Separados pela distância de uma batida de coração...
O frio me acordou.
O que era estranho… Eu não deveria sentir mais nada…
Estava morto, não estava? Devia estar… Meu coração se incendiou. Então obviamente eu tinha que estar morto.
Mas não estava…
Sentia cada pedra sobre mim, prensar cada corte, cada osso quebrado, cada pedaço de pele dolorido do meu corpo. E sentia o fogo… Meu coração queimava… Sentia o fogo irradiar do meu peito, mas… Não havia dor.
Estranho…
Será que eu estava no inferno? Não…
Acho que não, havia luz demais… Porque fiquei cego por um momento, ao abrir os olhos e só ver o azul gelo luminoso do céu. Um céu que não era céu.
Água.
Ainda estava no palácio de Atlantis… —- O grego forçou-se a levantar, olhando ao redor, e sorriu. Tinha feito um belo estrago naquele lugar. Sem dúvida, fora a luta mais divertida que tivera na vida. “Vida…”
Levou uma das mãos ao peito, sentindo o coração bater descontrolado. O sangue de Athena estava o mantendo ainda por mais algum tempo, mas ele achava que nem mesmo Degel poderia dar jeito nisso dessa vez. “Degel…”
Olhou ao redor, agora sem o encanto da batalha, procurando pelo marido. Sentia o cosmo dele se elevar perigosamente e, ignorando a dor de seu corpo ferido, se pois de pé para ir até ele.
“Degel, o que caralho você está fazendo?” - tentou chama-lo pelo cosmo, mas seu cosmo estava muito fraco, não sabia se o alcançaria - “Você vai se matar, imbecil!”
Tropeçou alguns passos antes de esbarrar no corpo de alguém que se arrastava no chão, forçando-o a segurar numa pilastra para não tombar novamente. Olhou para o chão, esperando para ver Radamanthys novamente, querendo lutar, mas ofegou de revolta ao ver quem de fato era. - Você…? - rosnou quase sem voz.
Desespero, tristeza, culpa… Eram tantas emoções que o aquariano sentia naquele momento que ele não saberia descrever nenhum em palavras, o que era irônico.. um cavaleiro de aquário não deveria se deixar abalar por seus sentimentos, mas como seu mestre sempre lhe disse.. O Francês sempre foi emocional demais.
A batalha contra Unity o tinha apalado de fato, mas tinha conseguido despertar o amigo de infância, cego pelo poder do Deus dos Mares, porem não esperava ter que enfrentar Seraphina dominada pelo poder do Oricalco quebrado por Pandora.
Aquela batalha estava indo de mal a pior.. e Degel sabia que não voltariam para o santuário.. Ele já havia tido plena consciência disso quando sentiu o cosmo do escorpiano se elevar de uma forma absurda. “Porque esta fazendo isso Kardia?… Não sabe que seu coração vai queimar se continuar com essa besteira?
Você realmente não tem jeito… não é?”
Seu coração pesava dentro do peito, seu melhor amigo.. seu amante… Já não existia mais naquele mundo. Quando escolheu ser um cavaleiro sabia que era aquele destino que os aguardava, que teria que lidar com as perdas que aquele caminho possuía.
Mas quem diria que sentiria tanto as perdas daquela guerra.. um após o outro os santos dourados iam caindo.. e ao que parecia, era sua vez de cair.
Com as ultimas formas que tinha elevava seu cosmo ao máximo para elevar aquela inundação iminente, a água que vinha em sua direção lentamente ia se tornando gelo sólido consumindo tudo ao seu redor, inclusive o próprio aquariano, mas ele não se importava, aquela era sua missão, proteger a terra junto a Athena..
Alem disso.. morrer não parecia tão ruim.. não quando saberia o que ia encontrar do outro lado, um escorpiano teimoso demais para lhe dar ouvidos..
“Kardia……”
Sua vontade era de dar um chute naquele maldito. Oh, se ainda tivesse forças, mataria aquele filho da puta… Mas não tinha tempo a perder. Ouvia o homem a seus pés murmurar algo sobre “desejo de Degel” e sabia que o marido amava aquele verme. Então mata-lo estava fora de questão…
Sem querer pensar muito sobre aquilo, pegou Unity de qualquer modo e o arrastou para a entrada de Atlantis, jogando-o pela passagem. Se ele estava fazendo algo para Degel, não havia como ter certeza, mas preferiu acreditar no laço que os dois tinham e, como um presente final, quebrou uma de suas agulhas e entregou a ele, para que sobrevivesse ao frio que se espalhava . Não tinha como saber se o gelo passaria pela superfície, mas sua agulha o manteria aquecido por um tempo.
