Hades sentia a necessidade das máscaras naquele baile. Principalmente para ele. O Imperador fora ambicioso ao organizar uma grande festa para misturar khajols e changelings, mas fora levemente astuto ao obrigar todos a cobrirem os rostos. Talvez isso acalmasse os ânimos dos últimos meses. Isso, e a bebida que serviam com certa generosidade nas entradas do salão.
Quando Hades chegou, abaixou sua máscara rapidamente apenas para dar o primeiro gole obrigatório e então a colocou de volta, adentrando a festa sem muita vontade. Embora estivesse mais arrumado do que o habitual, para ele ainda era claro que não pertencia àquele mundo de bailes imperiais. A cada lado que olhava, via pessoas belíssimas, refinadas, aristocratas – e ele não combinava em nada com aquilo. Imaginou, no entanto, que mesmo com as máscaras seria capaz de reconhecer um ou dois amigos, embora rezasse para que ninguém de fato o identificasse. Hades estava extremamente apreensivo com a ideia de que, a qualquer momento, seu espírito de órfão da ralé gritasse mais alto e ele fizesse algo que deixasse evidente que não deveria estar ali – algo como segurar a taça de vinho na mão errada ou usar o talher incorreto.
Talvez ele realmente não devesse.
Aceitando o fato de que teria que encarar aquela noite como uma missão — provavelmente a mais difícil de sua carreira até então — contentou-se em comer e beber um pouco, depois se retirou para um dos cantos do salão para ouvir a música, mas sem dançar, pois era grande demais para se mover com graça (exceto quando montado em Pyce).
O salão, entretanto, estava tão cheio que outras pessoas tiveram a mesma ideia, e, apesar de seu tamanho imponente, os cantos vazios estavam ficando escassos. O que Hades encontrou era particularmente distante do centro onde todos dançavam. Assim que se acomodou, escorando-se na parede, uma jovem o intercedeu.
Mesmo de máscara, ele notou a beleza da mulher que se aproximou, percebendo seu tom de pele castanho e se perguntando se a conhecia. No entanto, foi a postura igualmente desconfortável dela que capturou sua atenção. Ela parecia tão deslocada quanto ele, como se nem ela, nem ele, pertencessem àquele cenário. Isso o fez se sentir um pouco melhor.
— Não me leve a mal, milady, em outras circunstâncias eu ficaria encantado em tirá-la para dançar, — disse Hades, erguendo ambas as mãos num gesto de rendição. — Mas não nesse salão, não com essa música. — Completou, esperando que suas palavras deixassem claro que ele não tinha nada contra ela, mas sim contra todo aquele baile. Deu de ombros e soltou um grunhido mal-humorado: — E acho que também não fiquei muito satisfeito com a comid... — Ele se interrompeu, percebendo o quanto soava rude ao reclamar da comida do anfitrião (ainda mais quando o anfitrião em questão era o Imperador). Hades preferia a comida robusta das tavernas, que sustentava por dias, e a cerveja do povo, que tinha um gosto mais familiar.
Ele percebeu que precisava baixar a guarda quando, apesar do desabafo, a jovem manteve um sorriso discretamente fascinante nos lábios. — Hum, sim! De observar eu entendo… — Hades se inclinou levemente para ficar mais próximo de sua altura. — Se você reparar, há um casal naquele canto, — ele apontou discretamente com o olhar, — que está conversando há quase tanto tempo quanto nós, mas parece que o assunto tomou o rumo errado, porque já faz alguns minutos que a dama de vestido azul aumentou bastante o tom de voz.
Então, como um gesto de confiança, Hades abaixou a máscara por completo e deu uma leve risada, enquanto procurava uma moeda em um dos bolsos. — Minhas apostas são de que ele fez algum comentário inapropriado!
Hades não se importava em ser o esquisito que ria sozinho pelos cantos, mas retirar sua máscara o deixava desconfortável, como se a guarda imperial fosse obrigá-lo a colocá-la de volta. — Pronto! Agora, não corremos o risco de parecer esquisitos… podemos rir juntos.