SONETO DE FIDELIDADE
Vinícius de Moraes. São Paulo , 1946
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Estoril, outubro de 1939
Tenho pensado bastante a respeito do amor. Será que amor dito verdadeiro, morre? E, se morreu, logo não era amor verdadeiro? Sinceramente, eu não tenho respostas concretas para as minhas indagações.
Lembrei no meio dos meus devaneios, esta poesia de Vinícius. Meu poeta, poetinha, do qual tenho grande apreço, diz que amor morre sim. Consigo interpretar a partir do Soneto de Fidelidade, que há dois momentos em que o amor pode morrer: quando a chama apaga e quando a morte chega. Irei explanar a minha ideia perante as duas possibilidades.
Tratarei aqui especialmente sobre o amor Eros, relacionamento conjugal, por tanto o amor é responsabilidade de duas pessoas.
Uma das minhas metáforas favoritas é dizer que, o amor é como uma fogueira, se não a alimentarmos, a chama se apaga, a luz se esvai e o frio nos apossa.
Sendo assim, dizer que o amor é eterno, é condená-lo ao fim, pois aceitar essa condição, o deixará em uma posição de acomodação, que o impossibilitará de alimentá-lo.
Não há como impor uma relação sem variações. Nós, seres humanos, não somos estáveis o tempo todo, imagina então uma relação que é feita de duas pessoas completamente diferentes. Dito isso, quando uma relação está estável, saudável, vejo que as duas pessoas colocam lenha na mesma proporção, em um ritmo que mantêm um fogo de bom tamanho, para que os dois sintam-se confortáveis, seguros, felizes. Quando há um desequilíbrio, este ritmo fica sem harmonia, às vezes o fogo quase se apaga, e às vezes tem aquelas explosões, mas logo volta ao normal. E em outros momentos, quando a relação começa a se tornar uma relação insalubre, uma das partes começa a desistir de colocar mais lenha.
Existem vários motivos para que alguém desista de alimentar a fogueira chamada amor. Aquela fogueira já não lhe agrada mais, não a representa, quer ver outras fogueiras queimar, acha que pode fazer uma fogueira melhor com outrem, ou simplesmente quer traçar uma nova trilha. Nunca se sabe ao certo o porquê da desistência e nem quando, de fato, deve-se parar de alimentá-la, são circunstancias da vida que acontece.
E essa desistência traz sim dor para ambas as partes, afinal, voltaram para a escuridão e o frio dói como uma ferida aberta. O que resta é partir, o resto da fogueira já não serve de nada.
Porém, existem aqueles casais que se tornaram mestres nesta história de manter essa chama acesa. É aqueles que escolheram juntos, alimentar a fogueira, dia após dia, apesar dos pesares, perante momentos de tempestade e ventania. Estes, realmente, fizeram do amor mais que uma chama, tornou-o um verbo de ação, amar, e como todo verbo de ação, precisa de uma atitude, movimento, eles escolheram conscientemente continuar amando, independente da situação. Eles se preocupam genuinamente se o outro está aquecido, a ponto de muitas vezes fazerem sacrifícios. Mesmo assim, há dias de variação de tamanho e intensidade da fogueira. E são esses que só deixarão a luz apagar, quando a morte chegar. Mas, a meu ver, este amor não morre, permanecerá aquecendo corações daqueles que tiveram a sorte de presenciá-lo.
Não acredito que amor que se apaga, antes da morte de alguma das partes, não é verdadeiro. Todo amor é verdadeiro. Independente de quanto tempo durou, então concordo com Vinícius “que seja infinito enquanto dure”, pois mesmo este amor que morre, é bonito, é quente, e sendo amor, suas lembranças ainda aquece o coração. Se ele começou, não tinha pretensão de acabar, pois se já tinha pretensão de acabar, não era amor. Mas se acabou, foi infinito enquanto durou.
- Hoje sou, Cravo-de-amor.