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Aqua Utopia|海の底で記憶を紡ぐ

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Sade Olutola
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@falsaprosodia
hoje meu quarto amanheceu mais escuro do que de habitude. não sei se foi minha percepção ou se sempre foi assim. durante a noite um vazi
agora eu tenho um diário online - uma desculpa pra tentar voltar a escrever
Joy Sullivan, “Want", Instructions for Traveling West
viennaskye
Les Nymphes (after Bouguereau) by Luis Ricardo Falero (1878)
forma e substância
tudo é tão simples que cansa. acordar e olhar pela janela para ver o sol é simples. é tudo simples, não banque a vítima. a complexidade é a soma de substâncias simples. é só fazer aquilo que se tem que fazer e tudo vai ficar bem. mais um dia, mais um amanhã, mais um final de semana. é tão simples, mas então por que tanto cansaço? cansada por nada, com que direito pode-se deitar pacificamente em uma cama, se o peso da inutilidade humana em cima do peito causa asfixia e a incapacidade corpórea faz o sal inundar os olhos? cada milésimo passa e se perde tanto tempo. tanto tempo olhando com olhos salgados os brilhos longínquos de estrelas mortas, estrelas que não fazem parte do presente, mas tem sua existência passada disseminada pela percepção intocável do agora. o tempo é a unidade de medida daquilo que não pode ser sentido, só percebido de formas extremamente decepadas, o tempo é limítrofe. as estrelas só podem ser visualizadas se o tempo passar.
pode-se dizer que o tempo tem sido o maior dos medos. o tempo livre é assustador e o tempo ocupado não é possível de ser sentido, se parece como quando você fecha um olho e mantém o outro aberto, tentando enxergar pelo olho coberto. uma elipse temporal em que a minha matéria estava presente, mas o espírito não. inclusive, cadê ele agora? sinto minha falta. a árvore caiu e ninguém viu.
olho pra tudo ao meu redor e não me vejo, acho que me deixei em algum lugar. não foi nos meus livros, nem na minha cama… talvez naquele passado no qual o amor roçava a barba no meu rosto. tão desagradável e tão impossível de não querer manter as coisas do jeito que elas são. a barba machuca mas a proximidade é avassaladora, então deixe estar. preciso que você compreenda, meu bem; eu espero um dia deixar de sentir como se eu tivesse entrado de penetra em uma festa onde todos amigos dançam em felicidade enquanto eu perco tempo esperando que alguém me convide para dançar também.
o pertencimento não é uma necessidade basal do ser humano, todo mundo tem a condição perfeita para se manter em pé com as próprias pernas, então vá e dance, mesmo que sozinha, mesmo que aos prantos. por que não? o que se tem a temer? ah, você não quer ser vítima de pena, mesmo que ninguém esteja te olhando. se você soubesse como é forçoso e dolorido para as pessoas enxergarem o mundo pelos olhos das outras. para isso elas precisariam abandonar a própria dor e assumir a do outro, imagina? mesmo assim, às vezes, quando tudo me dói demais e a atmosfera adquire uma pressão antinatural, eu busco imaginar como aquela mulherzinha ali está se sentido ao atravessar a rua, ou como aquele menino correndo com seu cachorro se sente extasiado. me pego sorrindo por eles, mas eles não sorriem.
em um momento gostaria de assumir uma forma que não a minha; queria viver a vida de outra pessoa em outra casa com outros gostos, outros amores. gostaria de sentir o tempo a partir de outra substância. é possível gostar da própria vida, existe liberdade e também certa aventura, mas ao invés de tentar aventurar-se e provar dela, tentamos desesperadamente nos parecer com nós mesmos; eu assumo um papel cotidianamente, e por isso, eu sinto saudades de mim. espiralando no meu próprio centro de massa, sendo moldada como uma argila pelas mãos dos ceramistas exteriores. e mesmo guilhotinados pelas lâminas do teatro cotidiano, nós vivemos. e vamos viver como se não estivéssemos assistindo o nosso redor em putrefação. todo mundo parece saber o que está fazendo, então vamos seguir em linha reta, fila indiana. não vale espiar, hein? de qualquer forma, as pequenas faíscas de vida real não podem ser percebidas com um holofote cego de ambição em cima delas. uma espiral também pode ser uma linha reta, depende do ângulo de quem vê. o que mais poderíamos fazer de qualquer forma? tudo morre. a gente tenta não morrer e acaba trancafiando a vida longe da realidade. me dei conta que não basta apreciar a vida para não atrair a morte. a gente vive circulando a morte, a morte existe pra vida se fazer real; é a possibilidade dos fins de todas possibilidades. e nessa possibilidade temporal onde a possibilidade fatal não se encontra, temos pouco o que fazer. um dia vai ficar tudo bem.
morrer é simples, viver é que cansa.
