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@fredwaesleyii-blog
Elysian | August 2023
ELYSIAN (adj.) beautiful or creative; divinely inspired; peaceful and perfect.
pronunciation | el-‘E-zan (el-EE-sian as in vision)
A chuva forte característica dos fins de tarde de verão, diferente do previsto, não deu trégua quando a noite chegou. Você tentou argumentar, dizendo que seria melhor aproveitarem o conforto de sua cama ao invés dos sacos de dormir da tão conhecida barraca, mas parecia que ele era tão determinado quanto Roxanne quando se decidia por algo.
Foi por isso, e somente por isso, que você praticamente implorou para que sua mãe permitisse que usassem mais uma vez o quintal de casa como quarto.
Pelo menos ele parecia feliz, quando você conjurou todos os feitiços que Angelina havia recomendado ao redor da barraca para que não acabassem adoecidos, com um sorriso contente brincando em seus lábios e olhos cerrados em satisfação.
Você só se perguntava se era humanamente possível não sorrir ao encarar aquela cena, porque você não conseguia reprimir o curvar dos seus próprios lábios para cima quando olhava.
Como em um ritual combinado desde que vocês provaram dos lábios um do outro no início daquele mesmo verão, assim que você entrou no local improvisado, deitando-se ao seu lado, ele se acomodou no seu braço ao que você se aconchegava sobre o amontoado de travesseiros espalhados pelo pequeno espaço disponível. Era uma posição estranha para quem os olhasse de fora, mas para vocês, não havia nada mais confortável.
Não demorou muito tempo para você sentir os dígitos sempre frios entrarem em contato com a sua pele morna e maculada por desenhos cujo significado você acreditava que só você compreendia. Ele sempre, sempre te perguntava o porquê de ter feito cada tatuagem, mesmo sabendo o motivo pelo qual te levou marcar cada gravura em sua tez.
Acontece que isso o aproximava mais de você, porque era algo íntimo, porque era um segredo seu que ele guardava.
“Não dá para ver nenhuma estrela hoje” o seu murmúrio saiu sob um suspiro, temendo quebrar o momento agradável que compartilhavam. Ele só resmungou alguma coisa, não interrompendo a curiosa exploração de seus dedos, e se seus olhos não estivessem fechados, você poderia apostar qualquer quantia que ele iria revira-los. Talvez existisse um pouco mais da personalidade Slytherin dentro de Lysander do que ele mesmo imaginava. Seu Slytherpuff.
Como um tolo incorrigível, você sorriu novamente.
“Lys” dessa vez você chamou um tantinho mais alto, querendo que os olhos muito azuis lhe encarassem enquanto você verbalizava a ideia que passou por sua cabeça naquele momento. A tentativa obteve sucesso, e além de abrir os olhos, ele também ergueu o tronco a fim de te observar melhor. Você puxou a varinha do bolso da calça larga de moletom e a ergueu, fazendo alguns movimentos no ar e cantando alguns feitiços.
Os olhos dele se alargaram assim como seu sorriso quando viu, e a atenção de ambos se voltou à aparência que escorria pela ponta da sua varinha e ganhava forma no alto da barraca. Uma constelação.
“Não acharia justo me despedir de você sem poder olhar para as estrelas na nossa última noite.”
Esse feitiço era algo muito conhecido por você, porque desde que ele te contou a a razão por ser tão apaixonado por astronomia, você passou a ter mais interesse sobre essa disciplina. E quando descobriu que Lysander era também parte de uma constelação, e porque você podia enxergar uma galáxia em seus olhos, você se perguntou qual seria a sua forma no céu. E, de repente, era justamente essa forma que te distraia da saudade.
A verdade que você, talvez, nunca admitiria em voz alta, Fred, era que durante as suas viagens, você também só conseguia dormir sob o céu estrelado.
Tão lindo que dá vontade de te segurar pelos cabelos e arrastar a cara no chão.
