não podia colocá-lo debaixo d’água para ele esfriar, assim como fazia quando queimava os dedos na panela. A vontade era de gritar e sair correndo pela rua, provocando espanto nas pessoas, as fazendo entrar correndo para o conforto de suas casas, com medo, e mesmo assim, sentindo-se inseguras. Pessoas agindo como se eu fosse um leão que fugiu do circo, ou um serial-killer à solta. Mas eu só era serial-killer de mim mesma e só era um leão que fugiu do circo, para mim mesma. Às vezes me passa pela mente que o problema está em mim, e não nos outros, como eu costumo pensar. Às vezes, a culpa nem é da sociedade, é minha mesma. Só eu que faço besteira nessa minha vida. A vida, de vez em quando, assemelha-se mesmo a um soco na cara. Um soco de lutador de UFC em uma pessoa muita da despreparada. Senti-me mais fraca impossível, então a paranoia veio, invadindo os pensamentos. “Eu vou mudar, vou esquecer-me das mágoas, vou ser uma pessoa diferente e feliz”, mas de quê adiantou pensar assim se, minutos depois, voltei ao normal com a mesma autoestima jogada no fundo do poço? Não havia nada que eu podia fazer a não ser chorar. E chorei.
Encarei mais uma vez o caderno e aquelas palavras. Escrevi mais alguns defeitos e observei a escuridão presente naquelas letras. Todos os meus defeitos mais latejantes em uma folha de papel, escritos em letras finas, porém, com peso de letras de neon e garrafais, me atormentando como se dissessem “Veja só como você não presta”. Sofri até a dor de cabeça – sempre presente – tornar-se mais forte, diria até, em seu ápice. Torturei-me tanto com aqueles dizeres (que, supostamente serviriam para aliviar as dores, como a psicóloga disse) que não duvido nada de que não tenham aparecido feridas enormes em meu inconsciente. Traumas antigos misturando-se com traumas recentes e a dor acumulando-se. Admiro muito não ter explodido e virado caquinhos. Admiro não ter morrido de tanta auto insuficiência, já que, eu realmente nunca fui boa o bastante para ninguém, inclusive para mim mesma. Mas já são outros quinhentos.
A noite seguiu doída. Com a dor machucando cada milímetro do corpo e com o peito repleto dos piores traumas. Guerra interior matando aos poucos. Só que nessa guerra, não há ganhadores, e sim, perdedores. E grandes perdedores.
Morri para mim mesma, desde então.
Gabriela Silveira, reflorir-te.
Eu sempre estive do seu lado quando você precisou, e até quando não o fez. Sempre estive disponível pra qualquer pedido teu. Eu vivia por ti, eu vivia de ti. E sabe, foi até bom no começo. Foi bom ter um amor, foi bom sentir aquele turbilhão de coisas ao mesmo tempo. Mas depois tudo se complicou. Eu te amava, incondicionalmente, mas você em algum momento me amou? Creio que não. E agora relembrando de tudo o que vivemos, tenho certeza de que eu não passei de uma qualquer pra você. E eu sempre fui cega em relação a tudo que se tratasse de você. Sabe aquela frase ” O amor é cego.” ? Pois bem, ela se encaixa perfeitamente a mim. Todos me alertavam que você não valia nada, que iria acabar me machucando, que você não se apegava a relacionamentos sérios. Mas eu o amava tanto que não conseguia ver defeitos em você. Bom, eu notava que eu não era pra você o que você é pra mim, mas eu tinha esperanças de um dia ser. Como eu fui tola ao ponto de achar que você pudesse sentir algo por mim ? Você nunca amou ninguém, não é mesmo ? porque comigo seria diferente ? E eu fico me martirizando por ter perdido tanto tempo com alguém vazio como você. E podia ter qualquer um, eu podia sair de casa a noite e voltar dois ou três dias depois. Podia brincar de machucar o sentimentos de qualquer um, como você fez comigo. Mas eu preferi ficar com você, eu preferi acreditar na ideia de que por mim você iria mudar. E acabei me tornando mais uma das idiotinhas da tua lista de corações quebrados. Mas não vai ficar assim não. Você não vai encontrar alguém tão idiota como eu pra aturar tuas frescuras, ou alguém tão apaixonado ao ponto de não se importar com os teus insultos quando estiver bêbado. A questão é, você nunca vai encontrar alguém como eu. E quando se der conta disso vai querer voltar, vai se arrepender de um dia ter me deixado ir embora. Vai se arrepender por não ter me feito feliz enquanto podia. Mas aí meu querido, já vai ser tarde demais. A fila anda, as pessoas mudam e amadurecem, e agora chegou minha vez de brincar. Vou provar que posso ser mais cretina que você e vou mostrar meu lado mais mau-caráter. Meu lado mais escuro que o teu mais claro. Nesse momento, eu já vou ter explodido de canseira de ter te esperado e vou ter parado de forçar meu brilho para você me perceber. Vou jogar na tua cara que não existe nem mais a chance de eu-e-você, e nem sequer, nós. E não me venha pedindo segunda chance, por que chance foi o que não faltou. Foram mais de cem, - sim, eu contei - portanto, me dê razão pela canseira. Quando eu partir, mais um vez, não venha dizer que eu não te avisei. Esta é a última chance. Letícia (en-t0rpecida) e Gabi (reflorir-te)
Você é o feitiço que me tomou e é o veneno que me mata aos poucos todos os dias. É meu cemitério, e, acima de tudo, é a minha dor mais dolorida.
Tive a pior das recaídas por você, hoje. Agi como o mais infantil, otário e estúpido ser vivente nesse mundo, e fiz uma descoberta. Mas ainda não sei o que foi. Só queria que você me respondesse, com o resto de sinceridade que ainda resta em você, se é que eu já não suguei toda ela com as minhas perguntas absurdas e sem respostas. Mas não há nenhuma resposta que seja baseada em fatos reais que atenda às minhas vontades. A minha vontade de ouvir que estou louca ou que tudo não passa de uma brincadeira do meu inconsciente, só tentando escolher o que vai jogar fora. Entretanto, não é apenas parte do meu cérebro que reage ao seu estímulo, ou seja lá o que você queira ouvir. É meu corpo inteiro explodindo, molécula por molécula, quando eu te vejo e o orgulho grita. É o meu sangue afinando por causa de tanta adrenalina que meu cérebro insiste em liberar quando você passa perto de mim. São meus músculos tendo uma terrível e dolorosa cãibra me fazendo desequilibrar e cair no chão. É a incerteza pulsando em cada veia, vênula, artéria, arteríola e capilar de meu corpo, fazendo-o tremular com a alta pressão. Você estava tomando conta de mim, tomando conta do meu corpo e de meus movimentos. Naquele momento eu só desejava você, não interessava nada, eu só queria você, sempre quis, eu só sabia mentir bem. E fingia muito bem, sempre fui uma boa atriz, mais você sempre foi o meu ponto fraco, a minha kriptonita; uma kriptonita boa sabe? Você fazia com que os meus movimentos cardíacos fossem mais rápido, me fisgava a cada olhar, me derretia a cada toque, pareceria uma coisa tão idiota e besta. Mas não era. Era você. Era eu. Era uma mistura de nós dois. Será que é possível isso? Gabriela e Victória.
WHAT MAKES YOU FEEL BETTER WHEN YOU ARE IN A BAD MOOD?
testando ask