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@hayesholden
Rainy Day Women #12 & 35 | Holden & Kyle
Holden deixava a galeria por poucos motivos — dormir, comer, ir à Ala Hospitalar, participar do Clube da Luta ou do treinamento dos rebeldes, banhar-se e comprar ervas medicinais com John Sewell. A desculpa para o uso das ervas — vamos chamá-las assim — era uma das únicas vantagens, para não dizer a única, de ser considerada instável. Nem mesmo Rupert poderia negar que vítimas de stress pós-traumático apresentavam considerável melhora após o uso de medicina alternativa. E, mesmo que pudesse, Holden havia lido mais livros do que quase todas as pessoas que conhecia, o que fazia com que ela fosse capaz de forjar qualquer argumento e baseá-lo nos ensinamentos de um grande pensador, filósofo, psicólogo ou médico. John não tinha muito paciência para ouví-la falando e não demorava a dar o que ela queria — é claro que haviam encargos monetários.
Já com o pacote recheado com três finos cigarros no bolso de sua jaqueta, Melanie tentava se convencer a sair dos túneis. Precisava relaxar — essas eram ordens médicas. Faria o que sempre fazia, ficaria do lado de fora por cerca de trinta minutos e então voltaria. Esse tipo de visita também era o que ela usava como base para dizer às enfermeiras sobre como era a vida lá fora e receber estrelinhas douradas de bom comportamento. Infelizmente, estrelas figurativas. No caminho, passou pela ala cheia de computadores. Não precisou olhar por muito tempo para encontrar Brain digitando concentradamente enquanto encarava o monitor com aquela expressão que absolutamente todas as pessoas da ala tecnológica tinha e que ele tinha em demasia — a de que havia acabado de descobrir a resposta para a pergunta essencial sobre a vida, o universo e tudo mais. Melanie sabia há um bom tempo, havia descoberto num livro. Era 42.
Girou na ponta dos pés, colocando as mãos nos bolsos do casaco antes de fitar o garoto mais jovem que sequer notou sua presença. "Brain." Chamou uma vez, no tom corriqueiro. E, então, deu mais alguns passos, até ficar do lado dele. "Brain!" Disse, um pouco mais alto, tentando-o tirar da transe na qual as máquinas colocavam-o. "O que você acha de ir lá fora comigo?" Perguntou, num tom amigável. O mais amigável que conseguia.
[Flashback] Save me, save me, save me | Melanie & Ben
Tinham passado apenas pouquíssimas horas, menos secalhar do que ele queria acreditar, mais do que ele contava pelos dedos, mas Ben já estava assustado novamente. Ele não conseguia explicar como isso acontecia ou de que forma o veneno do febril nervosismo conseguia encontrar o seu caminho para todas as suas veias, mas ele o receava — havia um formigueiro apático no lugar dos seus ossos peitorais, que lhe corrompiam a alma com adrenalina e culpa. Era desgastante e o tornava derrotado, como se saísse de um campo de batalha sem a congenial mente que outrora tivera. A escuridão varria o seu campo de visão por meros segundos, onde o seu corpo, já dormente e descansado, varria a cadeira onde se acomodava à horas. Quem diria que a desonestidade seria psicologicamente fatigante? Ben queria acreditar que seria capaz de prever até onde o interminável cordão de todas as consequências que resultavam das suas ações mais pequenas estica. Mas isso não é verdade. Não somos capazes de saber como tudo se resolve até todos os danos colaterais terem caído. Sussurrando para si próprio concluiu, "Acho que terei de descobrir isso posteriormente."
O problema é que Ben sempre favorecia o desfavorecido, acreditava no outro lado da porta, apostava no cavalo mais fraco, aquele que mancava. Sobretudo devido ao facto de ter sempre sido um deles; que sentia uma enorme necessidade de os proteger, de ir contra a maioria. O rebelde sabia que estes últimos sabiam o que era estar sobre controlo e ele não suportava isso. Consequentemente, Ben firmemente acredita que tem de ser o maldito herói em cada situação. Conquanto, no panorama maior, por vezes ele tropeça nos seus próprios pés e faz as decisões erradas. O tiro já lhe saiu pela culatra um par de vezes. Ben só esperava que, ao olhar veementemente para a estranha instável dentro dos seus lençóis, estava a fazer o que está certo a longo prazo. Quando, mais incerto disso ele ficou. Antes que pudesse abrir a boca, já estava a estranha a falar novamente, a questioná-lo incessantemente; era no mínimo, justo. "Ben." Ela estava aterrorizada e ele não a culpava; só esperava no melhor daqui para a frente. Tentou falar num timbre mais brando e condolente para não a assustar ainda mais. "O meu velho me deu o nome de Benjamin, como o presidente." Pronunciou com ligeiro afectuoso sorriso. "Eu prefiro Ben."
