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@filetto666
Vodka Vagabunda
No fundo da garrafa barata encontro sempre a mesma companhia: silenciosa, ardida, cruel. A vodka vagabunda não me pergunta como foi o dia, não me oferece colo nem sorriso. Apenas queima, desce rasgando, me anestesia por instantes, como quem finge carinho só para depois deixar o vazio ainda maior.
Há quem encontre conforto em braços, em olhares, em palavras doces. Eu, não. O meu conforto se esconde nesse gole áspero, que me abraça sem afeto e me recorda a cada engasgo que estou sozinho. E não é a solidão bonita, reflexiva, dessas que se escreve em livros e poemas. É a solidão feia, fria, de alguém que sente falta até de um toque desajeitado ou de uma pergunta banal sobre o que jantei.
O copo suado na mesa é meu único testemunho. Ele não ri das minhas piadas, não se importa com minhas histórias, não percebe minha ausência. Mas é fiel, aparece sempre que o chamo. Talvez por isso eu volte, noite após noite, a conversar com essa vagabunda transparente que me lembra o que não tenho.
No fim, o que dói não é a bebida, mas o que ela tenta encobrir: a fome de afeto que não se mata com álcool algum.
Vida Insuportável!
Há dias em que o ar parece feito de ferrugem. Tudo fede a repetição — o café morno, o barulho do relógio, o caminho até o trabalho. Acordar já é uma agressão. A vida, um turno interminável em uma fábrica sem janelas, onde o produto final é o próprio cansaço.
As pessoas andam apressadas, com os olhos vazios, como se corressem para fugir de si mesmas. Os sorrisos são automáticos, reciclados de outros dias igualmente insuportáveis. No transporte, o cheiro de suor se mistura ao perfume barato e à sensação de que o mundo inteiro está exalando desespero.
Trabalhar virou uma coreografia de sobrevivência. A mente, esgotada; o corpo, em modo de colapso; e a alma — se é que ainda resta alguma —, encolhida num canto, implorando para ser esquecida. Cada tarefa cumprida é uma sentença adiada. Cada elogio vazio, uma pá de cal sobre o pouco de humanidade que sobrou.
O descanso não descansa. O sono é um campo minado de pensamentos que explodem no silêncio. E, quando finalmente se dorme, o sonho é apenas a versão mais criativa do mesmo inferno. O domingo, que deveria ser refúgio, dói mais do que a segunda. É a prévia da tortura.
A vida moderna é uma usina de ansiedade, e cada um de nós é operário e produto ao mesmo tempo. A felicidade virou uma mercadoria vendida em propagandas, e quem não a consome é tratado como defeituoso. Não há tempo para sentir — apenas para produzir, fingir e continuar respirando o ar contaminado da pressa.
Nesse cotidiano insalubre que vamos nos perdendo. Lentamente. Um pouco a cada suspiro. Até o dia em que perceberemos que a vida se tornou tão insuportável que já nem dói — apenas pulsa, mecânica, como uma máquina que esqueceu o porquê de estar ligada.
Um piscar de olhos
A vida é breve. A gente passa tanto tempo acreditando que terá sempre mais um amanhã, mais uma chance, mais um tempo para amar, para pedir perdão, para rir ou simplesmente para sentar à beira de uma janela e ver o mundo passar. Mas a verdade é que não importa se alguém vive dez anos ou noventa e nove: no fim, quando se olha para trás, tudo parece ter acontecido num piscar de olhos.
As rugas, que parecem lentas ao se formar, surgem de repente; os cabelos brancos, que chegam sorrateiros, um dia tomam conta sem pedir licença; as lembranças da infância, que um dia eram tão vívidas, se tornam quase sonhos distantes, borrados pela pressa dos dias que correm. A vida é assim: um punhado de instantes que se acumulam sem que a gente perceba.
E é exatamente essa consciência da brevidade que deveria nos ensinar a viver com mais intensidade. A não guardar rancores como se tivéssemos séculos para resolvê-los. A não desperdiçar palavras de afeto como se o silêncio fosse eterno. A estender a mão sempre que alguém tropeçar, porque um dia seremos nós precisando desse gesto.
O tempo é curto, mas cabe dentro dele uma imensidão de escolhas. Cabe a gentileza, o amor, a generosidade. Cabe a capacidade de olhar para o outro e enxergar um irmão de caminhada. Cabe, sobretudo, a chance de fazer a diferença.
