PIROMANCIA
A luz quente e forte irradiava por todo o lugar. Demorei para abrir os olhos, na tentativa de me acostumar com a claridade daquele sol jovial. Quando consegui definir a visão e perceber o que me rodeava me veio o primeiro pensamento: onde estava?
Ao meu redor havia um céu azul límpido, muito verde e árvores frondosas. Passei a mão pela cabeça tentando alinhar os pensamentos e me assustei. Meu cabelo antes cortado bem curto e tingidos quimicamente de loiro natural, estavam impressionamente na altura dos ombros e bem revoltos. Calma, calma, calminha.... Respira e expira. Conte até 10.
Precisava de um cigarro. Passei a mão pelo corpo atrás de algum bolso, mas.... Nua.... Estava como vim ao mundo, completamente nua, no meio do mato e sem.… cigarro? Aquilo não estava acontecendo comigo. Quem fez isso? Fui sequestrada? roubada? estuprada? Não conseguia me lembrar. Olhei ao redor como se a explicação estivesse no chão, ou quem sabe na loucura, só estava atrás de algum cigarro mesmo.
- Vejo que já começou a apreciar a paisagem...
Me assustei com a aparição repentina da pessoa, dei um grito abafado e acabei pulando de tanta surpresa. Um homem angelical, com feições femininas e meio baixo surgiu do nada. Ele estava vestindo uma túnica branca, sorria complacentemente e parecia muito bem colocado naquele lugar, enquanto eu... pensei em xingar, mas não saiu.
- Q... Q... Q... – Não consegui construir uma frase conexa.
- Desculpa, vim lhe guiar por esse local sagrado. Já percebeu o seu privilégio?
- Quem é você? – A frase enfim saiu definível por entre meus lábios.
- Sou o anjo zelador do jardim, é claro. – Estava começando a perder a paciência.
- Isso aqui é um jardim? – Falei com certo desdém, por que aquilo estava bem longe do que conhecia como aqueles lugares bem cuidados. Parecia uma selva livre e sem planejamento.
- Este é o jardim do éden... – Interrompi sua explicação com minha risada debochada.
- Você deve estar brincando comigo. Que palhaçada é essa? - O lugar que eu sempre achei que seria mandada direto é para o inferno e agora vem essa piada de mal gosto... - Jardim do éden? Francamente...
-Trouxe roupas caso queria tampar suas vergonhas.
- Só carrego orgulho, obrigada. Eu quero saber é como eu saio daqui. – Gritei enquanto começava a caminhar para longe do tal anjo e na busca de uma rua, casa ou qualquer coisa que me remetesse a civilização.
Caminhei um bom tempo até que comecei a gritar por ajuda. Depois de tanto esgoelar percebi que os únicos seres que apareciam eram os animais. Vi todo tipo de animal - lógico que quando surgiu na minha frente um leão, um elefante e até rinoceronte - eu sai correndo, mas eles não pareceram interessados em mim. Surpresa de não ter sido morta ou comida, comecei até a apreciar aquele bonito lugar com inúmeras aves coloridas e muita vida. Será que era verdade o que ele tinha dito?
Caminhando cheguei no muro, ou uma espécie dele, que na verdade era uma relva fechada e cheia de espinho que parecia uma parede. Ele parecia ter uma grande extensão e seguia para dentro das árvores. Fui seguindo na tentativa de ver até onde iria.
Ao longe fui avistando uma clareira que se abria para uma fenda que se esguia no meio do muro natural. Corri para lá, feliz em ter uma perspectiva de saída daquele local. Quando me aproximei, vi que era uma abertura larga e no seu meio uma espada enorme que estava cercada de fogo. Não conseguia crer no que estava vendo. Fiquei um tempo admirada que aquela história poderia ser real. E agora como iria sair dali se aquela espada não parava de girar ameaçando cortar minha cabeça.
Estava matutando formas de atravessar, quando ouvi um movimento do outro lado da abertura. Da paisagem inóspita que tinha, apareceu uma mulher altiva, de pele queimada, três vezes maior que eu e um pouco mais velha. Ela me encarou, como se esperasse que eu falasse algo.
- Oi, tudo bem? Estou tentado sair. Como você conseguiu? – Meio sem graça perguntei e fiz minha cara de por favor e piedade.
- Eu escolhi é claro, minha filha.
- Fácil assim? – Já estava impaciente com o modo de falar das pessoas daqui, pois primeiro aquele “anjo” e agora ela?
- Não, não foi fácil, mas foi preciso. – Pude ver que seus olhos encheram de lágrimas.
- Parece que você sente falta daqui...
- Não da forma que você pensa. É um encargo muito grande a verdade, a vida e as ações. Não reclamo. Sei que cumpri meu propósito.
- E qual foi?
- De tomar minhas decisões, de ter a oportunidade de escolher, de gerar vida e de crescer. Eu sou sua mãe... – Minha cabeça girava rapidamente. Estava de frente da pessoa que eu pensava ser. Então eu realmente estava no jardim do éden. Aquele anjo safado realmente estava falando a verdade.
- Mas que raios está acontecendo aqui?
- Preste atenção, minha filha, você está tendo a mesma oportunidade que eu. Escolha sabiamente. Escolha o desenvolvimento e o progresso.
- Olha não quero ser grosseira, mas a vida é uma droga. Não sei o que você fez de bom para você me dá palpite não. Suas escolhas definiram toda a disgraça que caíram nas mulheres desde então. Eu não te culpo, é claro, mas você tem que entender que se eu puder eu vou fazer do meu jeito.
- Só existem dois jeitos. Eu escolhi não apenas por mim, mas por você meus filhos. Eu sei que os percalços e o que isso cobrou, mas é vale a pena e isso eu posso lhe garantir. Então escolha a oportunidade de errar, de sentir e de amar. Você entendeu?