Na praia, de noite, sozinha
Costumava viajar para praia com minha família de três em três meses desde que vim ao mundo, repetidamente. Nunca foi meu lugar favorito, tampouco me extasiava, exceto pelos momentos que passava com meu pai. Era nosso lugar, nossa rotina passageira. Todo final de tarde íamos caminhar pela beirada do mar, conversando sobre tudo, por horas que não importavam; nesse momento não parecíamos pai e filha, mas amigos.
O pôr do sol era apaziguador, o céu se cristalizava em um espectro de cores e tudo parecia possível, o cheiro do sal marinho flutuava ao nosso redor enquanto monologávamos por horas a respeito do nosso próprio universo desconhecido um pelo outro. Eu lembro que contava muito sobre o meu desejo de mudar de cidade e de montar a minha vida, e, naquele momento, ele parecia querer saber o que eu planejava dela.
Eu rego essas memórias com o máximo de carinho que me há, porque é o que me resta. As memórias, o pai e a criança que hoje já não fazem mais parte da minha realidade material. Mas eu ainda vou caminhar pela praia, só que desta vez sozinha.
Assisti ao filme On the beach alone at night (2017) dir. Hong Sang-soo e a mensagem subentendida e carregada de intenção em cenas de uma rotina solitária não poderia ser outra. Há alguém realmente habilitado para amar? Ou a gente tenta seguir caminhando e aproveitando a vista da praia, do mar e do pôr do sol da forma que nos cabe, mesmo depois de sermos deixados sozinhos nesse lugar?
Estou relutante de escrever algo já faz algum tempo, em parte porque não senti que havia algo proveitoso para ser escrito. Hoje, no entanto, não consegui pensar em outra coisa além de tentar esmiuçar como é ter vinte anos e pensar o que poderia ter feito de diferente para não ser deixada na praia sozinha. Não estou escrevendo em tom lamurioso, e os que me tomam assim devem rever o próprio conceito de solidão. Na solidão existe paz, existe respiração.
Em grande parte cogito em como tudo passou, o momento em que alguém estava lá e o futuro em que alguém que não estará. Ter vinte anos é uma confusão total. Não tenho a maturidade suficiente pra agir como gostaria ao mesmo tempo em que não tenho um norte a seguir porque tudo que já fui não é palpável, não é visível e tecnicamente, deixou de ser. Talvez seja isso, somos ciclos que terminam e reiniciam em si mesmos, enquanto outros ciclos terminam e encontram o fim a onde começaram. Ciclos, círculos, espirais e finais. Tudo é, até que não é mais.
É impossível fugir do tempo e da memória, eu prefiro sentar e apreciar aquilo que guardei no mais profundo de mim. Então sentarei e apreciarei o mundano e o solitário. E poderei dizer que talvez a paz em ter vinte anos é enxergar a luz da inconstância existente na constância, na onda e na correnteza, e acima de tudo, abraçarei passivamente o estado onírico da solitude.
E é óbvio, estarei na praia, onde é quieto e pacifico.
Tu foste simplesmente à tua vida e eu fui à minha. Como sabes, eu vivo por relâmpagos; contigo partilhei uma trovoada um pouco mais longa do que o habitual. Foi apenas isso.
Até que a ausência de si mesma acabou por fazê-la cair dentro da noite e pacificada, escurecida e fresca, começou a morrer. Depois morreu docemente, como se fosse um fantasma. Não se sabe de mais nada porque ela morreu. Adivinha-se apenas que no fim ela também estava sendo feliz como uma coisa ou uma criatura podem ser. Porque ela nascera para o essencial, para viver ou morrer. E o intermediário era-lhe o sofrimento.
Túlio viaja. A sós. E o tempo passa.
Túlio nos ares, asa, e amplidão,
E o poeta morrendo, a sós, na casa,
O coração nos ares
Ai, coração, lamenta e apaga
Teu existir de sangue
Essa desordenada convulsão
Porque Túlio viaja e não te sabe.
Sabe apenas de si, e das notícias
Supremas da política, dos homens
Fica atento à eloquência
E de ti, coração (antes que a pedra
Se julgue irmã da tua matéria
Ouve, contido): De ti, Túlio não sabe.
Porisso volta à terra, esquece os ares.
Das tripas coração
"Que destino, ou maldição, manda em nós, meu coração?"
Prometo juradinho nunca mais falar em amor.
Amor? a quem? por quem? por que amor?