Às vezes eu penso que as pessoas só apreciam e valorizam o que eu tenho por fora. É só uma casca, Vivienne. Eu sou muito mais do que isso, sabe?
Além do mais, eu tenho quase certeza que essas vontades de machucar as coisas (ou pessoas, no nosso caso) que você tem muito afeto é meio que uma doença.
... E eu não duvido que você realmente faça isso. Mas não faça isso. Eu já passo por essa experiência quando fazem as tranças em mim. Você sabe, sem a coisa de ter a cara esfregada no asfalto.
We can beat them | Fred & Maud | August 2023
Fred era prático.
Isso tinha seu lado bom, porque a praticidade sempre contribuía nas decisões e escolhas feitas durante sua vida. Fosse durante os estudos das provas finais, fosse pelas desculpas rapidamente elaboradas, criadas para driblar os pais e se esquivar de castigos que ele sabia que seriam inevitáveis, ou fosse na hora de conquistar novas amizades. Essa particularidade se mostrou essencial também em sua profissão, que precisava de sua praticidade ao exercer seu trabalho.
Ele não escolheu ser prático, nem sabia que era até um colega que pertencia ao seu grupo no treinamento para formação de jovens Curse Breaker lhe dizer que era, claro, um tanto quanto contrariado. Essa foi a primeira vez que Fred refletiu a respeito do adjetivo que, unido a tantos outros, passaria a fazer parte de sua personalidade e provavelmente o classificaria em uma conversa com desconhecidos. Tudo bem ser prático, para ele, não era nada de mais.
Tal característica era vista por muitos como uma boa qualidade, mas algumas vítimas de pessoas práticas como Fred não concordavam com isso. Se ele pudesse ler os pensamentos de Maud naquele momento, ele poderia apostar que ela apontaria a sua ida até a casa dela no meio de uma noite quente de quinta-feira subitamente para arrastá-la até um pub como um verdadeiro absurdo. E não era um pub qualquer, claro que não, era um pub cuja temática era voltada ao movimento LGBT+. Bem, a praticidade estava ali, pois bastou uma breve conversa sobre uma pequena dúvida a respeito de sua sexualidade para ele, muito prático, resolver o problema daquela forma.
“Eu não quero ouvir um “ah”. Nem “mas Fred”. Nem isso que você está provavelmente pensando! Falar palavrão é muito feio, Maud!” O homem riu exibindo todos os dentes, gesticulando muito, feliz com a ideia de ter uma noite divertida com uma de suas melhores amigas num ambiente que o deixava extremamente confortável. “Eu prometo que não vai acontecer nada, se você não quiser.”
A fila para entregar os ingressos que permitiriam a circulação de ambos dentro do bar estava enorme, mas ele não parecia nem um pouco incomodado com a demora dos seguranças para liberar os clientes. Era possível ouvir as batidas de algum pop trouxa através das paredes grossas do estabelecimento, e a cada passo que davam na fila, sua animação aumentava. Os braços enrolados aos da garota tentavam passar um pouco de segurança, como se dissesse, mesmo que silenciosamente, que era ok ela estar ali. Ninguém iria julgá-la e ela poderia ser quem ela realmente era. Quem ela quisesse ser.
“Vai ser legal, tente se soltar.” Fred puxou a mão que estava presa em seus braços e pressionou os lábios nas costas dela e soltando em seguida. “É o meu lugar favorito!”
O estabelecimento não era bruxo, e Fred amava a ideia de poder circular entre as pessoas sem ser reconhecido como o filho de George e Angelina Weasley, porque sempre que isso acontecia, a diversão automaticamente era posta de lado e conversas sobre os negócios do pai e talento da mãe a substituía. Ele gostava de fazer isso, sair em dias aleatórios e se tornar apenas mais um entre tantos, dando a oportunidade aos grandes observadores de criarem um background sobre sua vida através daquilo que viam e imaginavam. Fred costumava fazer a mesma coisa com todos.