Porque, no fim, não será o número de anos que viveremos que terá importância, mas o que fizemos com eles. E se tudo passa num piscar de olhos, que ao menos possamos piscar com a certeza de que vivemos da melhor forma possível: ajudando, amando e deixando o mundo um pouco menos pesado para quem vem depois.
Ternura
A ternura é o milagre mais silencioso que a humanidade ainda preserva — ou, ao menos, finge preservar. É o intervalo entre o gesto e o toque, o ponto de suspensão entre o impulso e o cuidado. Não é amor, tampouco piedade. É a lucidez do afeto: aquele instante em que a consciência, plena de si, decide, ainda assim, ser gentil.
Tenho para mim que a ternura é um fenômeno quase quântico. Ela não se observa sem que se altere. No momento em que alguém tenta capturá-la — com palavras, selfies ou declarações —, ela se retrai, tímida, como um gato de rua diante da aproximação abrupta. É um estado de vibração, não de posse.
Há algo de subversivo na ternura. Num mundo que premia a performance, ela é o colapso da vaidade. É o olhar que se demora, o ouvido que escuta mesmo o silêncio, o toque que não invade. Um tipo de inteligência emocional tão refinada que roça o absurdo: a de ser bom sem precisar provar que se é.
O curioso é que as pessoas confundem ternura com fragilidade. Mas é justamente o contrário: é preciso uma força extraordinária para ser terno. Só quem já dialogou com o próprio abismo compreende a leveza de não empurrar o outro no dele.
Talvez, se houvesse mais ternura, o mundo seria menos sofisticado em suas violências e mais inteligente em suas delicadezas. Mas a ternura é artigo raro, porque exige tempo — e o tempo, como se sabe, é o único luxo que ninguém mais tem coragem de ostentar.
No fim, a ternura é o mais alto exercício da razão. Não porque explica o mundo, mas porque o compreende e, mesmo assim, escolhe ser gentil com ele.
Taça, Sofá e Inconsciente
Um diálogo imaginário entre Sigmund Freud e Charles Bukowski sobre o desejo
Freud ajeita os óculos, sentado numa poltrona de couro gasto como quem se prepara para dissecar a alma. Bukowski está largado num sofá de bar (que claramente não pertence ao consultório), com uma garrafa de uísque na mão, fumando como se o cigarro fosse o único abraço digno de confiança.
O ar cheira a álcool, angústia e psicanálise.
Freud (calmo, clínico): O desejo é a força fundamental da psique humana. Ele nasce do inconsciente e busca realização, ainda que muitas vezes seja reprimido pelas normas sociais.
Bukowski (tomando um gole generoso): Inconsciente? Doutor, meu desejo é bem consciente: bebida, mulheres e paz suficiente pra não querer socar alguém na cara.
Freud (inclinando-se): O senhor expressa apenas o sintoma. O desejo verdadeiro é mais profundo. Mesmo quando se manifesta como luxúria ou vício, ele carrega uma carência primária. Um anseio por afeto, validação, retorno ao útero — ao estado de segurança absoluta.
Bukowski (rindo, meio rouco): Segurança? A última vez que fiquei seguro foi antes de nascer. Daí pra frente foi só bar, mulher me usando como cinzeiro emocional e a vida me dando tapas na cara. Se o desejo vem do útero, eu nasci desejando escapar dele.
Freud (com paciência de analista): A fuga também é uma forma de desejo. Você deseja escapar da dor, da insuficiência. O seu erotismo e o seu alcoolismo são tentativas de preencher um vazio psíquico, possivelmente oriundo da relação parental.
Bukowski (mais sério agora): Tá me dizendo que eu bebo porque minha mãe não me abraçou direito?
Freud (trazendo um leve sorriso): Não necessariamente. Mas talvez porque algo em você buscava amor e encontrou apenas precariedade. O desejo é a insistência da falta. Desejamos porque algo em nós está incompleto.
Bukowski (acendendo outro cigarro): Então quer dizer que todo esse tesão fora de hora, essa vontade de arrancar a roupa de alguém só porque ela sorriu bonito… é só a falta tentando se maquiar de orgasmo?
Freud: Exatamente. O orgasmo momentaneamente cala o inconsciente, mas ele sempre retorna, pedindo mais. O desejo não quer satisfação definitiva — ele quer continuar existindo.
Bukowski (olhando a garrafa): Então eu nunca vou ficar satisfeito?
