[Flashback] Save me, save me, save me | Melanie & Ben
Moveu-se na cama, encolhendo o corpo todo no canto mais próximo à parede enquanto sua boca se movimentava, em súplicas chorosas para que a deixassem em paz. As mãos tremiam, o que fez com que ela segurasse o cobertor com firmeza, quase como se o pano felpudo que a cobria pudesse protegê-la de tudo e todos. Flashes da noite anterior invadiam sua mente como parte de um pesadelo. Haviam policiais e, de repente, a lista de coisas que precisava comprar na mercearia havia sumido de sua mente. Sentiu o corpo todo tremer, lembrando de como havia corrido. Dos gritos que lhe cortaram a garganta.
Não lembrou, no entanto, como havia chegado em casa.
Os olhos permaneceram fechados, mas as mãos tateavam a coberta. Não, não, não, não, não podia ser. A garganta ficou seca. Levou as mãos ao rosto, secando as lágrimas que haviam deslizado por suas bochechas e humedecido o travesseiro. Abriu os olhos numa lentidão medrosa. Sabia que não estava em casa, o cobertor não era o que sempre usava e o cheiro de lavanda dos amaciantes que a mãe usava não invadiam suas narinas, no lugar deles, sentia um cheiro amadeirado misturado ao de remédios. Quando os olhos abriram completamente, mais lágrimas deslizaram por sua bochecha. No canto do quarto havia a farda policial que a perseguia nos sonhos, pesadelos e devaneios que tinha desde aquela noite. E que, antes, a havia perseguido pela forma como seu, então, namorado, Ethan, falava sobre juntar-se às forças policiais.
Em poucos segundos, estava sentada, encolhida contra a parede fria que fazia com que seu corpo, recém aquecido, arrepiasse em protesto. Numa cadeira, que não parecia pertencer ao quarto, havia um rapaz sentado. O olhar não era do tipo que amedrontava, muito pelo contrário, chegava a ser acolhedor. As unhas apertaram contra a pele dos joelhos, antes que tivesse coragem de abrir os lábios.
Só havia uma pergunta a fazer e, ainda assim, ela não era suficiente. Nem todas as perguntas que conhecia pareciam ser capazes de fazê-la entender o que estava acontecendo. Por quê estava na casa de um policial? Se ele a havia capturado na noite anterior, por que ela não estava de volta ao manicômio? Puxou a coberta para si, antes de abrir os lábios mais uma vez, numa tentativa de verbalizar o que precisava. "Quem é você?", sua voz, no entanto, soou muito mais frágil e desesperada do que gostaria. Antes que ele respondesse, os lábios abriram mais uma vez e, então, uma chuva de perguntas escapou dos seus lábios. "O que estou fazendo aqui? Por que não… Por quê não me levou de volta para o manicômio?" Ambas desesperadas, ambas frágeis. Por mais que não quisesse, naquele momento Melanie era um animal capturado. Como um daqueles cachorros pequenos e valentes dos quais todos riem porque tanta raiva em um pedaço de vida tão insignificante é… Hilário.
Tinham passado apenas pouquíssimas horas, menos secalhar do que ele queria acreditar, mais do que ele contava pelos dedos, mas Ben já estava assustado novamente. Ele não conseguia explicar como isso acontecia ou de que forma o veneno do febril nervosismo conseguia encontrar o seu caminho para todas as suas veias, mas ele o receava — havia um formigueiro apático no lugar dos seus ossos peitorais, que lhe corrompiam a alma com adrenalina e culpa. Era desgastante e o tornava derrotado, como se saísse de um campo de batalha sem a congenial mente que outrora tivera. A escuridão varria o seu campo de visão por meros segundos, onde o seu corpo, já dormente e descansado, varria a cadeira onde se acomodava à horas. Quem diria que a desonestidade seria psicologicamente fatigante? Ben queria acreditar que seria capaz de prever até onde o interminável cordão de todas as consequências que resultavam das suas ações mais pequenas estica. Mas isso não é verdade. Não somos capazes de saber como tudo se resolve até todos os danos colaterais terem caído. Sussurrando para si próprio concluiu, "Acho que terei de descobrir isso posteriormente."
O problema é que Ben sempre favorecia o desfavorecido, acreditava no outro lado da porta, apostava no cavalo mais fraco, aquele que mancava. Sobretudo devido ao facto de ter sempre sido um deles; que sentia uma enorme necessidade de os proteger, de ir contra a maioria. O rebelde sabia que estes últimos sabiam o que era estar sobre controlo e ele não suportava isso. Consequentemente, Ben firmemente acredita que tem de ser o maldito herói em cada situação. Conquanto, no panorama maior, por vezes ele tropeça nos seus próprios pés e faz as decisões erradas. O tiro já lhe saiu pela culatra um par de vezes. Ben só esperava que, ao olhar veementemente para a estranha instável dentro dos seus lençóis, estava a fazer o que está certo a longo prazo. Quando, mais incerto disso ele ficou. Antes que pudesse abrir a boca, já estava a estranha a falar novamente, a questioná-lo incessantemente; era no mínimo, justo. "Ben." Ela estava aterrorizada e ele não a culpava; só esperava no melhor daqui para a frente. Tentou falar num timbre mais brando e condolente para não a assustar ainda mais. "O meu velho me deu o nome de Benjamin, como o presidente." Pronunciou com ligeiro afectuoso sorriso. "Eu prefiro Ben."
Começou por responder ao seu questionário balbuciando no tom mais baixo que conhecia. Ben, eternamente incerto das suas razões e das suas morais, explicou num monólogo de ritmo vagaroso. "Eu li o seu ficheiro. Aquele que dizia todas as coisas que teoricamente fez que desculpassem a sua estância no manicômio. Eu-" Repetiu, ainda com receio do que diria. "Eu não acredito que tenha sido você a fazer tudo isso." Ben parou nesse instante. Ponderou nas consequências dos seus actos e nisso, das suas palavras. De certo ninguém além da rapariga o estaria a escutar. Nem o governo teria tanto controlo no seu povo, do seus representantes exatamente. Ben estava integrado internamente, trabalhava para o governo. A segurança de todos em primeiro lugar. Levou a palma das mãos à sua cara antes de suspirar entre histórias do seu passado. "Eu conheci outrora alguém que tinha um registo incrivelmente parecido a esse; essa pessoa terá sido a verdadeira culpada de tais crimes, eu suponho. Também acredito que o governo tenha ilibado e posto as culpas noutra pessoa. Eu acho que não foi você."
Ben lançou os braços para a frente, levantando-se da sua cadeira e guardando a sua farda policial. Essa mesma noite ele teria de voltar à sua rotineira ocupação no distópico governo que vivia, esperançoso que nenhum companheiro guarda duvidasse a sua integridade, que ninguém desse pela confusão da noite passada. Talvez a ausência da rapariga em questão não fosse tão problemática. Talvez houvesse uma forma pacífica de resolver tudo. Talvez. As improbabilidades o alarmavam. "E você ainda não fez nada que me deu a parecer que não seja de facto inocente. E sugiro daqui para a frente que pare para pensar duas vezes no que passa na sua cabeça. Não aprecio golpes sujos ou que me sufoque no meu sono; estou aqui para a ajudar."
"Está segura aqui." Ben prometeu, comprometendo-se às dúvidas e danos colaterais dos seus actos. Ele esperava estar certo.