Maud foi uma dessas pessoas, um dos alvos da fértil imaginação de um dos inúmeros Weasley.
O primeiro sorriso que Fred viu escapar de Maud, ainda no dia da seleção das casas em Hogwarts, conseguiu engana-lo o suficiente para concluir que ela era uma criança como ele, com uma família enorme e cheia de carinho. Foi após uma partida de quidditch entre a Ravenclaw e Gryffindor em seu último ano que ele conheceu a verdadeira menina que se escondia atrás dos olhos castanhos e sorrisos tão brilhantes quanto.
Depois de uma conversa franca e uma troca de confidências, eles se tornaram amigos. E a partir desse momento, Fred sempre fazia o possível para arrancar sorrisos honestos da menina que costumava exibir livros repletos de poesias onde quer que estivesse. E se a caixa de sorrisos de Maud estivesse ali, naquele pub, era ali que eles permaneceriam. E se não estivessem, tudo bem, porque ele estava disposto a conhecer cada canto do mundo. Ele iria encontra-la em algum momento.
"I wanted to keep talking, but I didn’t know exactly how to say what I was holding inside me."
PROFILE DETAILS
Name: Fred Gideon Weasley. Place of birth: Devon, Inglaterra. Age: Vinte anos. Breed: Bruxo. Blood status: Halfblood. Occupation: Curse breaker. Wand: 27 cm, figueira-mansa, fibra de coração de dragão, rígida. FC: Cykeem White. Player: Laís.
INK AND PAPER
May, 1998.
Fred Weasley foi uma pessoa cuja coragem não cabia dentro de si. O senso de humor, independente da situação, contagiava a todos, roubando sorrisos até de onde ele achava que não havia nenhum oculto. A ousadia fazia parte dele tanto quanto o seu outro pedaço humano. Ele era determinado, sonhador, e não precisava de muito para se sentir completo. Porque ele era completo, e sua missão era também completar a quem ele amava. Fred nasceu sendo uma metade, porém, e sua outra parte habitava aquele mundo com características equivalentes às suas. Esse era o fato que o fazia acreditar que ninguém era ou seria mais completo do que ele, porque apesar de ser somente uma parcela de um todo, a outra era sua permanência.
Quando ele nasceu, um Lorde das Trevas estava em ascensão. Ele provocava temor em todos que não estavam ao seu lado e, mais ainda, em seus aliados. A guerra esteve presente em cada parte da vida de Fred, algumas vezes silenciosa, mas outras vezes gritante. Na tenra infância, quando esse tal Lorde voltou-se contra o mundo, e no fim da vida, quando ele retornou muito mais determinado. Fred tinha total consciência de quais eram as consequências que a terrível batalha lhes traria, desde quando teve conhecimento a respeito dela pela primeira vez, mas ele nunca teve medo. Do Lorde ou a guerra em si. Seu único medo era perder aqueles que amava tanto, temia ser incompleto. Seu único medo era muito mais assustador do que maldições imperdoáveis lançadas em sua direção.
A luta não foi longa, mas durou tempo suficiente para deixar muitas marcas. Todos as tinham, como aquelas que traçaram todo o corpo de Bill, um de seus irmãos, como aquela que passou a diferencia-lo de sua metade que até então era idêntica, e claro, aquela que não podia ver, que não podia tocar, mas que era possível sentir. Intensa, dolorida, constante. Infernal. Fred não pode assistir como lidaram com essa ferida, porque quem a desenhou no coração de sua família foi ele. Com um fantasma de sorriso brincando em seus lábios secos e olhos opacos observando algum lugar que ninguém mais era capaz de enxergar.
George Weasley, a parcela que fazia Fred se sentir completo tinha a mesma sensação que ele. Quando o irmão, melhor amigo – e por que não alma gêmea? – partiu, ele sentiu como se uma parte importante de sua própria alma tivesse sido arrancada. Algo faltava, como um incômodo permanente, e mesmo com sua mãe superprotetora mascarando a própria dor a fim de arrancar a sua, mesmo com seu pai preocupado o observando a cada passo com os olhos tristes e um pouco mais apagados, mesmo com seus irmãos dedicados a fazê-lo sorrir como ele antes fazia, nada era o suficiente para preencher o espaço que o homem tão semelhante a ele deixou.