Freud: Só se fizer as pazes com o vazio. Mas talvez, no fundo, você não queira isso. Talvez você precise do desejo para continuar escrevendo, bebendo, vivendo. A falta é a centelha da chama.
Bukowski (depois de um gole longo): Então, no fim, eu não sou um bêbado perdido. Sou só um cara fazendo manutenção no fogo interno?
Freud (ajustando o bigode): Algo assim. O senhor é movido por um desejo inacabado e incessante. Como todos nós.
Bukowski (erguendo a taça): Brindemos então… à desgraça que mantém a gente de pé.
Freud (sem beber, mas com um sutil aceno): Ao desejo — nossa prisão e nossa liberdade.
Silêncio. Bukowski bebe para esquecer. Freud pensa para lembrar. O desejo continua ali — ardendo, incompleto, eterno.
O tempo dilata e de lata
O tempo dilata — é o que dizem os físicos, quando tentam nos explicar que o universo se estica como um elástico cansado, e que cada segundo pode ser mais comprido ou mais curto dependendo de onde você está. Mas, para quem arrasta os dias em corredores sujos de hospital, em ônibus lotados ou diante de uma tela de computador que nunca se apaga, essa dilatação não é teoria: é tortura. Os minutos se arrastam como se zombassem, cada segundo latejando na têmpora como um martelo lento.
E, ao mesmo tempo, o tempo é de lata. Sim, lata: esse metal frio, ordinário, reciclável. Assim é a vida que tanto tentamos enfeitar com perfumes, diplomas e selfies bem iluminadas — no fim não passa de uma lata amassada atirada no canto da calçada. Brilha um pouco quando o sol bate, mas logo é chutada para o bueiro.
A finitude é essa piada suja: alguns se esforçam para dar sentido, outros tentam fingir que não existe. Mas a lata está sempre ali, lembrando que tudo o que amamos, cada olhar, cada beijo, cada plano, vai ter o mesmo destino do alumínio descartado. Talvez alguém ainda nos recicle em lembrança por uns anos, talvez nem isso.
O tempo dilata para prolongar a dor, o vazio, a espera sem propósito. E de lata, nos mostra que todo esse esticar não serve para nada além de reforçar o óbvio: não há eternidade, só um metal barato ressoando no fundo do universo.
E ainda rimos, porque é ridículo demais tentar dar poesia a uma lata amassada.
O Silêncio dos Domingos
Domingo à noite tem um peso diferente. Não é só o fim de semana que acaba, é também o silêncio que desce como um cobertor frio, lembrando que eu sigo sozinho. Há algo de cruel nessa hora em que as ruas se esvaziam, as luzes das casas se acendem e cada janela parece esconder um pedaço daquilo que me falta: companhia.
O mundo lá fora parece feito de pares — mãos dadas, risos divididos, conversas que se prolongam até tarde. Enquanto isso, eu me contento com o som abafado da televisão, fingindo que a presença das vozes artificiais pode enganar o vazio que insiste em ocupar a sala.
Não é que eu não queira tentar. Eu quero. Mas há uma muralha invisível, feita de desencontros, expectativas frustradas e decepções passadas, que me impede de alcançar aquilo que parece tão simples para os outros: arrumar uma namorada. Hoje, isso parece quase uma façanha impossível, como se o amor tivesse virado um privilégio restrito, acessível apenas para os que sabem jogar o jogo das aparências e da superficialidade.
E eu não sei jogar. Ou talvez nem queira.
O que eu queria mesmo era alguém que entendesse o que existe por trás do meu silêncio, que enxergasse além do que mostro por fora. Queria o conforto de um abraço no fim do dia, o riso cúmplice diante de uma besteira qualquer, a calma de adormecer sabendo que, ao meu lado, alguém escolheu estar.
Mas a realidade é outra: domingo à noite, de novo, é só minha. A companhia é o eco dos meus próprios pensamentos e a esperança — cada vez mais tímida — de que um dia, quem sabe, essa rotina de vazio se quebre.
O ruído dos vazios
Há dias em que simplesmente não dá mais para suportar. O mundo virou um imenso espelho rachado, onde todo mundo tenta se enxergar bonito, editado, filtrado, artificial. As pessoas já não falam — elas transmitem. Não olham — elas registram. É um desfile de máscaras digitais, de sorrisos treinados para o reflexo da tela, enquanto a alma, essa coitada esquecida, grita por um segundo de atenção que ninguém ouve.
