Relutei em escrever esse texto e as palavras faltaram muitas vezes, mas, às vezes, escrever faz diminuir a dor que a gente sente no peito e também traz a sensação de coletivo que tanto tenho sentido falta nos últimos tempos.
Há exatos 10 anos eu estava morando e trabalhando com direitos humanos na Palestina.
Hoje meu pensamento está com o menino Noor, que estava conversando comigo na entrada da sua aula, foi preso pelo exército israelense na minha frente e fez xixi na calça de medo enquanto era levado. Com o taxista que pra casar com uma palestina de Jericó, teve que abdicar de seu acesso à Jerusalém e provavelmente nunca mais poderá ver sua família que ficou pra trás. Com as crianças do orfanato de Tulkarm, que eu visitava semanalmente e que foram abandonadas por suas famílias que sofrem com a ocupação na Palestina. Com a família de 1 mãe idosa e 3 filhas que moravam na última casa da vila de Kfar Qaddum, que virou palco de manifestações diárias graças a chegada de um assentamento ilegal de colonos israelenses. Com as crianças que me mostravam com felicidade as bombas de gás que caíram em suas casas na véspera.
Com a família que morava em um sobrado em Jenin e que quando o marido viajou a trabalho, teve seu segundo andar ocupado por soldados que ficavam tocando o terror pra mulher e crianças sozinhas na casa [e que também ameaçou a mim e a ju com rifles quando tentamos dialogar]. Com os trabalhadores que passavam situações humilhantes para atravessar os checkpoints às 4h da manhã e chegar aos seus trabalhos. Com a senhora que carregava sozinha um carrinho de mão de esterco/adubo e foi proibida de acessar suas plantações. Com as crianças de Nazlat Isa que tinham que passar diariamente por checkpoints e ter suas mochilas revistadas para ir e voltar da escola. Com as muitas mulheres que tiveram que parir dentro de um checkpoint porque não tiveram tempo de atravessar. Com o casal que ao chegar em casa após sua festa de casamento, foi surpreendido com a casa totalmente demolida. Com o pai que queria levar seus filhos pra conhecer o mar que ele sempre frequentava na infância. Com Hasan, um senhor de 80 anos que saiu pra cuidar das suas ovelhas e sumiu por alguns dias pra depois ser encontrado com seus ossos quebrados e cheios de sinais de violência desacordado sob uma oliveira. Com Fuad, rapaz surdo-mudo que ganhou uma maçã de um soldado, e se ao virar para beber água, tomou uma cassetada na cabeça. Com a jornalista que recebeu acido na sua cara de uma colona israelense apenas por registrar outras violências dessa mesma colona. Com as famílias de presos que faziam protestos semanais pacíficos com as fotos de seus parentes. Com Muatasim Radad, um preso político que tinha câncer terminal e teve seu tratamento e seus remédios para dor negados. Com o amigo preso por organizar manifestações e que, depois de solto, foi recebido por seus companheiros com receio de ter se tornado um espião. Com os pintinhos de um pequeno fazendeiro que se bicavam até a morte com medo dos barulhos das bombas e tiros ou que se sufocavam com a fumaça. Com as oliveiras carregadas de azeitonas cortadas e destruídas nas vésperas da colheita. Com a vila beduína Mak Houl que era conhecida por ser pacífica e foi completamente demolida. Com as ruas de Hebron que precisam de redes para segurar o lixo e resíduos corporais que são atirados das casas israelenses que ficam nos andares superiores. Com algumas das pessoas num Campo de Refugiados que, achando que eu era da ONU, me xingavam por tê-los abandonados.
Ultimamente essas e tantos outros palestinos não saem dos meus pensamentos, com muitos acabei perdendo contato e hoje penso: como será que elas estão?
Certamente não estão vivendo tranquilos em segurança, frequentando show do Bruno Mars, Raves no deserto… ou sequer tendo tempo pra lutar por seus direitos enquanto mulheres ou lgbts. Como se vive sob uma ocupação tão cruel? Aliás, como se sobrevive? Quais efeitos os últimos 75 anos tiveram nessas pessoas? Sem contar nos últimos 17 anos do cerco à Gaza.
As crianças daquela época já são adolescentes, os jovens viraram pais e mães de família, alguns dos adultos estão entrando na terceira idade, os idosos ja devem ter descansado. Será que tiveram paz?
Nos últimos dias várias pessoas estão pedindo paz. Paz pra quem? Como é possível existir paz sem justiça? Como pedir paz pra um povo que vive sufocado? Um povo em que a cada família de 5 pessoas, 1 delas é presa política. Um povo que vê seus parentes, amigos e companheiros serem bombardeados a cada mais ou menos 3 anos.
Dá pra pedir paz?
Dava pra pedir paz pros judeus na época do levante nos guetos e campos de concentração? Dava pra pedir paz pros sul africanos na época do Apartheid? Dá pra pedir paz pras mães e pais de crianças cariocas assassinadas nas favelas do Rio por “balas perdidas”? Dá pra pedir paz pros familiares dos desaparecidos da época da Ditadura Militar? Dá pra pedir paz pra família de Marielle Franco e Sâmia Bonfim?
A paz tem que ser justa… ou senão, não é paz.
Não existe paz sem justiça.