A batalha teve fim, mas as feridas que ainda cicatrizavam não. Mesmo assim, as vidas continuaram. Recomeçaram. Todos, à sua maneira, tentavam seguir em frente, e ele também precisou. Cada pedaço perdido entre a troca de azarações, ofensas, dor e choro foi sendo recuperado conforme o tempo passava. O tempo também permitiu que a Weasleys’ Wizard Wheezes fosse reaberta; sem a empolgação como na primeira vez, mas com incentivo multiplicado. Seguir em frente. George começou a seguir em frente, em passos curtos e vacilantes, mas os mais corajosos que já dera em toda sua vida.
Ainda era estranho não ter Fred para completar suas frases, ou não ter para onde olhar quando tinha uma ideia que antes tinha certeza que seria compartilhada e posta em prática. Talvez nunca deixasse de ser estranho, mas, embora ele não acreditasse que isso fosse possível alguns anos atrás, George percebeu que só um deles havia morrido.
February, 2000.
Angelina Johnson também tentava seguir em frente, com as feridas que não podiam ser vistas abrindo-se a cada passo que ela dava. Mas ela ignorava a dor, determinada, e no meio do percurso que era seguido por todos que sobreviveram à guerra, ela encontrou alguém com feridas cuja cicatrização estava longe de terminar.
Foi em um pub recém-aberto na Londres bruxa que eles se encontraram pela primeira vez desde a despedida de Fred, quase dois anos depois. Lee, Alicia, Oliver e alguns antigos jogadores da Gryffindor de sua época também estavam lá, eles queriam trazer de volta as boas lembranças de Hogwarts, saber sobre como a vida andava e retomar laços que, infelizmente, foram rompidos sem que eles sequer percebessem. Olhar para o rosto de George sabendo que Fred não estava mais ali foi um choque, porque aquela foi a primeira vez que ela pensou sobre o quão difícil deveria ser encarar o espelho e ter a imagem da pessoa cuja lembrança constante lhe provocava tanta saudade refletida nele.
Ninguém conseguia encara-lo durante muito tempo.
Talvez tenha sido por isso que ela se sentou ao lado dele na grande mesa cheia de canecas de butterbeer e taças firewhisky. Talvez tenha sido por esse motivo também que ela procurou inclui-lo nas conversas paralelas. Talvez tenha sido por isso que, mesmo com cada um de seus amigos se despedindo no decorrer da noite, somente os dois tenham restado com suas bebidas ainda intocadas e olhos sem o brilho que exibiam anos atrás.
Silêncio.
Silêncio.
Silêncio.
“Foi bom ver você.”
“Yeah, foi bom ver você também.”
Silêncio.
“Manda lembranças à sua mãe.”
“Obrigado, para seu pai também.”
Silêncio.
“Obrigada.”
As noites em pubs aleatórios com os antigos colegas – que ela inconscientemente voltou a chamar de amigos – continuou a acontecer com certa frequência, e além desses encontros grupais, George também passou a chama-la para sair. Sozinhos. Bastou alguns poucos meses para que os passeios em Hogsmeade e as partidas de quidditch que assistiam juntos se tornassem convites sérios para jantares nas noites de fins de semana e visitas a ambas as famílias. As conversas, entretanto, ainda eram rasas e fúteis, mas isso fazia parte de um acordo mudo entre os dois. Tudo bem saírem e se divertirem, contanto que certos assuntos não fossem abordados.