É repulsivo ver o quanto a vaidade vazia tomou o lugar da essência. Conversar virou um risco; ser sincero, um crime social. Ninguém quer escutar — apenas esperar a própria vez de falar, de se exibir, de vomitar uma opinião reciclada que viram em algum vídeo de 15 segundos. A profundidade assusta, o silêncio incomoda, o pensar virou atraso. O importante é parecer — e de preferência parecer muito, parecer tudo, parecer feliz.
Sinto um ódio sereno, daqueles que não gritam, mas corroem. Um nojo quase filosófico de estar cercado de gente oca, repetindo frases prontas, preocupada apenas com o ângulo do rosto, com o número de curtidas, com o quanto o próprio vazio brilha. É um espetáculo grotesco de carências maquiadas, de egos famintos implorando por aplausos que não significam nada.
E quando, por um instante, tento conversar, de verdade, sobre algo que pulsa, que rasga, que sente — a resposta é um olhar perdido para o celular, um “peraí rapidinho”, um gesto automático de quem confunde presença com conexão Wi-Fi. É aí que percebo: estamos cercados, sim. Mas não de pessoas. Estamos cercados de cascas ambulantes, corpos ocupados por notificações.
E eu, cada vez mais, me pego desejando o impossível — um mundo em que olhar nos olhos ainda valha mais do que atualizar a tela. Um mundo onde o “como você está?” não seja só prólogo para o próprio discurso. Um mundo onde viver não precise ser tão… performático.
Mas talvez o problema seja meu — querer profundidade em meio a um oceano de poças. Talvez seja insanidade esperar humanidade num tempo em que o humano é apenas um filtro bonito sobre a ausência.
No fim, desligo o celular e suspiro. O silêncio volta a ser o único lugar onde ainda existe sentido.
O Riso Amargo do Abismo Um diálogo imaginário entre Nietzsche e Cioran sobre o absurdo da existência
Nietzsche caminha com passos firmes, mas o olhar febril denuncia uma inquietação quase divina. Cioran, reclinado numa cadeira desconfortável, observa a vida como quem assiste ao lento apodrecer de uma fruta caída. Há silêncio. Um silêncio pesado como o fardo de existir.
Nietzsche: A vida é uma corda estendida entre o animal e o além-do-homem. Precisamos dançar sobre ela, rir no rosto do sofrimento, transmutar a dor em potência.
Cioran (bocejando): Dançar? A humanidade mal consegue rastejar. Rir do sofrimento? O sofrimento já é quem ri de nós — com escárnio. Você fala de superação como quem ignora que cada passo é apenas um adiamento do colapso.
Nietzsche (sorrindo, um sorriso quase histérico): A queda é inevitável. Mas cair dançando é mais belo do que viver ajoelhado. Que é a vida senão vontade de poder? Devir! Criar novos valores, afirmar até mesmo o horror!
Cioran: Criar valores é só escolher qual mentira sustentar antes de enlouquecer. Toda filosofia é um disfarce elegante para não admitir que viver é insuportável, mas morrer é trabalho demais. Diga-me: quantas vezes você quebrou antes de afirmar a vida?
Nietzsche hesita — por um segundo, o delírio do “Sim à vida” parece tremer. Sua loucura futura já respira atrás dos olhos.
Nietzsche (baixando o tom): O eterno retorno exige coragem. Amar a vida a ponto de querer vivê-la infinitas vezes, com tudo que ela carrega — essa é a prova suprema.
Cioran: E quem em sã consciência quer reviver sua própria agonia infinitamente? Eu acordaria no primeiro ciclo e imploraria por um fim que não se repita. O eterno retorno não é um teste de grandeza — é a mais sofisticada tortura que um espírito exausto poderia conceber.
Nietzsche encara o vazio como quem tenta encontrar Deus para matá-lo outra vez. Cioran brinca com o nada como quem gira um punhal entediado entre os dedos.
Nietzsche (num murmúrio febril): Ainda acredito no homem capaz de se reinventar diante do caos. O homem que cria sentido a partir do absurdo.
Cioran (quase rindo): E eu acredito no homem que encara o absurdo e percebe que criar sentido é só pintar um sorriso num cadáver. A queda é certa, Nietzsche. Você quer voar. Eu só quero desabar com estilo.