Gostaria imensamente de enfiar dois dedos no fundo da minha garganta e vomitar essa toxina que me atrofia o estômago e me faz acreditar nas palavras mais sem sentido que somente quem ama compreende.
No final das contas quem cometeu o crime e tem culpa sou eu mesma, sim meritíssimo, prisão perpetua. O amor não é um convite? Não é uma xícara de chá recém feito acompanhado de "estou te esperando?". Bom, nesse caso devo dormir com o peso da minha culpa e enganação por todas as noites. Sou vítima e réu de amor doloso.
Se eu desconfiasse por um segundo que o amor seria a condição da azia do espírito, eu teria pulado do barco antes de aprender minhas primeiras palavras. E jamais, jamais eu deixaria essa manifestação se formar em um som que eu mesma emitiria, das minhas próprias vibrações vocálicas. Jamais.
E o velho Lacan diz que a linguagem é a estrutura do desejo e do inconsciente. Bingo. Então quando eu reproduzo um "eu te amo", eu também estou cometendo um equívoco. Sendo assim, nunca o que se diz é o que se sente. O que eu verdadeiramente quero expressar vai além de um desenho, de uma onda e de uma frequência. O que eu digo é o retorcido mais íntimo de mim mesma.
Olhando no fundo dos olhos do amor, noite de chuva fina. Noite sozinha, abafada. Intocável. Noite de olhos de amor e lágrimas salgadas. Que posso eu dizer? Não amo. 100 navalhas perfurando a minha carne não fariam justiça. Olhei no fundo dos olhos do amor e ele me negou. Ou eu neguei? Não houveram palavras, só o silêncio do que pode ser Deus. Olhos nos olhos, queixos trêmulos e desencantamento. Já que o som não pode se propagar no vácuo o amor também não pode. Ouviu amorzinho? não pode. Aqui você não toca.
Mas e se eu te deixar entrar sem querer, só por um tempinho, promete não fazer nenhum som? nenhuma palavra? Não vai me maltratar? Não vai me fazer contorcer e abraçar minhas próprias pernas na tentativa de conseguir intimidade e calor? Como no nascimento do amor, posição fetal. Quase fatal.
Adeus, amor.
Leva contigo o meu coração e as minhas entranhas.
Acordei e pensei: vou arrumar meu cabelo e então vai ser um dia especial.
Mal eu sabia, ao acordar e planejar meu dia especial, que nesse mesmo dia especial eu pegaria o último ônibus especial do dia no meio de uma chuva forte e todo o meu preparo especial iria pro esgoto junto com a chuva.
Se o dia foi especial? Nem sei o que especial significa.
Coisas aconteceram e outras coisas não; se isso é especial, não tenho como calcular.
O ponto é que enquanto eu espiralava por questionamentos e hipóteses sobre o meu dia, eu esqueci de me acontecer. E eu resolvi escrever isso, por outra razão que não há de ser calculada.
Por um momento me pareceu que sim, não somente o dia foi especial como todos os outros foram, e eu esqueci de acontecer; de uma forma reativa e instável, as coisas aconteceram e eu não.
Lembrei de um momento especial, hei de contá-lo:
Estava novamente (porém anteriormente) no último ônibus do dia, um 343, em uma quarta-feira, pois nas quartas eu saio da faculdade e vou para o Bom Fim, para fazer terapia. Nessa quarta-feira então, um colega resolveu sentar do meu lado, e embora a gente não houvesse trocado nenhum papo muito íntimo até o momento, eu simpatizava com o menino. Fomos por todo percurso conversando, e ele me contou sobre a sua grande vontade de estudar música; não o fazia para não desapontar a família. Ah, disso eu entendo. Senti grande vontade de falar alguma coisa motivacional mas não falei, acho que só cheguei a comentar como a família, no final das contas, não precisava ocupar um espaço dessa grandeza na vida de alguém.
Embora eu também tenha sido uma acontecida do "viver de". Viver de algo? Mas viver não é verbo intransitivo? Viver precisa de complemento? Não basta o viver?
Vejamos: nos primórdios, quando iniciei o plano mirabolante de sair de casa, a grande pergunta advinda do meu ninho familiar foi "Mas vai viver de quê?". Ainda não sei responder tal pergunta. Acho que duas outras perguntas poderiam ser produzidas a partir dessa primeira pergunta: "Como vai viver?" e "Como vai sobreviver?".
Hoje, ainda sem muito de quê viver, eu vivo. E também sobrevivo. De quando em quando também morro. E se deixar acontecer, num ciclo impermeável e incansável de vida, sobrevida e morte basta. Basta para viver. Vivo de quê? Vivo de vida. E as vezes também não aconteço.
Nota: A dama da noite só floresce uma vez ao ano.