Com pressa, apesar da dor em seu corpo, voltou para o palácio, vendo o gelo se expandir de forma absurda. Tudo estava sendo engolido pelo gelo rapidamente. Tudo, menos ele.
Se houve um dia que agradeceu por aquele inferno em seu peito, aquele era esse dia.
Tropeçou diversas vezes enquanto seguia para o interior do palácio, seu calor corporal derretendo o gelo ao seu redor. Mas sabia que devia se apressar. Sentia que o fogo começara a diminuir e seu corpo começar a fraquejar. Estava morrendo e não podia negar aquela verdade.
“Um pouco mais… Só mais um pouco…”
Forçava seus pés a andar e seu corpo a continuar se movendo. Precisava vê-lo… Tentar impedir que ele se matasse… Era ele quem sempre esteve com a certeza de que morreria cedo… Degel devia ser como o mestre dele… Morrer idoso, tendo vivido sua vida.
Não podiam morrer os dois ali. Um deles tinha que voltar para casa. Ele se negava a admitir que os dois morreriam ali.
E foi com esse pensamento pulsando em sua mente que avistou as portas do salão de Poseidon, de onde vinha todo o gelo e o cosmo do aquariano.
“Degel…” - chamou-o com aflição ao ver que não conseguia se aproximar rápido o suficiente.
Kardia não era de sentir medo, mas não podia negar que estava assustado no momento em que ouviu o seu nome ser sussurrado pelo cosmo gelado que o cercava. Era como uma despedida…
Sabia que era egoismo, mas nunca esteve preparado para perdê-lo. Nunca passou por sua cabeça que Degel morreria antes. Entre os dois sempre houve um consenso silencioso. Kardia era aquele que morreria primeiro e Degel aquele que lutaria até a última batida de seu coração em chamas para salva-lo. Aquele cenário a sua frente era estranho e medonho.
Suas forças se esvaiam lentamente, sugadas por todo aquele gelo que o envolvia, e por mais que Degel possuísse a habilidade de se mover dentro do gelo, sabia que de nada aquilo adiantaria agora. Tinha cumprido sua missão, tinha detido o poder de Poseidon de inundar toda a terra, então… porque ainda sentia que tinha algo faltando? Uma peça que não o deixava descansar em paz.
Seu cosmo pulsava procurando por ele… Desejando ele… o chamando…
“Kardia…”
O aquariano chamou mais uma vez, por mais que sua voz não se propagasse naquele gelo que se estendia rapidamente pelo templo submarino. Ele não podia ter morrido, não, por mais imprudente que fosse o escorpiano não seria vencido tão facilmente. Por mais que ele sempre dissesse daquele jeito teimoso que ele seria o primeiro a morrer, o francês sempre soube que aquela era uma grande mentira. Kardia podia ser imprudente, impulsivo, mas ele tinha algo que o mantinha vivo sempre… Sua ânsia pela vida, sua vontade de viver e lutar, e era por isso que o aquariano simplesmente não podia acreditar que ele havia morrido.
Um chamado forçou o aquariano a abrir os olhos, um cosmo conhecido, e logo um sorriso discreto surgiu nos lábios de Degel.
“Eu sabia… Eu sempre soube que você não perderia”
Não havia nada alem do branco gélido a sua frente, seu cosmo diminuía gradativamente, mas a esperança de ver quem amava vivo… De ver uma ultima vez Kardia ali na sua frente mais uma vez o mantinha lúcido dentro do caixão que moldou para si mesmo.
Um suspiro deixou os lábios do aquariano quando a figura dourada de longos cabelos azuis surgiu através do gelo límpido, tão contrastante com a figura que envolvia todo o salão. Seu peito parecia queimar, mas nem mesmo o calor absurdo que o escorpiano podia produzir conseguia chegar ate onde estava e Degel sabia que não importaria o quanto cosmo gastasse não conseguiria controlar a febre aquela vez… Não mais…
O cavaleiro de gelo se forçou a se mover pelo gelo ate se aproximar da grossa parede que o prendia, tocando-a como se quisesse alcançar seu amado de alguma forma impossível. Os olhos azuis antes tão cheios de vida agora estavam opacos e quase sem vida… De fato aquela era uma despedida, e só o que desejava era poder tocar seu Sol uma ultima vez.