Silêncio de novo. Mas desta vez, parece que ambos entenderam algo: Nietzsche aposta no milagre de um recomeço; Cioran, no conforto mórbido de uma rendição lúcida.
O abismo sorri para os dois — um sorri de volta, o outro suspira.
E a vida continua. Tão absurda que até a filosofia cansa.
O preço do mel
Há pessoas que parecem ter prazer em ser espinhos ambulantes. Você se aproxima com cuidado, oferece o melhor de si, estende a mão com gentileza… e o que recebe de volta é veneno, ironia, indiferença calculada. Como se o ato de ser uma péssima pessoa fosse, para elas, uma medalha de honra, uma forma de se sentir superiores no jogo do desprezo.
E a gente insiste. Porque sempre há aquela esperança tola de que por trás das farpas exista alguma doçura escondida, um restinho de mel que justifique o esforço. Mas a verdade é dura: às vezes, não importa o sabor do mel se ele vem cercado de ferrões. Nenhuma doçura compensa a dor repetida das picadas.
O mais revoltante é perceber que a maldade, para alguns, não é acidente, não é defesa — é escolha. É o deleite de pisar em quem chega perto, como se aproximar fosse um crime. E então você se pergunta: por que diabos seguir tentando colher mel em um enxame que já deixou claro que só quer te ferir?
A indignação nasce aí: não é falta de afeto do mundo, é excesso de veneno em quem se diverte em oferecê-lo. E a lição, amarga, é simples: não adianta oferecer flores a quem só sabe cuspir espinhos.
O Pedido Inusitado
Hoje o plantão me rendeu mais do que histórias, me rendeu um pedido de casamento. Isso mesmo: um pedido oficial, de aliança, véu e grinalda — e veio de uma senhora de respeitáveis 96 anos.
Ela me olhou com aquela mistura de ternura e travessura, segurou minha mão como quem confessa um segredo e disparou: — Quer casar comigo?
Eu, que já estava acostumado a lidar com dores, curativos e até resmungos, não esperava por essa. Ao lado dela, a filha — beirando os 65 — quase se enfiou debaixo da cama de tanta vergonha. Eu mal consegui segurar a risada. Pensei: “Olha só, em pleno 2025, ainda arrumo pretendente sem nem precisar baixar aplicativo”.
Claro, respondi com jeito, porque rejeitar um pedido desses seria um crime contra a delicadeza. Brinquei que ia pensar no assunto, mas que antes precisava ver se eu aguentaria o ritmo dela — afinal, 96 anos não se chega à toa.
E foi nesse instante que percebi: salário nenhum do mundo paga momentos assim. Não existe piso salarial, nem gratificação, nem adicional noturno que compense o privilégio de estar ali, compartilhando risos e constrangimentos que viram lembrança.
Tem coisa que não cabe em holerite. E o pedido de hoje, ah… esse vai comigo pro resto da vida.
O botão do esquecimento
E se eu pudesse apagar? Se bastasse estender a mão e pressionar um botão para que tudo — absolutamente tudo de bom que vivi contigo — desaparecesse de dentro de mim como se nunca tivesse acontecido?
Às vezes penso que aceitaria sem hesitar. Porque dói. Dói cada riso lembrado, cada toque guardado, cada detalhe que insiste em existir mesmo quando você não existe mais aqui. Dói saber que não é a sua ausência que me destrói, mas a lembrança da sua presença.
Mas então eu paro. Respiro. E me pergunto: O que restaria de mim se eu apagasse você?
As memórias boas são também o testemunho de que um dia fui capaz de sentir além da carne, além da lógica. São a prova de que amei com a intensidade de quem não tem medo do abismo. Sem elas, eu me torno um corpo vazio, um sobrevivente que nunca viveu. Você não seria só apagada — seria apagado o melhor de mim.
E é aí que mora o desespero: manter a lembrança é sangrar todo dia. Apagá-la é morrer por dentro.
Que ironia cruel. Você se foi sem precisar decidir nada, sem apertar botão algum. E eu fiquei aqui, prisioneiro da escolha impossível: esquecer e ser ninguém, ou lembrar e ser ferido.
Não vou mentir: já estendi a mão, já desejei não ter te conhecido. Mas no último instante, algo em mim recua. Porque, por mais que doa, ainda prefiro carregar a cicatriz do que ser alguém sem história.
Então não. Não aperto botão nenhum. Prefiro o tormento. Prefiro o peso. Prefiro a dor.
