1) O que é a Bíblia?
Qualquer análise responsável de uma simples crença cristã deve estar baseada no que Deus disse sobre o assunto. A Bíblia é o fundamento dessas bases.
A opinião de Deus sobre suas palavras pode ser dividida em quatro categorias gerais: autoridade, clareza, necessidade e suficiência.
A autoridade da Bíblia
Todas as palavras da Bíblia são palavras de Deus. Portanto, não crer nelas ou desobedecê-las é não crer em Deus ou desobedecê-lo.
2 Timóteo 3:16
2 Pedro 3:16
1 Timóteo 5:18
1 Coríntios 14:37
A Bíblia diz que existem “várias maneiras” (Hebreus 1:1) pelas quais suas palavras reais foram escritas. Às vezes, Deus falava diretamente ao autor, que tão somente registrou o que ouviu (Apocalipse 2:1,8,12). Em outras ocasiões, o autor baseou muitos dos seus escritos em entrevistas e pesquisas (Lucas 1:1-3). Em outros momentos, o Espírito Santo trouxe à mente coisas que Jesus ensinou (João 14:26). Independentemente de como as palavras chegaram até os autores, o que eles escreviam era uma extensão de si mesmos — de suas personalidades, habilidades, origens e treinamento. Mas também eram exatamente as palavras que Deus desejava que eles escrevessem — as próprias palavras que Deus reivindicaria como suas.
Visto que Deus reclama as palavras da Escritura como suas próprias, então não há, em última análise, nenhuma autoridade a quem apelar como prova dessa reivindicação senão a própria Escritura. Pois, que autoridade pode ser maior que a de Deus? Assim, a Escritura, definitivamente, obtém sua autoridade dela própria. Mas os reclamos da Escritura somente se tornam nossas convicções pessoais através da obra do Espírito Santo no coração individual. O Espírito Santo não altera as palavras da Escritura de modo nenhum; ele não age sobrenaturalmente para torná-las palavras de Deus (pois elas sempre foram). No entanto, ele muda o leitor da Escritura. O Espírito Santo faz com que os leitores percebam que a Bíblia é diferente de qualquer livro que já tenham lido. Mediante a leitura, eles passam a crer que as palavras da Escritura são as do próprio Deus. É como Jesus disse em João 10:27: “As minhas ovelhas ovem a minha voz… E elas me seguem”.
Outros tipos de argumentos (como confiabilidade histórica, consistência interna, profecias cumpridas, influência sobre outros e a majestosa beleza e sabedoria do conteúdo) podem ser úteis para nos auxiliar a ver a razoabilidade dos reclamos da Bíblia. Como reais palavras de Deus, as palavras da Escritura são mais do que simplesmente verdadeiras; elas são a própria verdade (João 17:17). Elas são o aferidor final pelo qual toda suposta verdade deve ser avaliada. Logo, o que está em conformidade com as Escrituras é verdade; o que não se harmoniza com elas não é verdade.
A verdade das Escrituras não exige que a Bíblia relate eventos com detalhamento científico exato (embora todos os detalhes que ela registra sejam verdadeiros), tampouco que nos conte tudo o que precisamos conhecer ou poderíamos saber de um assunto. Ela nunca faz qualquer uma dessas afirmações. Além disso, como foi escrita por homens comuns em uma linguagem comum e num estilo comum, ela não contém citações livres ou soltas e algumas incomuns e desusadas formas ortográficas e gramaticais.
Portanto, uma vez que a Bíblia afirma que ela é as próprias palavras de Deus, devemos buscar entender essas palavras, pois, fazendo isso, estaremos procurando entender o próprio Deus. Devemos confiar nas palavras da Escritura, porquanto, assim procedendo, estaremos buscando confiar no próprio Deus. E devemos procurar obedecer às palavras da Escritura, pois, dessa forma, estaremos buscando obedecer ao próprio Deus.