Perguntas, contudo, flutuavam sobre a cabeça de Angelina, enquanto uma curiosidade genuína se apossava de George. O receio tomava conta dos dois, e nenhuma palavra sobre qualquer insegurança era verbalizada por eles. As trocas de olhares começaram a ser desconfiadas e o clima antes amigável e confortável passou a ser tenso e cheio de reticências. O acordo, enfim, não parecia mais ser a melhor de suas ideias.
No fim de uma visita à modesta casa dos Johnson, George aparentava estar inquieto e irritadiço. Os lábios eram machucados pelos dentes que insistia em apertar a carne evidenciando o nervosismo óbvio. Angelina não estava tão diferente, pois tinha a impressão de que ele queria lhe dizer algo durante toda a noite. Algo importante, algo que certamente quebraria o acordo.
Qual não foi sua surpresa quando nenhuma palavra foi proferida. Ao invés disso, seus lábios foram tomados pelos dele em um beijo atrapalhado, súbito e cheio declarações não verbais, porém compreensíveis.
December, 2002.
O beijo trocado deu início a algo que não tinha nome, mas que era bom, confortável e propício. As palavras antes raras e tímidas começaram a fluir, acompanhando o desenvolvimento que eles permitiam que acontecesse. Os dedos se entrelaçavam com frequência assim como os próprios corpos após uma noite juntos. Nada era oficializado, mas ninguém questionava. Era a primeira vez que George se parecia com o George que conheceram na infância desde a morte de Fred.
Fred, contudo, apesar de George não deixar transparecer, assombrava o irmão a cada segundo. Quando pensava em alguma brincadeira que deixaria os cabelos de Molly em pé, quando planejava uma invenção genial e lucrativa, quando estava desgnomizando os jardins de casa com a ajuda de Harry, Ron e Teddy, quando se trancava em seu quarto e olhava para o espaço estranhamente vazio e que antes poderia ser ocupado pelo gêmeo.
Quando tinha os braços de Angelina ao redor do seu pescoço antes de roubar-lhe um beijo rápido.
George comumente se via incomodado com questionamentos a respeito do interesse de Angelina por ele, um homem que até então era somente uma sombra do que já fora. Sua mente insistia em dizer-lhe que era por causa do seu irmão. Porque eram iguais, porque um fazia parte do outro. Angelina o amou, afinal. Talvez não conseguisse abandonar a parte de Fred que permaneceu na Terra.
Ele conseguiu guardar as preocupações para si durante muito tempo, ignorando as dúvidas quando era presenteado por um sorriso genuíno da mulher que o abraçava forte sempre que o via, mas achou que já era o suficiente quando percebeu, por dias, que o sorriso diminuía conforme as olheiras cresciam.
Foi, coincidentemente, na noite de véspera de Natal que ele se deu conta de que não conseguiria continuar guardando tanta insegurança dentro de si. Uma data inapropriada para um assunto tão inconveniente foi testemunha de uma pequena discussão entre os dois. Angelina, de repente, parecia ainda mais doente.
Não exatamente doente, Molly diria algum tempo depois, ao redor da farta mesa que sustentava a tradicional ceia, quando a convidada arrastou a cadeira que estava acomodada e subitamente correu direto para o banheiro surpreendendo a todos que estavam presentes. George a acompanhou, dessa vez genuinamente preocupado e se sentindo mais culpado do que já esteve quando a revelação chegou ao seu ouvido:
“Eu estou grávida.”
August, 2003.
Tão inesperadas quanto a gravidez, as contrações assustaram mais do que provocaram dor. De acordo com a healer que acompanhava a gestação, o parto aconteceria em algumas semanas, mas o bebê não parecia compreender que precisava aguardar mais algum tempo no ventre de sua mãe. Quando conseguiu processar o que estava realmente acontecendo, agradeceu mentalmente a Merlin por estar na casa dos Weasley, pois acreditava que Molly talvez tivesse mais conhecimentos sobre partos do que o seu pai. Tentou chamar seu agora namorado no que deveria ser um grito, mas que não passou de um ofego assustado.