Porque é através dela que sei que fui inteiro. Que te amei. E que, mesmo sem você, ainda amo.
Manual prático para existir sem acreditar em nada
Acordar é um insulto. O corpo insiste em funcionar como se ainda houvesse motivo, como se respirar fosse uma conquista. Não é. É apenas mais um capítulo repetido de uma peça que ninguém pediu para atuar.
O trabalho? Uma ironia mórbida. Passo os dias cercado de excremento, de corpos que já desistiram, de olhares vazios esperando a sentença final. Dizem que é vocação, que é cuidar, que é humanidade. Palavras bonitas para disfarçar o óbvio: sou um vigia da decomposição, um funcionário terceirizado da morte. E no fim do turno, ao invés de reconhecimento, sobra o silêncio — aquele mesmo que acompanha o cadáver quando o zíper se fecha.
Lá fora, a paisagem é pior. Uma feira de vaidades rasas, cada rosto vendendo felicidade de vitrine enquanto a alma apodrece no estoque. Conversas programadas, risadas mecânicas, conexões feitas da mesma substância que espuma: enchem, mas somem sem deixar nada. Quem busca profundidade afunda sozinho, porque os outros aprenderam a nadar só na superfície.
E então, para quê insistir? Não há esperança, não há luz no fim do túnel. Só a lâmpada oscilante de um corredor que nunca termina.
O único respiro, se é que se pode chamar assim, vem à noite. Coloco nos ouvidos o mais depressivo do DSBM e deixo a música me arrastar para o fundo. Há algo honesto naquilo: não há promessas, não há finais felizes, só dor crua, vomitada em guitarras dissonantes e gritos que rasgam o vazio. É quase um hino de resistência: não pela vida, mas contra ela.
E é nesse som, distorcido e sufocante, que adormeço. Não com esperança de um amanhã melhor — isso já é piada velha — mas com a resignação de quem entende que amanhã será igual. E depois também. Até que um dia não seja.
Não há consolo. Não há lição. Não há propósito.
Só o arrastar dos dias, a monotonia da dor, e o riso cínico de quem percebeu que a vida nunca prometeu nada — e cumpriu.
Logo Passa, Mesmo que logo seja o resto da vida
Disseram que ia passar. Que toda dor, cedo ou tarde, se desfaz no tempo como a espuma do mar na areia. Falaram com aquela leveza típica de quem nunca carregou um vazio do tamanho do mundo no peito. Falaram “logo passa” como quem diz “boa noite” — automático, frio, bem-intencionado, mas distante da realidade de quem sente.
Mas o que fazer quando esse logo parece um infinito? Quando o “vai passar” vira uma promessa quebrada a cada amanhecer? Quando o tempo não cura — só ensina a doer em silêncio?
Ela se foi. Não com um vendaval, não com gritos ou brigas. Foi embora como se nunca tivesse estado. Fechou a porta sem fazer barulho, mas o estrondo da ausência ainda ecoa aqui dentro.
E o que dói não é só a ausência. É o contraste. Porque ela foi tanta coisa. Ela foi riso em tarde nublada, foi calma no meio do caos, foi o toque certo nas horas erradas. Foi poesia em dias áridos, abrigo em tempestade emocional. E mais que tudo: foi importante. Importante de um jeito que marca. Que transforma. Que não se esquece mesmo tentando.
Outros amores já vieram antes. E todos deixaram algo — uns arrancaram páginas, outros levaram pequenas partes do coração. Mas ela… ela foi diferente. Ela não levou só um pedaço. Ela levou o coração inteiro. E a alma foi junto, arrastada sem cerimônia.
Agora eu existo como quem sobrevive. Como quem caminha em ruínas tentando encontrar algum resto de si. E é estranho porque, por fora, tudo segue: o trabalho, as conversas, o riso forçado, os compromissos. Mas por dentro… por dentro ainda é ela. É sempre ela.
Talvez o mais cruel do abandono seja o que ele sussurra: "você era descartável". Mesmo que a gente saiba, racionalmente, que não era. Mesmo que o amor tenha sido real. A forma como ela foi embora fez parecer que eu nunca estive, nunca importei. Que todo aquele carinho, toda aquela troca, toda aquela presença… não passou de distração para ela. Mas para mim foi destino.
