Ela se sentou, postura perfeitamente alinhada, em frente à mesa de Volkov. Esperou que ele se sentasse enquanto calculava suas palavras. As mãos estavam no colo, girando a aliança devagar. Sabia que Volkov havia contado para Eremita sobre seu casamento, mas até então pensava, ingenuamente, que os assuntos de Valentinov estivessem fora dos limites de Volkov. Percebeu como havia sido tola.
"A direção foi expressamente proibida de revelar a qualquer dos alunos sobre a minha situação." Ela começou. "E houve uma doação muito alta para garantir a proteção dessa informação." Não o tratava de igual para igual, sabia de sua posição hierárquica, mas jamais fora capaz de o tratar como os outros. Não o chamava de mestre, não o olhava como se fosse um deus, não se ajoelhava a seus pés. Havia respeito (ganhado a força), medo, e talvez dependência. Mas jamais uma devoção cega. "O que acha que acontece se Eremita contar para os outros?"
Volkov não se sentou. Ficou de pé por longos segundos, observando Sombra com um silêncio que não era vazio era um aviso. Os olhos escuros, impenetráveis, percorriam cada gesto dela com lentidão, desde a postura perfeitamente ereta até o giro nervoso da aliança no dedo. Quando ela terminou de falar, ele deu a volta na mesa com calma ensaiada, como um animal que sabe o exato momento de avançar. “Você me procura para cobrar limites?” Sua voz era baixa, carregada de desdém. “Logo você.”
Antes que ela pudesse responder, Volkov se aproximou de um modo quase íntimo cruelmente íntimo. Levantou sua mão e segurou o rosto dela com força, o polegar pressionando a base do queixo, obrigando-a a encará-lo. “Escute com atenção.” Sussurrou, o hálito cortante como o inverno de São Petersburgo. “Eu estou acima da direção deste instituto. Acima das regras que você acredita manipular com dinheiro e acordos de bastidores.” Aumentou ligeiramente a pressão dos dedos contra sua mandíbula, apenas o suficiente para incomodar.
“Você acha mesmo que a proteção que comprou com uma doação basta para te manter segura aqui dentro? Para manter seus segredos intactos?” Ele soltou uma risada seca. “Você não faz ideia do tipo de segredos que eu já enterrei.” Soltou o rosto dela de súbito, como se estivesse largando algo inútil, e deu um passo para trás, agora voltando ao tom calmo mas mais ameaçador ainda.
“Você não é especial. Só está aqui porque eu permiti. Porque havia utilidade em te manter por perto.” Voltou a se afastar devagar, os passos precisos. “Mas se começar a confundir presença com privilégio, eu mesmo vou te despir até os ossos na frente de todos. E ninguém absolutamente ninguém vai mover um dedo pra te ajudar.” Encostou-se na beirada da mesa, braços cruzados, como quem aprecia ver um animal encolhido no canto da sala. “Agora, pare de brincar.” Ele cuspiu. “Se quer continuar aqui, aprenda a engolir as consequências das escolhas que fez. Ou então, saia. Vá viver sua vidinha de casada com alguém que nunca vai entender nem a metade do que você é ou com sua família, lembra quão bom eles são?” Um último olhar. “Mas se ficar, abaixe a cabeça. E pare de fingir que não sabe quem manda aqui.”
“Você está aqui. Sentada nesta cadeira. Porque mesmo com essa aliança no dedo, decidiu continuar.” Ele apontou brevemente com os olhos para a mão dela. “Então aceite o que isso exige.” por fim, como quem termina uma sentença. “Ou me peça para tirá-la daqui.”