A clareza da Escritura
À medida que lemos a Escritura e procuramos entendê-la, descobrimos que algumas passagens são mais fáceis de entender do que outras. Embora determinados versículos possam, de início, parecer mais difíceis de compreender, a Bíblia foi escrita de tal maneira que todas as coisas necessárias para alguém se tornar um cristão, viver como um cristão e desenvolver-se como um cristão estão claras. Existem alguns mistérios na Escritura, mas eles não deveriam nos oprimir em sua leitura, pois “os testemunhos do Senhor são dignos de confiança, e tornam sábios os inexperientes” (Salmos 19:7). E “a explicação das tuas palavras ilumina e dá discernimento aos inexperientes” (Salmos 119:130). A Palavra de Deus é tão compreensível e clara que mesmo uma pessoa simples (pessoa a quem falta um sadio discernimento) pode se tornar sábia por ela. Como as coisas de Deus são “discernidas espiritualmente” (1Coríntios 2:14), um bom entendimento das Escrituras é, muitas vezes, mais o resultado da condição espiritual do indivíduo do que de sua habilidade intelectual. Frequentemente, a verdade das Escrituras parecerá “loucura” para aqueles que rejeitam os apelos de Jesus (v. 14). Isso não significa, no entanto, que todo mal-entendido relacionado à Bíblia seja devido à condição espiritual de alguém. Há muitos crentes que entendem mal alguma parte da Escritura. Muitas vezes, os discípulos não entendiam o que Jesus estava lhes falando (ver Mateus 15:16, por exemplo). Normalmente isso acontecia em razão de seus corações endurecidos (Lucas 24:25); em outras ocasiões isso ocorreu porque eles precisavam esperar mais um pouco e ter mais compreensão (João 12:16). Além disso, membros da igreja primitiva nem sempre concordavam sobre o significado do que estava registrado na Escritura (ver, por exemplo, Atos 15 e Gálatas 2:11-15). Quando os indivíduos discordam da interpretação apropriada de uma passagem da Escritura, o problema não está nela, pois Deus dirigiu sua preparação para que ela pudesse ser compreendida. Antes, o problema reside em nós. Às vezes, como resultado de nossas falhas, não conseguimos entender corretamente o que a Bíblia está especificamente ensinando. Mesmo assim, devemos lê-la com oração, pedindo ao Senhor que nos revele a verdade de suas palavras.
A necessidade da Escritura
Não é apenas verdade que todas as coisas necessárias para se tornar um cristão, viver como um cristão e crescer como um cristão estão claramente apresentadas na Bíblia. Também é verdade que, sem a Bíblia, não poderíamos conhecer essas coisas. A necessidade da Escritura significa que é preciso ler a Bíblia ou ter alguém que nos diga o que nela se encontra para conhecer Deus pessoalmente, obter perdão de nossos pecados e saber com certeza o que ele quer que façamos. Paulo sugere isso quando pergunta como alguém pode se tornar um cristão “se não houver quem pregue” (Romanos 10:14). Pois “a fé vem por se ouvir a mensagem, e a mensagem é ouvida mediante a palavra de Cristo” (Romanos 10:17). Se não houver ninguém pregando a palavra de Cristo, diz Paulo, as pessoas não poderão ser salvas, e essa palavra vem da Escritura. Então, a fim de saber como se tornar um cristão, normalmente é preciso ler sobre o assunto na Bíblia ou ter acesso a alguém que explique o que a Bíblia ensina. Como Paulo disse a Timóteo, “as sagradas letras […] são capazes torná-lo sábio para a salvação mediante a fé em Cristo Jesus” (2Timóteo 3:15). Contudo, a vida do cristão não começa apenas com a Bíblia, mas também floresce por meio da Bíblia. Jesus disse em Mateus 4:4: “Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus”. Assim como nossa vida física é mantida pela ingestão diária de alimento físico, a vida espiritual é sustentada pela Palavra de Deus. Sendo assim, negligenciar a leitura regular da Bíblia é prejudicial à saúde de nossas almas. Além disso, a Bíblia é única fonte de claras e definitivas declarações sobre a vontade de Deus. Conquanto Deus não tenha revelado todos os aspectos de seu querer a nós — “pois as coisas encobertas pertencem ao Senhor, o nosso Deus” —, há muitos aspectos de sua vontade reveladas a nós por intermédio da Escritura — “para que sigamos todas as palavras desta lei” (Deuteronômio 29:29). O amor por Deus é demonstrado ao “guardar seus mandamentos” (1João 5:3), e seus mandamentos são encontrados nas páginas da Escritura. Embora a Bíblia seja necessária para muitas coisas, não o é para aprendermos algumas lições sobre Deus, seu caráter e suas leis morais, pois “os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra de suas mãos” (Salmos 19:1). Paulo diz que, mesmo para os ímpios, “o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou” (Romanos 1:19). Não apenas os ímpios sabem da existência de Deus e sobre ele, mas também têm em suas mentes e consciências um certo entendimento acerca de suas leis morais (Romanos 1:32; 2:14-15). Por conseguinte, essa “revelação geral” sobre a existência de Deus, seu caráter e a lei moral é concedida a todas as pessoas, sendo perceptível por intermédio da natureza, das obras históricas do Senhor e no senso interior que Deus colocou em todos. É chamada de “revelação geral”, porque é aberta a todas as pessoas. É distinta daquela que é proporcionada pela Bíblia. Em contrapartida, “a revelação especial” é aquela que Deus dedica a pessoas específicas. Toda a Bíblia consiste em uma revelação especial, assim como as mensagens diretas de Deus para os profetas e para outros indivíduos, conforme registrado nas histórias da Bíblia.