Começou por responder ao seu questionário balbuciando no tom mais baixo que conhecia. Ben, eternamente incerto das suas razões e das suas morais, explicou num monólogo de ritmo vagaroso. "Eu li o seu ficheiro. Aquele que dizia todas as coisas que teoricamente fez que desculpassem a sua estância no manicômio. Eu-" Repetiu, ainda com receio do que diria. "Eu não acredito que tenha sido você a fazer tudo isso." Ben parou nesse instante. Ponderou nas consequências dos seus actos e nisso, das suas palavras. De certo ninguém além da rapariga o estaria a escutar. Nem o governo teria tanto controlo no seu povo, do seus representantes exatamente. Ben estava integrado internamente, trabalhava para o governo. A segurança de todos em primeiro lugar. Levou a palma das mãos à sua cara antes de suspirar entre histórias do seu passado. "Eu conheci outrora alguém que tinha um registo incrivelmente parecido a esse; essa pessoa terá sido a verdadeira culpada de tais crimes, eu suponho. Também acredito que o governo tenha ilibado e posto as culpas noutra pessoa. Eu acho que não foi você.”
Ben lançou os braços para a frente, levantando-se da sua cadeira e guardando a sua farda policial. Essa mesma noite ele teria de voltar à sua rotineira ocupação no distópico governo que vivia, esperançoso que nenhum companheiro guarda duvidasse a sua integridade, que ninguém desse pela confusão da noite passada. Talvez a ausência da rapariga em questão não fosse tão problemática. Talvez houvesse uma forma pacífica de resolver tudo. Talvez. As improbabilidades o alarmavam. "E você ainda não fez nada que me deu a parecer que não seja de facto inocente. E sugiro daqui para a frente que pare para pensar duas vezes no que passa na sua cabeça. Não aprecio golpes sujos ou que me sufoque no meu sono; estou aqui para a ajudar."
“Está segura aqui.” Ben prometeu, comprometendo-se às dúvidas e danos colaterais dos seus actos. Ele esperava estar certo.
As palavras demoraram a fazer algum sentido — eram curtas, porem bondosas e para quem havia visto tanta crueldade, fosse ela antes, durante ou depois de sua passagem pelo manicômio, pareciam ditas em outro idioma. Um idioma morto junto com a guerra, enterrado no Velho Mundo assim como todas as coisas que a humanidade havia perdido de forma irremediável. "Você é um policial." Disse, simplesmente — não tinha certeza de quantos segundos ou minutos havia passado encarando a face do rapaz à sua frente. Dentro de si permeava a dúvida quanto à veracidade daquilo que havia sido escutado. Melanie não se permitia mais confiar. Principalmente em homens que carregavam fardas e distintivos. "Por que eu acreditaria no que diz?"
Ele havia dito. Não acreditava que ela havia feito aquilo do que era acusada, mas isso não era o suficiente. Viviam em um mundo cruel. Um mundo cruel e sujo no qual não existiam heróis que decidiam proteger os fracos e oprimidos por simplesmente fazê-lo. Aqueles que discordavam das barbaridades que aconteciam diariamente ou que, tal qual ela, se sentissem enojados por viver numa sociedade com bases podres, calavam-se. Era essa a opção — escutara a definição de seu pai, quando ele ainda falava com ela. Quando não pensava ser pai de uma louca, opositora do governo, traidora da ordem, instável. Presa no manicômio. Deslizou as mãos pelos cabelos negros, puxando-os para trás e encarando o rapaz. Benjamin. "Meu nome é Melanie Hayes, mas você provavelmente sabe disso... Se leu a minha ficha." Tentava se manter firme, mas sabia que não tinha a menor chance contra ele. Fosse em qualquer situação — perderia numa luta corpo a corpo, ele era muito mais forte e ela estava fraca, machucada, seu corpo estava completamente debilitado pelos acontecimentos dos últimos meses. Não conseguiria fugir, parecia estar em algo mais alto do que o segundo andar e a janela estava bem fechada. Não saberia o que encontraria por trás da porta. E havia o cheiro de remédios. Na melhor das hipóteses, seriam somente tranquilizantes. "Ethan. Você o conhece?"
Ainda não se movia. Mantinha-se coberta, encostada na parede. Ainda o encarava. Não tinha muita certeza do que deveria fazer naquele momento, sua mente não conseguia parar de arquitetar planos para fugir — parecia que era só isso o que sua mente conseguia fazer agora. Arquitetar planos para fugir. Talvez fosse a única forma de conseguir lidar com a forma como sua vida havia virado do avesso, como havia ido de garota um pouco rebelde mas ainda assim dona de um futuro brilhante para pessoa instável. "Você... Você pode guardar aquilo?" Os dedos trêmulos apontaram para a farda pendurada atrás de onde ele estava. Parecia bem patética, encolhida no canto do quarto. Os olhos aterrorizados percorrendo cada canto do cômodo, mas sempre voltando à figura sentada na cadeira à sua frente — talvez quisesse decifrá-lo. Entender aquilo que ele não dizia. Ninguém dizia tudo o que queria dizer em Gallica, nunca sabiam quem estava ouvindo. E, decifrar, se realmente estava segura ou se era parte de algum tipo de joguinho sádico. Estava cansada desse tipo de jogo — havia ficado presa em um por mais de metade de sua vida.
