O Texto Mais Parcial do Mundo (E Profundo Demais Para Ser Reduzido)
Um texto jornalístico geralmente – mas não necessariamente – exige imparcialidade, linguagem direta e formal e o uso da norma culta da língua portuguesa, sem expressões, sem gírias, sem regionalismos nem pontuação excessiva ou interjeições. Mas tudo que esse texto mais necessita é de liberdade, porque é um desabafo, um grito que precisa ser ouvido e expressado livremente. Deixo de lado a 3ª pessoa, os parágrafos perfeitos, a formalidade e jogo todas as regrinhas no chão pra transformar um texto editorial em algo mais profundo que uma crônica; um questionamento explícito e que dramatiza ao máximo a situação da Seleção Brasileira de Futebol. Falo como quiser, livre de qualquer tipo de grilhão linguístico, livre como o futebol e o esporte devem ser. Livre mas ainda compromissada, com a justiça, com a verdade, com a coerência. Compromissada como a Seleção não tem sido, compromissada como todo torcedor brasileiro implora pra que sejam.
Bem, preparem-se para uma longa leitura.
Há um mês, minha seleção conquistou seu primeiro título de importância, a Eurocopa. Portugal fez o impossível – contando também com a sorte, devemos considerar – e assombrou (ou encantou) toda a Europa e o mundo do futebol ao provar que não, você não precisa tanto de uma seleção recheada de estrelas pra conquistar algo, você só precisa valorizar o apoio que recebe, a camisa que veste, e utilizar seus recursos da melhor maneira possível pra buscar alcançar seus objetivos. Portugal foi contra as estatísticas, contra a realidade negativa, contra suas mínimas chances de obter sucesso e contra tudo que lhe afastava da sua conquista. E chegou. Chegou, brilhou, encantou, emocionou, orgulhou. E como orgulhou! Orgulho não coube dentro dos mais de 11 milhões de corações lusitanos que batiam dentro e fora do pequeno país europeu, sempre discreto atrás das outras potências europeias que sempre estavam a se destacar. A Seleção Portuguesa derrubou a dona da casa e tomou seu lugar diante dos holofotes do futebol europeu e mundial. E chegou. Chegou, brilhou, encantou, emocionou, orgulhou. E como orgulhou!
Mas é extremamente importante salientar que o orgulho português não nasceu no dia 10 de Julho de 2016. Ele esteve vivo e presente em 2014. E em 2012. E em 2010. E em 2009. E em 2006. E principalmente em 2004. E nos anos anteriores também. Não é necessário ser um grande conhecedor do futebol europeu para saber que Portugal nunca foi uma seleção marcante nas competições internacionais. Mas algo em especial está presente na equipe portuguesa desde sempre: a vontade de vencer. E não estamos falando aqui em vontade de fazer gols que levem dois ou três jogadores a conquistarem prêmios pessoais ou vontade de jogar bonito porque as seleções nacionais são as vitrines dos jogadores para os maiores e mais almejados times do mundo. Estamos falando de vontade de vencer porque a vitória levará o nome de seu país às alturas. Vontade de vencer porque o seu povo merece ser feliz, porque merece ter algo grande para se orgulhar e comemorar. Vontade de vencer para retribuir o apoio da torcida e mostrar que eles não estão ali como meros financiadores do time quando compram camisas ou ingressos, mas como parte da equipe, o 12º jogador.
Portugal foi eliminada da Copa de 2014 na 1ª fase. Após o encerramento do jogo que, apesar de ter terminado com um resultado favorável, cravou a sua despedida, um torcedor português saiu pelos arredores do estádio Mané Garrincha cantando em alto e bom som o hino português, A Portuguesa. Seu rosto e sua voz estampavam orgulho e representavam toda uma nação que apesar de lamentar a derrota, não estava abalada. Os portugueses sabiam e ainda sabem que estão bem representados e que aqueles nos quais depositam toda a sua confiança e amor estão unidos por um só objetivo: levantar hoje de novo o esplendor de Portugal. E se a campanha lusitana não começou tão bem na última Euro (por mais que a história tenha acabado com um final feliz), nos Jogos Olímpicos, começou excelente. Mais uma vez a torcida confia e se alegra sabendo que tudo que tem feito vale à pena.