Apesar de os primeiros indícios de que o bebê estava prestes a nascer começarem na manhã daquele dia, ele só deixou o calor do ventre da mãe no meio madrugada. Ele era grande, com mãos gordinhas e um fôlego inacabável. Seu choro ocupou toda casa, e Angelina também sentiu uma imensa vontade de chorar quando olhou para o rosto do seu filho pela primeira vez.
“É um garotinho. Mais um menino” Molly constatou o óbvio com a voz embargada de emoção.
“Ele precisa de um nome” foi a vez de George falar quase mudamente, se aproximando para tocar as bochechas gordinhas com um cuidado não usual.
Angelina parou por alguns segundos de falar e de ouvir para se atentar ao bebê aconchegado em seus braços. Ele, de repente, também calou seu pranto, e ficou em silêncio como se pudesse ouvir os pensamentos da mãe, curioso a respeito da decisão que influenciaria toda sua vida.
“Fred” ela murmurou com um sorriso cansado nos lábios. “Fred Gideon Weasley II”
Distraída em contemplar cada movimento e descoberta da pequena criatura que carregava, ela não pode dar conta dos lábios trêmulos de Molly e as lágrimas que escapavam sem permissão dos olhos de George. Mesmo assim, ela tinha certeza que não poderiam escolher nome melhor para ele.
July, 2008.
Quando teve o nome definido por sua mãe, uma personalidade já constituída fora esboçada e almejada para ser posta em prática a qualquer momento. Prestes a completar cinco anos, Fred II não poderia ser mais diferente do seu tio ou de seu pai quando tinham a mesma idade. Ao invés de agir de maneira hiperativa, preocupando qualquer um que estivesse responsável por seus cuidados, ele preferia observar e guardar coisas que sua cabecinha pueril concluía que poderia ser proveitoso em algum momento.
A criança tivera um início de infância cheio de conclusões precipitadas, causando surpresa em todos os familiares quando passou a agir da forma oposta ao que era aguardado. Aos seus primos, no entanto, competia a tarefa de cumprir o que foi planejado para si. Portanto, ainda que não fosse tão levado, ele acabava se metendo em algumas encrencas e recebendo castigos que ele jamais estaria de acordo, mesmo sendo parcialmente culpado.
Roxanne Weasley nasceu com o objetivo de firmar ainda mais o laço entre George e Angelina, e Fred, que ainda conhecia muito pouco a respeito das surpresas que a vida poderia lhe proporcionar, prometeu a si mesmo sob a ingenuidade de uma criança como ele e através do conselho do pai que protegeria sua irmã mais nova do que quer que fosse.
Em uma tarde como as muitas que passava brincando com seus primos na casa dos vovôs Weasley, quando ele viu seu pai abraçado ao tio Ron enquanto ambos choravam por algum motivo que ele não conseguia compreender – porque nenhum dos dois estava exibindo arranhões ou sangue de nenhuma parte – ele percebeu que essa promessa não se restringia exclusivamente à sua irmã, mas a todos aqueles que ele amava.
Por que, afinal, eles estavam chorando? Não teve tempo para perguntas antes de se aproximar receoso dos adultos presos naquela redoma de vidro e estender os bracinhos a fim de conforta-los como sua mãe fazia após arranhões e galos resultante de uma travessura. Foi percebido por Ron e George com muita surpresa a atitude do pequeno Weasley, que apesar de ser muito diferente do irmão que inspirou seu nome, ele ainda possuía a essência que tornava Fred especial.
November, 2010.
A magia estava presente em cada pequeno centímetro da casa, e em cada ínfimo detalhe de sua vida. Fosse na louça flutuando aguardando o pai guardá-las em devido lugar, fosse na varinha de sua mãe que insistia em soltar coisas brilhantes e barulhentas distraindo ele e sua irmã de uma briga sem motivo ou sentido. Ela acontecia de maneira cômoda e natural, e isso nunca foi questionado por ninguém, porque essa magia também fazia parte deles.