moodboard: holden melanie hayes [2/∞]
[30th Chancellor's Anniversary] May your limits be unknown | Holden & Rupert
Ele sempre fora bom com horários. Pontualidade britânica, como dizia o ditado do mundo antigo, que ele descobrira ao ler em um dos diversos livros da galeria. Quando era pequeno, implorou para que o pai o ensinasse a ver as horas em um relógio de ponteiro, e logo que aprendeu, implorou para que o comprassem um – pensando bem, Rupert até fora uma criança pidona. O primeiro relógio que teve certamente já não servia mais, entretanto, seu pulso sempre exibia um. Sempre checava o horário, mesmo quando não tinha nenhum compromisso, apenas para ter uma ideia da passagem de tempo. Infelizmente, essa pequena mania não se fez presente naquela noite, justamente quando ele precisava. Precisava, porque, pela primeira vez em muito tempo, estava saindo com alguém que realmente gostava. Era claro que saíria algumas vezes, até mesmo depois de Sarah, mas era apenas uma tentativa desesperada de seguir em frente com pessoas que mal conhecia, e as noites acabavam com silêncios desconfortáveis e promessas vazias que eles iriam se ligar, o que nunca acontecia. Convidara Holden sob o pretexto de que ela realmente precisava de um pouco de ar puro e que ninguém a notaria em uma festa lotada como aquela, embora realmente só queria vê-la sem estar usando um jaleco. Como se eles fossem apenas Holden e Rupert, duas pessoas normais, se divertindo em uma festa. Sem ele ter que se controlar a cada copo de champagne que passava ao seu lado, sem ela sentir que o céu está tentando esmagá-la por não estar dentro dos tunéis. Podiam fazer isso. Ou pelo menos, poderiam, se ele não tivesse se atrasado quase uma hora inteira.
Sentiu uma vontade desesperadora de correr até o local onde deveria encontrá-la, mas sabia que não podia. Era uma festa, é claro, mas ainda era uma festa promovida pelo governo de Gallica I, e os policiais pareciam estar em todo lugar. Ninguém corre desesperadamente em um lugar onde a diversão é a regra geral, no sentido literal da palavra. Ele simplesmente atravessou a praça, o olhar voltando para seu relógio de tempos em tempos, conforme os segundos passavam rápido demais para ser possível. Faltava quinze minutos para as onze quando avistou a padaria, e sentiu uma onda de alívio percorrer seu corpo ao ver que não havia nenhum policial por perto. Só precisou de mais alguns passos para vê-la. Estava maravilhosa, embora isso não fosse nenhum choque para ele. Um sorriso surgiu em seus lábios inconscientemente, mesmo que meio segundo atrás ele estava arquitetando um discurso de desculpas em sua mente e planejava falá-lo assim que a encontrasse. Sua felicidade, no entanto, não durou. As lágrimas escorriam pela sua bochecha, e por um momento, ele ficou sem certeza do que fazer. Atordoado, como há muito tempo não ficava, e como provavelmente não devia ficar. Sabia que Holden tinha motivos o suficiente para chorar desde antes de conhecê-la de verdade, mas, por algum motivo, não esperava vê-la naquela situação. “Shit, Holden, I’m sorry.” murmurou, se aproximando dela, estendendo os braços para abraça-la mas corrigindo o erro rapidamente. “I’m really sorry, are you okay? Do you want to go home?”
Shit, Holden, I'm sorry. Ouviu, antes de olhar para ele. As mãos trêmulas quase envolveram seu rosto, numa necessidade latente de abraçá-lo. De enchê-lo de tapas. E, sobretudo, de tocá-lo. De sentir sua pele contra a dele e entender que não estava sozinha — que ele não a havia deixado, que não havia nenhum prazer sádico em fazer com que ela perdesse a cabeça e fosse presa. Mais uma vez. No entanto, assim como ele, hesitou. Encarou-o sem dizer nada por alguns segundos, deslizando os dedos finos pelas bochechas e afastando as lágrimas, com certa raiva. A respiração voltou ao normal pouco a pouco, "No, Rupert... Let's go to the party, yeah?" Sua voz soou mais frágil do que o comum, talvez mais do que ele jamais ouvira.
Pouco a pouco, as mãos pararam de tremer e as lágrimas pararam de deslizar, voltando ao normal. "I'm sorry... You just... I... I'm okay now. We can go. Before they notice us." Procurou falar com um pouco de certeza, mas não havia muita em si agora. Recuperava-as no entanto, a certeza de que não havia sido burra de confiar no médico ou de esperá-lo. Ou de ter acreditado que seria uma boa ideia ir àquela festa. Mesmo que houvessem policiais ao redor — todos estavam disfarçados em smokings que aparentavam ser mais caros do que eram, o que os deixava menos intimidantes. Talvez fosse o problema de Melanie, Holden, fossem os uniformes. Olhou para Rupert por alguns instantes, deslizando a mão até a mão dele. Devagarzinho, entrelaçou os dedos e, então, desviou o olhar.
Holden tinha todos os motivos do mundo para detestar seres-humanos e o fazia com certa habilidade. O fazia até mesmo com aqueles que chamava de amigos, deixando que a rispidez deslizasse por suas palavras e mantendo uma distância segura de alguns centímetros. Nunca tocava ninguém sem pensar sobre isso antes, dificilmente se deixava entregar à necessidade de calor humano que emanava de seu coração — mas isso não acontecia com Rupert. Suas peles pareciam polos opostos de um imã e, por esse motivo, era difícil se conter quando qualquer desculpa parecia boa o suficiente para tocá-lo. Foi difícil para si mesma aceitar ou conviver com a ideia, mas só teve a certeza de que estava realmente segura quando deixou que os dedos entrelaçassem nos dele.
