wamyxs:
O comentário de Georgiana lhe causou uma risada e um aceno de cabeça, constatando a repreensão da mesma. E de fato ela era descuidada e muito distraída em alguns momentos de dia com coisas mínimas. Quantas vezes ela pegou no sono na banheira, perdera a parada no metrô ou esqueceu algum item do mercado. Ter alguém levemente preocupada com sua mente confusa lhe trouxe um sentimento bom, já que a muito tempo se via solitária na nova cidade. Até mesmo quando ainda vivia em sua cidade natal, perto dos pais e das pessoas que ela acreditava fazer parte de sua vida antes do acidente.
E lá estava uma nova risada da Wright para a pergunta alheia, acenando positivamente ao tomar um gole de sua mistura de chá com wisky. “ – Sim, eu estou solteira faz uns… três meses. – ” dissera tranquilamente, o assunto do termino já não lhe trazia qualquer tipo de sentimento negativo. Era passado e sequer tinha contato com a mulher com quem manteve a relação por dois anos. Mas não pôde deixar de perceber o interesse repentino de Gigi para tal informação, fazendo-a controlar um novo riso enquanto a observava de canto de olhos. “ – Mas e você está solteira também? Imagino que bonitona desse jeito, deve ter um monte de gente atrás de você.
Se antes existia sorrisos e risadas nos lábios de Amy em meio a conversa com a nova vizinha, estes se murcharam como suas plantinhas faziam quando esquecia de cuidá-las regularmente, transformando-se em uma expressão de culpa por ter entrado naquele assunto. Imaginava como seria a vida da outra mulher, podia sentir a dor da mesma ao falar sobre a ex noiva. Imaginou que a mesma havia partido e a curiosidade estava na ponta de sua língua, mas não dera continuidade por puro medo de ser invasiva. Apenas levou a destra até o ombro da mesma, apertando de leve. “ – Eu sinto muito. – ” apenas dissera, tentando sorrir pra ela.
A expressão da anfitriã apenas relaxara ao vê-la começar a provar de sua comida. Para si estava bom, já estava acostumada com a baixa qualidade de sua comida durante todos esses anos vivendo sozinha, mas Georgiana não. Os olhos inquietos e a constante vontade de rir da possível reação alheia. Mas acabou sendo totalmente contrária, deixando-a surpresa pela outra ter apreciado do seu prato. “ – De verdade? Nossa, você deve ser uma das poucas pessoas que gosta da minha comida. – ” chega relaxou na cadeira em meio ao riso, sentindo-se feliz pela resposta alheia. “ – Ora só isso, mas é claro, seria um prazer ter você por aqui mais vezes. – ” ela jamais saberia se a outra estava de fato flertando ou apenas tentando ser simpática, mas não importava a resposta para Amy. Ela havia flertado e esperava que Gigi tivesse entendido o recado. “ – Eu sempre chego em casa essa hora, então sempre vai ter um jantar te esperando se quiser.
Não é ela.
Mas a risada é a dela. A voz é a dela. O rosto é o dela.
Talvez...
Não.
O calor dentro de si poderia facilmente ser atribuído à bebida, porém Debenham sabe melhor. Sabe quem é que de fato está causando esse rebuliço do qual está bastante consciente, e, mais que isso, sabe que precisa parar com tudo aquilo. A discussão interna pesando prós e contras a respeito de revelar ou não quem é está bem perto de lhe fazer perder a cabeça. A coragem e velocidade causadas pelo álcool não somam para um resultado positivo. Não. “Existem algumas, mas me falta interesse...” forçou uma risada, como se fosse ajudar a aliviar o peso em seu peito, ou lhe tirar da espiral descendente na qual se encontra.
E diante do passado a se revelar com suas palavras, veio o toque em seu ombro e Georgiana sentiu uma ligação se quebrando. Não entre ela e Amy, mas entre ela e qualquer rastro de controle dentro de si. Deixou a caneca na mesa diante de si e sorriu para a outra, minimamente, quase dolorosamente, caindo em um silêncio profundo. Se falasse, seria a coisa errada. Se seguir a onda que lhe abate agora, decerto, se encontrará sobre os grãos de areia que serão os restos de todas as decisões tomadas durante essa noite.
Ou poderia falar sobre comida.
Gigi coçou a nuca, finalmente encontrando o olhar alheio -- não poderia ignorar aquela linha. Mas não é ela. “Eu-- não posso.” Ela se levantou com um suspiro, mas o fez devagar pois sabia que qualquer movimento brusco agora faria o apartamento girar violentamente. Ficou de costas para a anfitriã, a canhota fechada em punho enquanto o polegar da mão direita caminhava pelos outros dedos, como se contando-os; Precisa se acalmar. Se causar uma cena agora pode destruir o gelo fino no qual ela mesma se encontra. Respirou fundo outra vez. Caminhou até sua bolsa, onde tirou seu celular e permaneceu ali, parada, enquanto procurava por algo.
O arquivo estava escondido, a única pessoa com acesso era Georgiana e sua digital. Faziam anos que ela não acessava aquela pasta, tantos que por pouco não se reconheceu nas fotos. Abriu uma em particular, de duas jovens, nos seus vinte anos, diante de um prédio onde elas moravam, e só então entregou o aparelho à Amy.
“Quando você teve o seu acidente, seus pais foram apontados como seus guardiões legais e me proibiram de te visitar. Eu consegui te ver uma vez, mas... você não me reconheceu. Depois disso, eu descobri que você se mudou com sua família e nunca consegui descobrir para onde vocês tinham ido.” Pausou. “Amy, eu nunca parei de pensar em você. Quando aconteceu, foi como perder os meus pais de novo e eu não sabia o que fazer, eu deveria ter insistido, ter continuado te procurando, mesmo se os seus pais me ameaçassem com infinitas ordens de restrição... Mas eu não sabia o que fazer.”
A esperança era de que as fotos esquecidas pudessem suavizar o impacto de uma completa estranha contando a respeito de algo que, para Amy, nunca aconteceu. Havia tido essa conversa consigo mesma milhares de vezes, sonhado com o reencontro e até com o milagre de que a outra sequer passaria por isso porque se lembraria de Gigi num passe de mágica. Perante ter de usar da realidade, deixou a voz embargada em emoção confessar as desculpas que vieram primeiro, esperando do seu lado pela reação alheia.
