Fred, no entanto, nunca esperava ser capaz de realizar tal feito em qualquer momento antes de ser aceito em Hogwarts. É claro que ele conhecia muito a respeito de magia acidental e espontânea, e até mesmo as presenciou algumas vezes vindas de seus primos. Também ouviu muitas histórias contadas por seus pais e tios, mas ele jamais imaginou que aconteceria com ele, não tão cedo, não da forma como aconteceu.
Ele nunca imaginou que faria todos os móveis do seu quarto flutuarem por acreditar que tinha perdido uma peça do tabuleiro de Xadrez de Bruxo que seu pai lhe deu, e que antes pertenceu ao seu tio.
E enquanto, minutos mais tarde, o menino, ainda muito nervoso, tentava explicar a sua mãe que não foi sua intenção assusta-la daquele jeito quando gritou por ela ou bagunçar todo seu quarto quando tudo voltou ao chão abruptamente, Angelina pensava que não havia nenhuma maneira de fazer seu filho compreender que, quando seu cabelo crescia insistentemente no instante que ele era cortado enchendo sua cabeça de cachinhos, aquilo também poderia ser considerada uma manifestação de magia.
September, 2014.
Fred aguardou aquele momento enchendo-se de expectativa e ansiedade. As histórias sobre Hogwarts, as casas, as aulas e as criaturas que conheceria no castelo o deslumbrava como nada tinha feito antes. A chegada da carta da instituição com seu nome gravado no envelope foi recebida com muita empolgação de sua parte e um tanto de tristeza por parte de Roxanne, que ainda precisaria aguardar mais dois anos antes de receber a sua própria. Todos os materiais dispostos na lista de solicitações foram comprados com empolgação, desde as penas para escrever até a coruja de igreja cuja penugem se assemelhava a um tronco de árvore.
Foi carregando Burr – a coruja sempre sonolenta – e o malão pesado desajeitadamente que ele se despediu de seus pais pela primeira vez e correu atrás de seus primos que estavam prestes a embarcar. Uma nova etapa de sua vida começou naquele momento, onde ele conheceria novos amigos, praticaria mais travessuras escondido, aprenderia não só sobre o mundo mágico em que vivia, mas também a encontrar uma identidade e deixar de ser Fred Gideon Weasley II para ser o Fred sem a sombra de um nome ou sobrenomes tão pesados para seus ombros.
A seleção de casas dos novos alunos era muito melhor do todas as pequenas histórias que tinha ouvido. O novo estudante do nunca iria se esquecer da dificuldade que o chapéu teve de cobrir sua cabeça até então ainda repleta de cachos para assim poder refletir a seu respeito. Fred pensou que ele pudesse ser elástico, porque após alguns segundos em silêncio, as únicas coisas que existiam eram a escuridão e a voz grave preenchendo toda sua mente.
Ravenclaw!
O objeto animado magicamente vibrou provocando comemoração na mesa correspondente e deixando Fred tonto por tudo o que ouviu antes de ter o chapéu retirado e sido empurrado gentilmente para dar lugar à próxima criança. O chapéu seletor não só preenchia a sua cabeça, como também parecia invadi-la, sendo capaz de decifrar cada pequeno segredo que ele tentava manter consigo a todo custo. A confusão, porém, foi esquecida quando correu até a sua nova casa, recebendo tapinhas e apertos de mãos de todos os membros que gritavam boas vindas.
October, 2019.
Se perguntassem a Fred no salão comunal da Ravenclaw como ele se sentia a respeito de Hogwarts, ele diria que aquilo era uma grande aventura. Porque foi o mesmo que ouviu de seus tios, seus pais e Teddy meses antes de entrar na escola, e também porque foi a mesma coisa que disse aos seus primos mais novos em suas férias de verão. E pensando bem, ele não podia descrever aquela experiência de melhor forma.