Queria dizer que não havia entendido. Cheguei mais perto, num impulso automático que foi interrompido pelo movimento da espada que chiou e soltou fagulhas de fogo. Sim, a espada proibitiva existia! Aquele tempo que passei estudando a Bíblia me serviram para alguma coisa.
- Então você está aí? Estive lhe procurando.
O anjo apareceu novamente, tão silenciosamente quanto da primeira vez. Olhei novamente para o outro lado, mas ela já não estava mais lá.
- O que você quer?
- Não seja rude. Quero lhe mostrar o pomar do jardim, pois vejo que já conheceu bastante sozinha.
- Sim, sou uma mulher independente.
- Isso não quer dizer que não possa ter ajuda.
Fui sendo praticamente levada por ele, que segurava 'gentilmente' meu braço. Aquilo foi me dando nos nervos.
- Estou sabendo que para sair daqui só preciso fazer uma escolha. O pomar que você fala é onde estão as árvores que a bíblia cita.
- É sim, e como você ficou sabendo disso? – Ele não parecia tão surpreso assim.
- Não importa. Sim ou não?
- Nada é tão simples e toda ação tem sua consequência, então aja com sabedoria. – Cento e dez palavrões perpassaram em minha mente, porém nenhum conseguiu escapar para responder ele.
Chegamos no meio do pomar. O número de árvores era enorme, porém no meio delas era possível ver aquilo que só é descrito na bíblia. No meio existia 3 fiapos de água que cruzavam o jardim seguindo até perder de vista e entre elas existiam duas árvores. É impossível descrever elas. Uma era toda colorida, com todas as cores da primavera e outono em uma arvore só, e a outra era dourada refulgente, como nunca tinha visto em toda a minha vida. Fiquei sem respirar e tentando entender como aquilo era tão bonito, tão sagrado e me senti mais deslocada do que tudo.
- É aqui que o maior acontecimento da história da vida aconteceu ... – ele começou a narrar. – É que você terá a oportunidade de .... – Eu estava encaixando as coisas na minha cabeça como se fosse um quebra cabeça complicado demais. – Portanto, é preciso que entenda que isso é mais que emblemático é a oportunidade...
Ele nem chegou a terminar o que ele falava tão efusivamente. Uma risada ecoou por entre as árvores. Com um ar carrancudo e com minha curiosidade aflorada, viramos buscando de onde havia saído. Dentre as sombras saiu uma mulher majestosa, nua e com um ar levemente zombeteiro.
- Olha só o que temos aqui... – Ela olhava diretamente para mim.
- Quem é você?
- Não seja insolente. Olhe bem para onde você se encontra. Seja qualquer uma das minhas facetas, sou superior. – Ela ralhou comigo e me assustei com seu ar arrogante, mas não deixei transparecer.
- Como você entrou? – Tive que perguntar.
- Como entraria se nunca deixei esse lugar? – Ela riu.
- Isso não importa para mim. Quero apenas sair daqui.
- Algo que você percebeu que não é tão simples.
- Estava justamente explicando, antes de ser bruscamente interrompido por ... – o anjo bem que tentou continuar.
- Cala a sua boca. – Mandou imperiosamente para o ser celestial que se afastou.
Ela gentilmente me abraçou e me colocou de frente para a arvore dourada. Ela pegou uma folha e foi até o primeiro córrego. Com a folha ela pegou um pouco de água e me disse para beber. Quando eu vi aquelas gotas de água, senti sede. Sorvei o líquido das plantas.
Então eu lembrei.... Lembrei dá dor de ser humana, de ser mulher e de existir. Me lembrei do frio, do calor e da sensação que era o medo, a raiva e o desgosto. Lembrei das limitações que carregava e como me sentia fraca perante elas. Olhei pedindo ajuda e ela estava rindo.
- O que você fez comigo? – Nem conseguia ficar em pé.
- Tudo o que você está sentindo virá se você escolher a mortalidade novamente. E agora que você se lembrou a disgraça que é a humanidade. Quem gostaria de sofrer, ser humilhada, assediada e até violentada todos os dias. Agora você está diante da possibilidade de sobrepujar as fraquezas, sensações humanas e até a morte.
- Você é o diabo?
- Aquela serpente velha e egoísta? Não! Eu sou aquela que sobrepujou os desígnios estabelecidos. Eu sou aquela que decidiu permanecer sobre a luz e suas sombras. Agora você tem a chance de ficar também, entende? Apenas tem que comer do fruto dourado e tudo vai dissipar. Coma e o jardim será seu também.
- O que você pensa que está fazendo? – O anjo voltou e começou a reagir. Não parecia nada feliz. – Você não pode intervir de novo.
Eles começaram a discutir. De um confronto de opiniões começou a inflamar e assustar os animais. Era possível escutar ao longe os gritos. Fui melhorando e me afastando. Já sabia como eu iria acabar com aquilo. A discussão demorou um bom tempo até que eles deram por minha falta.
- Cadê a menina?
- Não era para você tomar conta dela?
- Que barulho é esse?
Um barulho começou a inundar o jardim. Correria, zombarias e tropeus eram ouvidos em todo lugar. Os animais pareciam desesperados. Uma névoa surgiu dentre as folhagem.
- Mas que fumaça é essa?
- Está vindo dali!
Me alcançaram quando eu estava colocando fogo em mais uma árvore.
- Onde você arrumou isso?
- Você ficou louca?
- Peguei emprestado o fogo divino daquela maldita espada e agora veremos se preciso fazer alguma escolha. – Gritei histericamente, enquanto mostrava metade do jardim pegando fogo e se aproximando do pomar.
Geraldo Henrique Júnior