E você, Brasil, como vai? Onde você está? Por que não age da mesma maneira com os 200 milhões de adeptos que suportam as seguidas decepções, mas não deixam de torcer? Suportam por amor ao país e por puro patriotismo, mas é claro, não são obrigados a aturarem ataques de estrelismo, falta de humildade, unidade e arrogância. A Seleção Olímpica Brasileira não é muito diferente da equipe que representou o Brasil nas últimas duas edições da Copa América e será menos diferente ainda do time que esperamos que consiga chegar à Copa das Confederações e à Copa do Mundo de 2018. Por isso a preocupação com o desempenho pífio do time precisa existir e precisa ser ainda maior para que chame a atenção e mobilize quem ainda não tomou nota da situação do futebol brasileiro. São esses mesmos jogadores que em 2018 precisarão manter o Brasil longe de outro vexame como o do Mineirão em 08 de Julho de 2014. São eles, entre Neymar, Gabriel Jesus, Gabriel Barbosa e outros 20 que carregarão consigo a importante missão de fazer brilhar o nome da única seleção pentacampeã e trazer o tão sonhado hexa para casa. Mas como? Será possível alcançar esses objetivos pretendidos se os jogos do Brasil continuarem sendo resumidos a empates sem gols em que talvez fosse mais justo que os adversários vencessem?
A atuação da Seleção Brasileira não tem sido tão diferente da apresentada na Copa América deste ano, nem do ano passado, o que prova que o problema não é tão recente. Ela conseguiu decepcionar o mais ufanista dos narradores brasileiros que chocou todo o público com suas palavras pesadas de repreensão e revolta direcionadas ao time e em especial, ao seu capitão, que há muito tempo não tem feito mais o papel que lhe cabe como dono da braçadeira. Faz sua torcida se calar ao final de cada jogo e terminar gritando em apoio ao adversário que mostra muito mais vontade de vencer. Falta de talento? Definitivamente não. A equipe é formada majoritariamente por jogadores jovens mas extremamente bem sucedidos em seus times de origem. Então, qual o problema? Bem, os fatores não são poucos. Mas o que talvez mais contribua com a queda da qualidade do futebol apresentado pela Seleção Brasileira também fere os torcedores a cada partida frustrante. Olhamos para os 11 jogadores que entram em campo trazendo no peito um escudo que pesa 5 vezes mais que qualquer outro, em uma camisa amarela, dourada como o ouro que tanto almejam, e não vemos mais os heróis que vimos há tantos anos atrás. Será mesmo que o que interessa para esses jogadores é levar o nome de seu país às alturas, é encher o torcedor brasileiro de tanto orgulho que não cabe no peito e acaba aflorando em lágrimas? Não é o que parece.
Não se vê mais no capitão um líder maduro que motiva, apoia e busca unir o grupo em prol de um único objetivo, não se vê nos jogadores a raça e o sangue nos olhos, a vontade de vencer acima de tudo que reflete em seu corpo, pernas e pés, mas não vencer para o seu bel-prazer, mas por um bem maior. Neymar, falta em ti o espírito de liderança que Cristiano Ronaldo mostrou durante toda a campanha portuguesa na Euro e em especial no último jogo. Brasil, falta a união que cada jogador português demonstrou. Falta a motivação que levou a limitada seleção, como um todo, a superar suas próprias falhas e limitações para buscar a vitória. Sua desvalorização à torcida talvez traga consequências futuras que agora não conseguimos enxergar muito bem. Fica difícil encontrá-la em uma equipe que não apenas tem mostrado um futebol insuficiente dentro de campo, mas também foge da imprensa e consequentemente da única forma de acesso direto à torcida, que mascara seus erros e sua falta de compromisso através de frases de efeito, de posts em redes sociais, desculpas esfarrapadas. Isto é, quando há desculpas, porque a torcida tem sido levada a pensar que talvez sejam os jogadores a merecerem um pedido de desculpas pela “cobrança excessiva”, e não a torcida pela decepção sem proporções com a qual tem sofrido e que promete crescer se a origem dela não for tratada.
Brasil, foi necessário que eu fizesse o texto mais parcial do mundo para que demonstrasse não somente a minha frustração (como observadora) mas também a de mais de 200 milhões de pessoas. As 5 Copas do Mundo que alguns torcedores tanto gostam de ostentar não poderão fazer nada por você, Brasil. Talvez essa seja a hora de deixar o orgulho e a arrogância de lado e aprender com os próprios erros e também acerto dos outros. Talvez esta seja a hora da seleção mais bem sucedida do mundo aprender com as modestas equipes nacionais que tem se mostrado muito mais dignas, compensando suas limitações técnicas. Talvez seja a hora, Brasil, de aprender com meu Portugal. Talvez seja a hora de ouvir a indignação e a clemência de uma brasileira com coração lá na Península Ibérica e de mais 200 milhões de brasileiros com muito orgulho, com muito amor.