A diferença no comportamento de seus colegas aumentava conforme os anos passavam, e isso também se estendia à ele. Acontece que Fred passou a gostar de ficar sozinho, mesmo que também amasse ocupar as mesas de cores diferentes da sua eventualmente. Fred Weasley I era movido pela multidão, como se fosse seu combustível, enquanto Fred Weasley II preferia o silêncio cômodo e a chama muito mais baixa do que a do tio que não teve a oportunidade de conhecer.
Foram em dias como esses, em que ele tirava seu tempo para ficar sozinho apenas observando os outros alunos caminharem de um lado para o outro e imaginar o que eles conversavam ou pensavam, que ele percebeu que havia algo de muito errado em um ponto específico do castelo.
Veja bem, mesmo sendo um bruxo criado e acostumado com a magia presente em sua vida todas as vinte e quatro horas do dia, Fred ainda se atentava e compreendia algumas coisas a respeito do mundo trouxa ensinados por sua mãe. Não foi necessária nenhuma aula teórica para que ele compreendesse que o que acontecia naquele corredor habitualmente vazio do castelo era abuso emocional. Isso não se limitava somente a uma espécie.
E sempre que via ou ouvia qualquer coisa que deixasse algum aluno descontente ou desconfortável, mesmo que não o conhecesse, Fred interferia, porque além de essa necessidade não se limitar a irmã, também não terminava nos membros da sua família. Fred finalmente compreendeu que ele não se conformava com a tristeza alheia. Ele se incomodava, e não media esforços para roubar ao menos um sorriso de quem não sentia vontade de exibi-lo.
June, 2021.
Hogwarts lhe proporcionou anos incríveis, que ele certamente nunca deixaria de se lembrar com saudosismo, mas como ele aprendeu muito cedo, tudo tem um prazo de validade. A adolescência havia vencido, levando consigo as experiências vividas na escola e deixando apenas lembranças e uma determinação que ele certamente iria fazer proveito no mundo bruxo que abria os braços para acolhê-lo.
Escolher uma profissão foi muito difícil, e isso exigiu muita dedicação em seus últimos anos letivos para que pudesse então decidir por um cargo sem se preocupar com seu desempenho. No momento em que decidiu, apesar disso, ele percebeu que era a escolha perfeita, sabendo que não se arrependeria, tampouco vacilaria na decisão que tomou.
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Pareceu perfeito quando ele pegou, no sexto ano, o panfleto que a garota da Hufflepuff lhe ofereceu, percebendo sua curiosidade quase exagerada acerca do enunciado no papel. Naquele instante ele decidiu que era o que ele queria fazer. Viajar, se aventurar, enfrentar desafios.
E Fred buscou por isso, se inscrevendo para o curso selecionado, dando adeus à sua casa confortável para viver então em lugares diferentes a cada manhã. Ele se descobriu, então, um espírito livre aventureiro, diferente do que ele – e muitos – esperava, mas não menos satisfatório.
Uma coisa que ele havia buscado durante toda a vida finalmente tinha sido conquistada. Além da liberdade, sua identidade sempre foi uma coisa que ele prezava bastante. Os Weasley o conheciam como ele realmente era – coisa que o fazia amar ainda mais sua família –, e agora, com o mundo com um infinito de possibilidades a serem exploradas, ele não podia estar mais ansioso para descobrir cada pequeno segredo que lhe era oferecido.
Com passos ainda vacilantes e tropeços, ele andava vagarosamente na direção do desconhecido. E ao o invés das tão famosas vestes de segunda mão, ele ostentava jaquetas novas e jeans skinny combinando com as botas de camurça ou coturnos. Diferente das cabeças vermelhas lisas e rostos pintados por infinitas sardas, ele tinha dreads longos e crespos, e a única coisa que manchava sua pele negra eram as também infinitas tatuagens cheias de significados para ele e sem sentido nenhum para quem ainda pensava que os Weasley eram os mesmos.
Fred Weasley II + Alignment System, Hogwarts House, Zodiac Sign, Enneagram of Personality & MBTI