And how odd it is to be haunted by someone that is still alive.
I Guess the Old You is a Ghost (#589: June 25, 2014)
Nuclear Season || Adam x Melanie
Desde o primeiro momento que havia decidido trabalhar na segurança do baile, Adam sabia que iria ter que lidar com toda a raiva que sempre sentia quando qualquer coisa relacionada a seu pai se materializava à sua frente. O pior de tudo era que nunca, absolutamente nunca, havia contado a ninguém sobre o que se passava em sua vida. Ninguém sabia que era um dos filhos bastardos de um dos Chanceleres e, para ele, era melhor assim mesmo. Afastando aqueles pensamentos de sua cabeça, saiu de sua casa no horário programado, mas em vez de tomar o caminho pela cidade, indo pelas ruas, decidiu ir pelos tuneis. Havia muito tempo que havia aprendido que caminhar pelo lugar escuro e quase que deserto acalma sua ânsia de pegar uma arma e ir atrás do que ele mais queria, porque estando ali lembrava-lhe que existiam outros como ele que acreditavam que aquele sistema inteiro precisava ser derrubado – alguns acreditavam que mais rápido, outros acreditavam que mais demoradamente, mas todos acreditavam que sua hora iria chegar. O dia de derrubar aqueles parasitas do poder e o devolvê-lo para os seus verdadeiros donos: o povo.
Estava com o cabelo penteado com gel para trás, uma camisa social branca e uma calça social também, além do sapato mais caro do que ele jamais pagaria em um sapato. Obviamente aquela roupa havia sido entregue a todos que iriam trabalhar como seguranças, mas Adam já pensava no que iria fazer com ela. Talvez tentar vendê-la, já como nunca mais iria usar uma coisa assim e poderia tirar algum trocado a mais com isso, sem contar que o salario para se tornar segurança naquela noite era quase que dois meses do seu salário no cassino. Enfiou uma mão no bolso da calça, lembrando que estava tentando parar de fumar e por isso estava sem cigarro algum, o fazendo suspirar fundo. Em seu outro braço estava apoiado o paletó do terno, então o segurou e foi colocando enquanto caminhava pela linha que conhecia tão bem. Sentia até mesmo falta de não poder ficar ali naquela noite, mas precisava do dinheiro. O pensamento o fez sorrir ironicamente, porque bem, quando qualquer um deles não precisava do dinheiro?
Foi se aproximando da entrada que levava à porta que levava ao principal túnel aonde os rebeldes se encontravam, terminando de arrumar o terno em seu corpo. Sentia-se quase que uma fraude com aquela roupa, mas sabia que ali, entre aquelas pessoas que pensavam e queriam o mesmo que ele, não teria qualquer problema em falar o que pensava e se sentir melhor do que estava se sentindo. Não se podia ter tudo que queria e já havia aprendido isso desde cedo, quando era pequeno e começou a fugir da policia com sua mãe.
Havia passado tempo demais escolhendo uma roupa para vestir — escolhendo, costurando e tentando não parecer uma rebelde sem causa dos anos setenta do Velho Mundo. Mundo com o qual sonhava sempre que não tinha pesadelos. Pelos túneis, enquanto caminhava, via alguns rebeldes. Holden nunca fora, antes mesmo de tornar-se quem era agora, a mais sociável das pessoas — por esse motivo, apesar de conhecidos, grande parte dos rostos que passavam e sorriam amargurados não significava nada além daquela pessoa que, uma vez, havia ficado à sua frente na fila do refeitório. Em meio a eles, no entanto, avistou uma pessoa que parecia mais desconfortável do que todas as outras. O rosto não escondia o desgosto com a roupa que usava — como nunca escondia o desgosto com absolutamente nada. A identificação automática com Adam faria com que a loira sorrisse, se ela fosse o tipo que curvava os lábios para qualquer coisa.
Apressou o passo, ficando ao lado do rebelde. "Que elegante, vai a uma festa ou coisa do tipo?" Disse, assim que o fitou. Rodou na ponta dos pés, ficando de costas para o caminho que deveria seguir e, em passos lentos, continuou andando para trás. "Você parece tão animado quanto eu" Arqueou uma das sobrancelhas, ainda encarando-o. Sabia que Adam, assim como ela — ou, talvez, mais do que ela, detestava a ideia de qualquer interação com os Chanceleres ou seus seguidores cegos e fiéis. Adam, no entanto, o tinha que fazer todos os dias, enquanto Holden, costumeiramente, escondia-se nos túneis.
lonely nights, strange things || Dexter & Holden
Dexter amaldiçoou em pensamento o gênio que havia instalado as lâmpadas naquele túnel. A escuridão ali estava tão grande que o rapaz precisou de um esforço desmedido para focalizar o rosto de quem vinha em sua direção e mais uma vez ele teve certeza que jamais vira aquela garota em sua vida. Se encontrando em uma situação inédita, Dexter não sabia como agir. Até onde se recorda, não é comum pessoas se perderem pelos túneis e chegarem até o elevador, então como infernos aquela mulher fora parar ali?