“Eu te amo… Kardia…”
“Eu sempre vou voltar para você, lembra? Eu prometi isso…” - respondeu com um sorriso fraco, ao entrar no enorme e congelado salão - “Você não vai se livrar de mim tão fácil…”
O grego cambaleou para frente, se apoiando na parede de gelo que o cercava cada vez mais, mas que não impedia seu avanço. Seus olhos só conseguiam enxergar seu amado dentro daquele gelo, não via mais nada… Era a visão mais linda e mais apavorante que já tivera na vida. Sempre viu beleza nos poderes do amado, mas nunca imaginou que eles poderiam lhe tomar a vida. “Degel…” - chamou por ele com carinho, enquanto se forçava a andar até ser detido por aquela parede - “Amor, não faça isso… Por favor… Saia dai…”
Sim, ele estava implorando. Não lhe restava mais nada além de implorar… Nada… Cada osso do seu corpo estava quebrado, Sentia o sangue banhar seu corpo por dentro da armadura quebrada, seu peito já estava a muito da possibilidade de salvação e provavelmente havia perfurado um dos pulmões, quando o templo caíra sobre ele, pois já sentia dificuldade de respirar. Mas aquilo não importava… Nada importava agora, além dele…
“Eu também te amo, Degel…” - sorriu ao vê-lo mais próximo, mas ainda distante - “Venha pra mim… Saia dai… Por favor…”
Uma pulsação intensa de dor o fez se curvar e vomitar um pouco de sangue, enquanto suas forças começavam a abandona-lo, mas ele se forçou a se manter erguido e encarar o francês.
“Meu coração já era…” - riu com escárnio da própria situação - “Eu poderia te tirar dai, mas eu não tenho mais forças… Eu já não sinto mais nada… Dor… Frio… Nada… Por isso, você precisa ser forte e sair dai, Deg… Por favor… Você precisa voltar para casa…” - aos poucos o escarnio foi dando lugar ao desespero e ele socava sem forças a parede de gelo - “Não pode acabar assim… Você não pode morrer aqui…”
O aquariano fechou os olhos com aquela resposta, apenas ela lhe dando a certeza de que era seu Kardia ali, e não um espírito ou uma ilusão causada por quem sabe, algum espectro zombeteiro, querendo tortura-lo em seus últimos momentos. Últimos momentos............? “Eu nunca pensei em me livrar de você”
Abrir os olhos novamente exigiu o dobro de esforço que normalmente exigiria. Seu corpo cada vez mais cedia ao frio gélido do gelo eterno onde estava preso, sugando sua vida, suas forças... E talvez o único motivo pelo qual ainda estava vivo era a vontade que tinha de ver seu amor pela ultima vez.
“. . . “
Sua cabeça balançou de um lado para o outro lentamente, uma lagrima escorrendo lentamente pelo canto de seu olho e logo se tornando parte do gelo que o envolvia. “Eu não posso... Eu não consigo sair...”. O coração já fraco do francês pareceu se partir ainda mais ao ver aquela poça de sangue vivido no branco gélido que enchia o salão submarino. Juntando as ultimas forças que ainda tinha, ele se moveu dentro do gelo se aproximando do grego ali parado em frente a parede grossa que os separava, tocando onde ele socava, sem sequer sentir a vibração daqueles socos que podiam destruir galáxias.
“Eu já não tenho controle sobre isso... Nós... Já não esta mais em nossas mãos...”
O aquariano sorriu tristemente, passando a mão livre pelo gelo, como se acariciasse o rosto dele com a ponta dos dedos.
“Eu só queria poder te tocar uma última vez... Sentir seu calor uma ultima vez”
Uma pulsação forte quase o fez cair de joelhos, seu cosmo estava no fim, seu corpo já não aguentaria mais... O frio, o gelo, o desespero... Entravam através de sua pele como laminas, uma após a outra.
“Ao menos... pude te ver uma ultima vez...” Degel se forçou a encarar os olhos azuis de seu amado, tão azuis quanto os seus, a única diferença sendo o tom avermelhado nos do escorpiano, quase como uma marca da febre constante que ali existia...do coração ardente que ele carregava.
Seus olhos escureciam lentamente, ele não aguentaria mais, seu corpo já não suportava mais. Seu cosmo já se apagava lentamente, não.. ele não queria que acabasse daquela forma, eram cavaleiros, aquele era o destino deles, morrer servindo Athena, mas pela primeira vez ele hesitava em morrer, ele desejava viver. “Desculpe não poder voltar... desculpe não poder te salvar”. Um novo tremor abalou seu corpo e ele moveu os lábios, uma última lagrima escorrendo por seu rosto, ate que um suspiro deixou os lábios de Dégel e o corpo do sempre sábio aquariano foi lentamente sendo consumido pelo gelo eterno que o envolveria para sempre, levando junto um último lampejo de seu cosmo, suas últimas palavras silenciosas ao amado.
“Je t’aime, mon amour....”















