Goliath Dunmore Jr. a tomou como há muito não fazia para a própria esposa ou o filho, num carinho inesperado que por mais esquisito que fosse para si, estando na presença de seus homens e dos tantos corpos falecidos, dos litros de sangue espalhados pelo chão, não rejeitava e do contrário, escovava a cabeça alheia com a destra muito mole, as costas dela numa sutileza incrível, sempre de olhos azuis mui atentos naquele rosto tão amedrontado - consequência do susto de quase perdê-la, das ameaças que enfrentou até a morte do inimigo, a ideia de quase ter sua família de vez envolvida em seus projetos ilegais, do medo que também o aflorava por isso. ❝ — Eu devo. ” confirmou ao que levava-a pelo pulso para fora do ambiente tão sujo, cuidando para não manchar os mocassins bem lustrados nisto. Se fosse para casa com algum vermelho nas vestes, o quão burro seria, afinal? ❝ — Neste tempo, eles tratarão da limpeza… ” sua cabeça foi de encontro a da jornalista, a boca no canto da dela. ❝ — Relaxe. ”
quarenta minutos depois na entrada da casa de amelia.
No caminho não conversaram minuciosamente sobre nada, ele, muito cuidadoso, apenas despejou-lhe algumas palavras de conforto, dize-lhe em vezes que nada tão traumático voltaria a acontecer e jurou com a própria vida, de mão encostada no peito firme que se ousassem novamente tamanha bastardice, mais sangue seria derramado. Agora, abrindo a porta do carro tão nostálgico para ambos, esperando que a morena saísse, Goliath pensava se realmente deveria continuar com os encontros sexuais, a sociedade. Mas, se os dois se distanciassem, argh, seria chato mesmo pra ele, homem tão cheio de contatos e de ego, seus negócios sofreriam tremendo, inimigos continuariam vivos sem a ajuda de Amelia Griddel. Ele precisava dela, fosse pelas boas sensações que tinham juntos como pelo acordo mais antigo que isso, não negava. ❝ — Posso te acompanhar até dentro. E conversar, se você aceitar… ” era a primeira vez que não usava das ordens com a moça, fantástico. ❝ — Sobre nós, eu digo. ”
Amelia simplesmente não conseguia compreender Goliath Dunmore. Em grande parte do tempo que passavam juntos o homem era manipulador, prepotente, só demonstrando interesse quando tratava-se de sexo. Mas ali estava um lado dele que não conhecia; carinhoso e preocupado, cuidadoso, empático. Tal diferença a confundia, fazia com que seus sentimentos já bagunçados se tornassem uma confusão ainda maior em sua cabeça. Quem era ele de verdade? Se importava realmente com ela ou estava apenas sendo cauteloso para a manter quieta sobre o acontecido e manter o relacionamento estranho que os dois mantinham? Não sabia dizer. Para piorar, nenhuma das palavras dele realmente a acalmavam. Para Mia, saber que mais pessoas morreriam se algo daquilo acontecesse outra vez - o que poderia acontecer, ela sabia disso - não era reconfortante ou heróico, mas assustador. Onde havia se metido, afinal?
Não se sentiu mais aliviada ao estar em casa. Não estava acostumada com aquele endereço novo e o susto que passara minutos atrás ainda remanescia em sua mente, a deixando alerta para qualquer ruído, qualquer som que estranhasse. Ao receber tal proposta - qual estranhara, afinal, ele estava mesmo sugerindo e não ordenando? Estava lhe dando uma escolha? - a morena direcionou seu olhar à ele, o fitando por alguns segundos. Sobre nós? O que queria nós, exatamente, ela não fazia ideia. Mas acreditava que precisava daquilo, talvez despejar o que guardava há tanto tempo e nunca tivera coragem de pronunciar. "Sim, claro. Entre" disse, destrancando a porta de seu novo apartamento para relevar o local tão solitário, tão seu, que Goliath nunca havia conhecido antes.
Deixou sua chave no balcão de sua cozinha americana antes de direcionar-se até o sofá, onde sentou-se, exausta. Apenas naquele instante teve consciência de tudo o que havia passado, de tudo o que havia acontecido. Apoiou sua cabeça entre as mãos, tentando ao máximo controlar sua respiração para que se mantivesse calma. "Por que eu continuo fazendo isso?" Ela sussurrou, fechando seus olhos por alguns instantes, o que provocou pequenas lágrimas em seus olhos. Já nem estava mais brava consigo mesma por chorar. Havia chutado o balde há alguns minutos atrás. "De que adianta?" Questionou, o tom baixo e sereno. Estava furiosa, sim, mas pelo fato de ter se deixado meter em tal situação. Sabia que não havia razão para jogar a culpa nele, quando também era culpada. Entretanto, isso não alterava as verdades que queria tanto despejar. "De que adianta tudo isso se nunca serei mais do que uma putinha que você fode ocasionalmente?" Talvez tenha aumentado alguns tons de sua voz agora, mas sabia que soava mais magoada do que irritada. Não podia negar; tinha sentimentos por ele. Confusos, sim, esses quais nem mesmo Amelia compreendia, mas que ainda residiam em seu coração e faziam com que sentisse a dor presente em si naquele instante. O pior de tudo era saber desde o começo que aquela relação nunca teria um futuro, nunca seria benéfica. Não mudaria o fato de, no final das contas, estar sozinha. Soltando um risinho amargo, quase como tirando sarro de si mesma, Amelia soltou: "Você sequer gosta de mim?"
Tal pergunta era estúpida, é claro, pois sabia a resposta. Nem em seus maiores devaneios Goliath responderia o que desejava ouvir. Ela sempre seria a outra, a amante, e nunca teria tanta importância. Era só mais uma. "Esqueça que sequer perguntei isso. Estou sendo ridícula" confessou, tirando a franja de seus olhos para poder enxergar direito. Agora que tinha seu olhar livre, o direcionou para o Dunmore, sentindo seu coração se apertar cada vez mais. Desejava tanto abraça-lo, beija-lo, deitar-se com ele sem nem ao menos transar; apenas ficar ali, repousando a cabeça em seu peito, sentindo o calor que emanava do corpo alheio. Queria algo normal, apenas isso, mas sabia que tratando-se dele tal palavra não existia. Mia bufou, afastando tais ilusões de sua mente, sabendo que de nada adiantava imaginar tais utopias.