Em meio ao pânico, seu primeiro pensamento consistia na outra ser uma policial do toque de recolher que se aventurou demais pelas ruas e acabou por chegar ali. Se esse fosse o caso, o melhor a se fazer seria levar a garota para dentro e deixar que os outros cuidassem dela, mas e se mais alguem viesse em buscá-la? Dexter dificilmente se sairia bem na luta corpo a corpo com mais de um policial. Nervoso com a própria situação, o rapaz sentia seu ritmo cardíaco aumentar e leves tiques nervosos em sua cabaça em consequência disso, mas ele optou por ignorar esses sintomas, pois pelo menos uma vez ali ele estava disposto a tomar a dianteira do problema.
Sendo assim o rapaz segurou mais fortemente a arma improvisada que tinha em mãos, um velho bastão de baseball, e se aproximou da moça. O som de seus passos cuidadosos era audível no túnel sombrio e antes que o próprio Dexter quebrasse aquele quase silencio a voz da garota ecoou pelo recinto. O caminhar ociosos que escutou em seguida o fez ficar ainda mais em guarda e por isso acabou por erguer o bastão em uma postura defensiva.
— Sou eu quem faz as perguntas. — Novamente sua voz saiu firme e em um tom mais elevado, mas dessa vez ele não se sentiu muito seguro com as próprias palavras. — Quem é você? Como veio parar aqui? — Sua fala agora saia com um tom mais falho e quebradiço. Cada vez que lidava com policiais ele se recordava do momento em que Lara foi levada e isso fazia com que um enorme peso se instalasse em seu estômago. A leve recordação daquele dia o relembrava do grande inútil que ele sabia que era e o faz repensar se enfrentar aquela mulher havia sido sua melhor escolha.
E assim, lutando contra o próprio desespero e maus pensamentos que rondavam sua mente, Dexter voltou a se aproximar da moça e se conteve apenas quando estava a poucos passos de distância da tal. O moreno não possuía certeza quanto a sua decisão, mas agora que já havia chegado ali ele não dispunha de outra alternativa. Sendo assim, ao parar, sua postura protetora continuou, porém não deveria ser muito conveniente naquele momento. Era perceptível para qualquer um apenas de mirar o garoto poderia que sua respiração era rápida e mãos tremiam. Estes eram óbvios indicadores de nervosismo, ou seja, não era exatamente a imagem que um guarda rebelde deveria transmitir.
O som dos passos do estranho à sua frente parecia ecoar diretamente em seus ouvidos, fazia com que todos os alerta de perigo em seu corpo ecoassem ininterruptamente, o que tornou difícil de entender o que ele falava. Percebeu que havia certa hesitação na forma como o outro agia, principalmente a respiração pesada — Devia estar nervoso, provavelmente era sua primeira missão. A tentativa de desculpa para a forma como o rapaz agia fez com que seu olhar deslizasse ao redor, à procura de alguém na completa escuridão. Mas não conseguia vê-los. Via, muito mal, a silhueta do provável policial a sua frente combinada com o taco de baseball que ele segurava. Com um pouco mais de nitidez, conseguia observar o lado direito de sua face. O olhar vidrado no seu e a expressão de seriedade.
Holden, que naquele momento mais parecia Melanie, era menor do que ele. E parecia diminuir frente à sua postura — por medo. Por pavor. Por pânico. Porque não deveria ter saído dos túneis desacompanhada. Desejou ter ficado na Galeria, rodeada de seus livros e, ocasionalmente, daqueles que chamaria de amigos se preciso fosse, mas que não confiava o suficiente para isso. Confiava menos ainda no rapaz à sua frente. "Melanie." O nome, de sua antiga vida, escapou por entre seus lábios num tom trêmulo, ainda que se mantivesse parada. Evitando dar passos para trás ou correr para fora dos túneis — já havia passado das oito horas agora, definitivamente. "Me desculpe, senhor policial, eu..." Sua voz falhou e o olhar procurou o do outro. "Eu me perdi no caminho de volta para casa." Era isso. Havia sobrevivido duas vezes, mas ninguém sobrevivia à terceira. O policial se aproveitaria daquele momento. De sua fraqueza.
Fechou as mãos num punho, ainda encarando-o. A respiração pesada, nervosa, enquanto algumas gotas de suor frio escorriam por sua nuca. Não poderia dizer que nunca havia ficado tão assustada — quando se tem estresse pós traumático, qualquer coisa o assusta e essa ordem de comparação é perdida. Perde-se a conta de tudo aquilo que assusta. O olhar voltou ao bastão de baseball e, então, ao rapaz. Lembrou-se de Ethan e de Benjamin. Lembrou-se dos outros — cinco ou seis, não lembrava ao certo, policiais que a haviam atacado. Em meio às lembranças e ao silêncio que provavelmente durava m segundo, mas para ela, parecia durar a eternidade, deu um passo para trás. "Você não é um policial." Disse, com muito mais confiança do que havia dito qualquer outra frase até aquele momento. O coração disparou — talvez fosse só um civil. Fechou os pulsos com mais força, mais amedrontada — não conseguia pensar num motivo sequer para que um civil andasse àquela hora pelos túneis com um taco de baseball em mãos.