A suficiência da Escritura
Embora aqueles que viveram durante o período do Antigo Testamento não desfrutassem do benefício da revelação completa de Deus, somente encontrada no Novo Testamento, eles tiveram acesso a todas as palavras que Deus pretendia dar durante sua vida. Hoje a Bíblia contém todas as palavras divinas de que um indivíduo precisa para se tornar um cristão, viver como um cristão e crescer como um cristão. A fim de ser “irrepreensíveis” diante de Deus, temos apenas que obedecer a sua Palavra: “Como são felizes os que andam em caminhos irrepreensíveis, que vivem conforme a lei do Senhor!” (Salmos 119:1) Na Bíblia, Deus deu instruções que nos equipam para “para toda a boa obra” que ele quer que façamos (2Timóteo 3:16-17). Isso significa dizer que a Escritura é “suficiente ”. Por conseguinte, é tão somente na Escritura que buscamos as palavras divinas para nós, e devemos, por fim, encontrar satisfação com o que nela se acha. A suficiência da Escritura deve nos encorajar a buscar e encontrar por meio da Bíblia o que Deus quer que pensemos sobre certos assuntos ou o que fazer em certa situação. Tudo o que Deus tenciona dizer a seu povo, independentemente do momento e do assunto ou situação em que nos encontremos, encontra-se nas páginas da Bíblia. Conquanto a Bíblia não seja capaz responder diretamente cada pergunta que possamos formular, pois “as coisas encobertas pertencem ao Senhor, o nosso Deus” (Deuteronômio 29:29), ela nos provê a guia de que precisamos “para toda a boa obra” (2Timóteo 3:17). Quando não encontramos na Bíblia uma resposta específica para uma dada pergunta, não ficamos livres para adicionar aos mandamentos “escriturísticos” o que acreditamos ser objetivamente correto. Certamente é possível que Deus no dê orientações específicas em situações particulares do dia a dia, porém, não temos permissão para colocar em pé de igualdade com a Escritura qualquer revelação, dica ou outras formas de orientação mais modernas que acreditemos provirem de Deus. Também não devemos procurar impor tais orientações sobre outros cristãos ou a outras pessoas em nossa igreja, uma vez que podemos estar errados sobre a questão, e Deus nunca deseja que coloquemos algo assim na mesma categoria de suas palavras na Bíblia. Há problemas e situações para as quais Deus não deu a direção ou regras precisas que muitas vezes desejamos, mas, em razão de a Escritura ser suficiente, não temos o direito de acrescentar nada a seus reclamos ou ensinamentos.
De maneira idêntica, no que diz respeito à vida cristã, a suficiência da Escritura nos lembra de que nada é pecado a não ser o que seja explicita ou implicitamente proibido pela Escritura. Portanto, não devemos acrescentar proibições onde não acharmos que a Escritura tenha sido suficientemente precisa. De tempos em tempos, por exemplo, pode haver muitas situações nas quaisum cristão não deve ingerir cafeína, ir ao cinema ou comer carne oferecida a ídolos (ver 1Coríntios 8-10). No entanto, uma vez que não haja nenhum ensinamento específico ou algum princípio geral da Escritura que proíba tais ações para os cristãos, independentemente de época, essas atividades não são propriamente pecaminosas. Então, em nossos ensinos doutrinários, éticos ou morais e nas crenças, devemos nos contentar com o que Deus nos diz na Escritura. O Senhor revelou exatamente o que ele sabe ser melhor para nós. Muitas diferenças que têm dividido igrejas e denominações são aquelas às quais a Bíblia dá pouca ênfase. Muitas conclusões específicas sobre assuntos como a maneira própria de governar a igreja, a exata natureza da presença de Cristo na ceia do Senhor ou a correta natureza da ordem dos eventos que cercam o retorno de Cristo são extraídas mais do hábil raciocínio do que de declarações bíblicas diretas. Dever-se-ia, portanto, mostrar uma humilde hesitação em dar mais ênfase a muitos dos assuntos do que a própria Bíblia lhes dá.
- As vinte bases da fé cristã, Wayne Grudem