Ela foi o amor inesquecível que eu não queria ter lembrança. A história mais bonita que terminou sem ponto final, só com um espaço em branco — onde deveria haver explicação, há só silêncio.
Dizem que vai passar. Talvez passe mesmo.
Mas talvez esse “logo” leve o resto da minha vida. E, mesmo se passar… eu nunca mais vou ser o mesmo.
Lâmina e Estratégia Um diálogo imaginário entre Sun Tzu e Miyamoto Musashi sobre a derrota
Em um pátio silencioso, vazio como o intervalo entre um golpe e outro, Sun Tzu e Miyamoto Musashi sentam frente a frente. Não há plateia, não há discípulos. Apenas duas lendas cujas cicatrizes já aprenderam a conversar por elas.
O vento balança as folhas de uma árvore antiga. Talvez ela tenha visto tantas derrotas quanto eles.
Sun Tzu (calmo, olhar distante): A derrota nasce muito antes da batalha. Ela começa no momento em que se subestima o inimigo — sobretudo o inimigo que habita dentro de nós.
Musashi (cruzando os braços, firme): A derrota só existe quando a espada cai do espírito, não da mão. Perder uma luta não significa ser derrotado, mas sim ter sido acordado.
Sun Tzu: Um bom estrategista evita a luta desnecessária. A melhor vitória é aquela conquistada sem batalhar.
Musashi (com meio sorriso): E um bom guerreiro entra na luta sabendo que talvez não volte. A vitória sem risco é apenas uma dança com sombras. Só se conhece a lâmina quando ela toca a morte.
Sun Tzu (erguendo a sobrancelha): A emoção nublada é o primeiro passo para o fracasso. Aquele que luta com ódio já entrou derrotado.
Musashi (encarando o chão, pensativo): Mas aquele que luta sem paixão é apenas um corpo em movimento. A frieza é útil, mas o fogo é o que mantém a mão firme no vazio.
Sun Tzu: Então, segundo você, a derrota é um mestre?
Musashi: Não. A derrota é uma forja. Ela queima, destrói e reconstrói — se você tiver a coragem de não fugir das chamas.
Sun Tzu: E se a derrota for total? Se nada restar para reconstruir?
Musashi (olhando para o horizonte): Sempre resta algo. Nem que seja a vergonha — e a vergonha é um bom ponto de partida para quem ainda tem honra.
Sun Tzu fecha os olhos como quem revisita guerras antigas que só existiram no tabuleiro da mente. Musashi, por outro lado, revisita cortes reais, cada um um aprendizado escrito na pele.
Sun Tzu: A derrota estratégica é aceitar perder agora para vencer amanhã.
Musashi: A derrota filosófica é entender que vencer amanhã nem sempre é mais importante do que não se render hoje.
Sun Tzu: Você encara a derrota como parte inevitável do caminho do guerreiro.
Musashi: E você a trata como um erro de cálculo.
Sun Tzu (sereno): Talvez sejamos duas faces da mesma lâmina.
Musashi (levantando-se, ajeitando as espadas): A lâmina que ignora a derrota é cega. A que teme a derrota é fraca. A que aprende com a derrota… corta o destino.
O vento para. Nenhum dos dois declara vitória naquele diálogo. Porque ambos sabem: até as palavras podem ser derrotadas pelo silêncio certo.
Eu já tive calma demais
Eu já tive calma demais, engoli a seco cada injustiça, mastiguei o veneno em silêncio como se a dor tivesse que entrar sem grito. Fui manso. Fui brando. Fui brisa quando eu era tempestade.
Mas agora… Agora meu sangue ruge como trovão em greve, meus punhos cerram versos como armas, meu peito queima feito fornalha de revolta. Chega. Minha paciência morreu engasgada no orgulho dos outros.
Cansei de sorrir para quem arranca minha pele com unhas pintadas de falsidade. Cansei de entender, de esperar, de aceitar. Minha calma virou cárcere, meu silêncio, cova rasa para os gritos que neguei.
Eu já tive calma demais — tanta que quase esqueci que existia fogo em mim. Mas agora as brasas viraram incêndio, e eu não vou apagar. Que o mundo se prepare: eu deixei de ser lago sereno, virei mar em fúria, e não peço mais perdão por afogar quem tenta me conter.
Fui pacífico até sangrar. Agora, sou tempestade vingativa, revoltado, voraz, indomável. E se me chamarem de exagero, responderei com trovões: Eu já tive calma demais — agora eu queimo.