Você engoliu um chip da Tim, né, gata? Porque tua beleza é sem fronteiras.
Você sabe que uma vez eu li que… Não, não… É, você conseguiu. Me deixou sem uma resposta.
[30th Chancellor's Anniversary] May your limits be unknown | Holden & Rupert
Holden nunca fora de ir a festas - nos túneis, elas eram raras e, quando aconteciam, não exigiam que ela usasse nada além do jeans acompanhado das camisetas estampadas com nomes de bandas punk que havia confeccionado assim que as ouviu pela primeira vez. Isso, em suas primeiras semanas nos túneis. Estava lá há alguns anos. Por isso, havia tentado de toda forma encontrar algum vestido em meio às roupas que tinha, obtendo sucesso apenas quando estava perto de desistir. E deixar Rupert esperando.
Era um vestido preto, sem muitos detalhes e um tanto quanto largo - sequer lhe caiu muito bem, mas era a única opção que tinha. Passou horas demais tentando ajustá-lo até que se moldasse a seu corpo e calçou o velho tênis de sempre. Deixou o cabelo minimamente arrumado, ainda que ele naturalmente fosse bagunçado e parecesse apontar para todos os lados e carregou um pouco de maquiagem nos olhos. Durante todo o período entre decidir que precisava se arrumar e estar pronto, a ideia de não ir havia passado pela sua cabeça mais de cem vezes. Haveriam pessoas demais. Certamente, pessoas conhecidas. E se ela não conseguisse entrar, seria presa. Ben não poderia salvá-la todas as vezes.
Caminhou em passos curtos em direção à Ala Oeste, a saída que nunca usava exatamente por ser aquela que atraia um maior fluxo de pessoas. Assim que o fez, tentou lembrar as vias de Gallica, recuperar fragmentos de sua vida passada para que lembrasse como fazer para chegar ao ponto de encontro. A velha padaria, em uma das ruas que dava acesso à Praça Central. Rupert havia perguntado mais de cinco vezes se ela lembrava aonde era e, em todas, havia respondido que sim, num tom visivelmente irritado. Detestava ser tratada como uma criança que não sabia se cuidar sozinha.
Detestava, ainda mais, perceber que merecia ser tratada assim.
O relógio em seu pulso lembrava-lhe do horário marcado com o médico e... Amigo, ainda que Holden não tivesse muita certeza se esse deveria ser o título destinado a ele. Perdeu-se entre as ruelas do centro de Gallica como se fosse uma visitante, mas não deixou que isso transparecesse em seu semblante. Tentava manter-se calma, dar um passo de cada vez e lembrar, senão do caminho, dos arredores. Para onde poderia correr se houvesse algum problema.
Havia marcado de encontrá-lo às dez horas. Horário em que todos estariam bêbados ou, mais raramente, divertindo-se demais para reparar em uma penetra. Eram dez e meia quando avistou a fachada da padaria, os olhos queimando numa tentativa de conter as lágrimas que precediam ao desespero. Os fechou, respirando fundo antes de encostar-se na parede do estabelecimento, para logo passar a procurar por Rupert. Ele era alto, não muito difícil de visualizar em meio à multidão, mas ela ainda não conseguia vê-lo.
Voltou a checar o relógio de pulso. Dez e quarenta. Engoliu a seco e sentiu a respiração acelerar, à medida em que algumas lágrimas lhe salgaram os lábios. "Son of a lying whore." Murmurou, tentando encontrar algum equilíbrio enquanto pensava em como voltaria aos túneis. E, em como furaria os olhos do médico com um bisturi da próxima vez em que o visse. Se o visse.
[Flashback] I'm half doomed and you're semi-sweet | Holden & Rupert
Gostaria de ser como a maioria das pessoas imaginam os médicos. A frieza característica da profissão, a capacidade de dar notícias ruins a uma mãe e não se sentir um completo monstro. Controlado. Equilibrado. Estável, o que ele certamente não era. Nem mesmo quando ainda tinha sua vida nos eixos, com um emprego bom e uma vida social aceitável para os nivéis de Gallica I. Não gostava da divisão que a sociedade impunha, entre estável e instável, como se um episódio ruim pudesse julgar a vida inteira da pessoa e trancá-la em uma instituição de cura que na maior parte do tempo apenas torturava seus pacientes. A garota a sua frente com certeza não merecia ser internada em um lugar como aquele. Tentava não ouvir a consulta quando era uma de suas enfermeiras sozinhas, mas era impossível quando estava apenas sentado lendo um livro. A voz de Holden parecia flutuar até seus ouvidos, e ele costumava reler a mesma linha várias vezes. Ainda assim, essa seria a conversa mais longa que teria com ela, mesmo ela já tendo visitado a Ala Hospitalar diversas vezes.
Puxou a cadeira para mais perto da maca, e sentou-se mais uma vez. Um sorriso apareceu em seus lábios, como um reflexo em relação ao dela. Esperava que esse não tivesse saído tão falso e desesperado como o primeiro. “You could leave. I’m not telling.” disse, um leve tom brincalhão na voz. Era como conseguia lidar com consultas desse tipo. Agindo como se fosse amigo da pessoa. Ironicamente, era o que o metera em problema quando ainda não era um rebelde. “Yes, I know that.” Vasculhou sua memória por uma das perguntas que as enfermeiras sempre fazem, sentindo-se julgado por demorar tanto tempo para começar. “When was the last time you went outside the tunnels?”
Era sempre a mesma pergunta - aquela que fazia com que seu estômago revirasse enquanto procurava as palavras para mentir. Sempre dizia que havia saído na semana anterior, no dia anterior ou que duas vezes naquele mês, mas havia esquecido de marcar os dias. Descrevia o cheiro do lixo com uma quantidade absurda de detalhes, o que sempre impressionava as enfermeiras sorridentes, fazendo com que anotassem algumas coisas em suas pranchetas e passassem para a próxima pergunta. Alguma coisa na dita autoridade do médico à sua frente, no entanto, fez com que as mentiras não se formasse em seus lábios e a verdade fosse desenhada neles. "Last month. I don't really remember the day." Voltou o olhar para o homem de jaleco, que parecia perdido, ainda que sua postura e tom de voz dissessem o oposto. "I don't have anything there. There's no reason for me to go and..." Respirou fundo, ajeitando-se na maca de modo que deitasse nos travesseiros mal estufados.
Levou ambas as mãos até a barriga, entrelaçando os dedos e encarando o teto - úmido como todos os outros lugares nos túneis. "It's really exhausting." Finalizou a frase, num tom levemente mais baixo do que o que havia utilizado até o momento, arrependida de ter sido sincera no segundo em que notou que aquilo provavelmente a meteria em problemas.
[June, 2150] You was battle born — Joshua & Holden
É possível citar as reações de uma ser humano pronto para se entregar aos seus instintos mais animalescos de cor, caso você seja familiarizado com as mesmas: a taxa de adrenalina no sangue elevada, musculatura contraída, batimentos cardíacos mais fortes do que o normal e a circulação de sangue no organismo aumentada; transpirações, pupilas dilatadas, narinas expandidas para absorver mais oxigênio. Em resumo: o corpo preparando-se para enfrentar o perigo eminente, seja ele real ou imaginário. É uma preparação física concebida pela natureza e encontrada em todos aqueles que se mostram dispostos a explorá-la e entender melhor seus instintos conhecidos desde os ancestrais das cavernas. O que há muito fora explicado como nada além da fisiologia se preparando para enfrentar os desafios do ambiente.
Embora Joshua considerasse aquilo um desafio, sabia que não havia perigo em nenhuma de suas ações ou das da sua oponente. A figura loira que dirigia-se ao centro da roda formada por outros corpos ansiosos pela luta não sentia qualquer tipo de desejo em ver seu corpo sem vida esparramado pelo chão do túnel ao final. Pelo menos era isso que ele esperava, já que sua estima pela mulher fazia com que a considerasse uma boa amiga. "Uma luta saudável e sem desejo por sangue, certo?" Perguntou mesmo sabendo que provavelmente a outra não fazia ideia ao que ele se referia, e menos ainda porque sua risada divertida acompanhava aquela questão. Imaginou também que deveria estar parecendo um louco, mas aquele pensamento servia apenas para melhorar ainda mais seu ânimo já radiante. As lutas tinham esse efeito no fundador do Clube.
Aquela seria a terceira luta da noite e a primeira da qual ele participaria em uma semana e meia, e não poderia estar mais animado para aquilo. Como há muito não sentia, não havia qualquer necessidade de se ferir gravemente, e menos ainda pensamentos agressivos rodeando sua mente cansada. Era apenas por diversão e não poderia pedir ninguém além de Holden para acompanhá-lo naquela dança. Sendo assim, não esperou que o primeiro movimento fosse dado pela mulher; antes mesmo que pudesse esvaziar a mente de tudo que lhe fosse desnecessário naquele momento, seu punho fechado já ia em direção ao rosto da loira igualmente preparada e com tantas chances de vencer aquela luta quanto ele.
Aquele era seu momento preferido em todas as lutas — as preliminares. O momento em que os olhares se encontravam, ambos ansiosos para que a adrenalina fosse liberada da forma mais humana possível, para que os músculos fossem esticados e por todos os impactos que não doeriam, uma vez em que estavam entregues àquele momento. Holden deslizou os dedos pelo única mecha de cabelo que atrapalhava a visão, há alguns centímetros de seu rosto, ao mesmo tempo em que os lábios curvaram, num sorriso sádico pela pergunta feita por Joshua. Respeitava o homem à sua frente como se fosse seu mentor, no entanto, isso não significava que perderia — ou que aceitaria perder a luta. Como todo pupilo, tinha desejo em superar àquele que a havia ensinado. Ergueu as mãos, como se declarasse inocência perante à pergunta. Não desejava sangue, apenas desejava ser aquela que o derrubaria.
No segundo em que o fez, percebeu o punho do loiro vindo em direção a seu rosto e, antes mesmo de conseguir pensar no que faria, inclinou o corpo alguns centímetros para trás, protegendo-se do soco com a palma de uma das mãos que havia erguido. Não foi suficiente para pará-lo, uma vez em que força não era sua vantagem, mas foi o necessário para fazer com que perdesse o foco. No segundo seguinte, fechou as mãos contra as dele, apoiando-se para voltar à posição inicial e dobrou o joelho, erguendo até que impactasse contra o abdômen do adversário. Os lábios entreabriram-se e sua voz, num incomum tom divertido, soou sussurrada próxima a Joshua "You should thank me 'cause I didn't hurt your jewels"
lonely nights, strange things || Dexter & Holden
As noites na Ala Leste tendiam a serem tediosas e silenciosas. Pingos de água descendo dos dutos e farfalhar de lixo ao longe era tudo que se escutava naquele lugar, contribuindo assim para tornar aquele túnel um local mórbido e apático. O frio que se espalhava também auxiliava na tarefa de formar essa imagem e mesmo com seu grosso agasalho Dexter sentia um calafrio percorrer seu corpo e ele apostaria a vida da própria mãe que se tentasse poderia fazer vapor com o ar que saia de sua boca.
Em um dia comum o rapaz não poderia estar se distraindo com pensamentos tão inúteis, mas naquela noite o túnel estava incrivelmente vazio e calmo. Desde quando se aproximava o dia do trigésimo aniversário dos Chanceleres as rondas da polícia haviam aumentado o que não incentivava os rebeldes a se aventurarem pelas alas. Dessa forma, Dex poderia então se perder em pensamentos tão inúteis quando o clima sem se importar com as consequências disso.
Porém, o rapaz estava tão perdido em suas próprias divagações que nem se dera conta de um movimento perto da entrada. Dexter só percebera a nova presença quando um vulto se aproximou do elevador. Assustado com a movimentação o rapaz segurou fortemente as barras da cabine enquanto dirigia suas mãos para a arma que estava em seu cinto. – Quem está ai? – Sua voz sairá firme apesar do nervosismo pelo inesperado e mesmo sob a baixa iluminação da Ala Leste Dex poderia jurar que o referente vulto era uma mulher, porém, o rosto desta era desconhecido para ele.
Havia escolhido o dia perfeito para sair sozinha dos túneis — não havia quase nenhum som, com exceção das vozes distantes e dos passos apressados dos cidadãos de Gallica I preocupados em chegar em casa antes do toque de recolher. O cheiro do lixo fresco não incomodava tanto seu nariz quanto costumava incomodar, qualquer coisa era ar puro em comparação à umidade perene daquele que considerava seu habitat natural. O sol havia se posto há algumas horas, mas Holden ainda estava encostada no muro sujo do prédio que dava boas vindas à rua sem saída de onde havia vindo. Era como um fantasma, as poucas pessoas que passavam por ali sequer preocupavam-se em olhá-la e um raro sorriso escapava de seus lábios por isso. Estava fora dos túneis há três horas e não havia surtado. É claro que seu corpo estremeceu ao ouvir, longe, as sirenes de um carro de polícia e ela quase se encolheu, enquanto lágrimas começavam a queimar seus olhos. No entanto, o som se tornou tão distante quanto as vozes e, em alguns minutos, parecia mais uma lembrança ruim. Fragmentos daquele pesadelo que não conseguia esquecer e, sem precisar gritar por ajuda, havia conseguido se recompor e voltar a observar a paisagem.
Agora escurecia e as vozes ficavam cada vez mais distantes, baixas, medrosas. Aquele era um bairro de classe baixa e, se Holden se forçasse a lembrar de sua outra vida, saberia que não era preciso de um deslize para que algo lhe acontecesse ali se fosse pego. E esses "incidentes" eram muito menos raros daquele o qual havia sido vítima, uma vida atrás. O vento gelado fazia com que sua pele reclamasse e, tão abruptamente quanto havia decidido sair dos túneis, decidiu que voltaria para eles. Já havia feito demais para um dia e seu cérebro precisava descansar.
Caminhou lentamente pela rua escura, em direção ao portão que rangeu assim que tocou nele. Respirou fundo, tentando lembrar o caminho de volta. "Duas a direita, três a... Não, duas a esquerda e uma a direita." Murmurrou para si mesma, enquanto dava passos cegos pelo trajeto mal iluminado. Sentia o frio tocar sua pele, a qual reclamava e amaldiçoou-se por não ter levado um agasalho mais grosso. Assim que chegou ao elevador, escutou uma voz que, diferente de todas as vozes que havia escutado naquele dia, havia feito o coração acelerar. Não de um jeito bom.
Entreabriu os lábios algumas vezes, sem ter certeza se deveria responder ou não. "Quem está falando?" Repetiu a pergunta, no mesmo tom amargo que parecia tatuado em sua voz, à medida em que dava alguns passos atrás, semicerrando os olhos à procura da origem. Sem sucesso. "Estou falando sério, mostre-se!" Tentou soar ameaçadora, mas não sabia bem como fazê-lo — normalmente ameaçava as pessoas com o olhar e, bem, naquele momento não estava certa de para onde deveria olhar.
Fitzpleasure - Alt-J
um passaro me disse
Falar com animais é sinal de um grave problema psicológico. Talvez um tumor cerebral.
Você devia ver um médico.
it would be a privilege to have my heart broken by you
I’m not a heartbreaker. I’m just a fucked-up girl who’s lookin’ for my own peace of mind.