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@harmonizen
(...) beijar, qualquer um beija. flertar, qualquer um flerta. mas o carinho de dedo é só com a pessoa certa ♡ - Pedro Salomão
Se, aos 24 anos, eu tivesse a maturidade que tenho hoje, certamente não teria cometido tantos erros e faria escolhas diferentes para a minha vida. Isso mudaria o presente que vivo hoje, pois os enganos daquela fase moldaram meu futuro.
No entanto, na juventude, muitas vezes não ouvimos conselhos, pois somos arrogantes — achamos que sabemos tudo, como se fôssemos os donos da verdade. Por essa razão, acabamos colecionando cicatrizes no coração e na alma, difíceis de serem apagadas.
Neide Torres
há uma caverna aqui. não no mundo, mas em mim… e dentro dela, três versões de quem sou, ou que já fui algum dia…
o primeiro inquilino dessa caverna é inquieto, sonhador, feito de carne, osso e urgência… vive encostado na saída dela, com os olhos fixos naquela fresta de luz que teima em entrar como se quisesse cutucar as sombras.
sempre fala de sol como se fosse amante, descreve o vento como se ele tivesse mãos, quer correr entre árvores, sentir as lágrimas não como fraqueza, mas como testemunhas do que é ser vivo em estado cru, e seu maior desejo é o amor — não o nome, não o conceito, mas aquele sentimento que escapa das palavras e se aloja no peito como se fosse casa... quer errar e rir depois do aprendizado, quer cair e sentir o impacto com gosto, e se levantar depois de sentir que está pronto para seguir...
o outro eu, é aquele que não quer sair, é um morador bem peculiar… teme a luz, não por desprezo, mas por não saber se conseguiria viver sob ela sem queimar… encontra conforto na chama da tocha que insiste em segurar e não soltar de jeito nenhum… sua companheira é fiel — uma luz menor, controlada e íntima — para a visão dele… que, em conjunto, desenham sombras nas paredes e tentam dar forma ao vazio que sente no peito… um vazio que, ironicamente, preenche tudo.
neste tempo morando na caverna, adquiriu três profissões por experiência própria: poeta do silêncio, cartógrafo da tristeza e arqueólogo de sentimentos enterrados…. e às vezes, só às vezes, também chora… não por fraqueza, mas porque sabe que o vazio interior também vive, de certa forma, igual a ele: preso... e sua única liberdade então, é escrever nas paredes com os dedos, tentando deixar rastros do que sente, na esperança de que alguém — talvez ele mesma, no futuro — entenda tudo aquilo.
este, que te conta sobre os moradores da caverna, sou eu: a colcha de retalhos dos dois extremos… sou quem respira entre o impulso e a âncora, o que entende o desejo da luz, mas respeita a linguagem do escuro.
sempre escuto discutirem dentro de mim como se fossem irmãos gêmeos dividindo o mesmo berço emocional… e de vez em quando, me pego rindo da contradição — do paradoxo de querer partir e permanecer, de desejar o fogo e temer o calor, de clamar por liberdade e se apegar ao cárcere emocional com unhas cravadas…
mas talvez… talvez seja isso que me faz humano: essa dança entre o impulso e o receio… estar entre a luz do sol e a da tocha, entre a euforia da vida lá fora e a delicadeza das dores bem cuidadas aqui dentro… eu não sou a saída, muito menos o fundo: eu sou a travessia.
hoje, refletindo sobre isso, percebo que talvez a caverna não seja prisão nem abrigo, mas espelho... e que as versões de mim não estão lutando… estão conversando para entrar em um acordo, sobre partir ou ficar
talvez um dia eu saia. ou talvez eu aprenda a viver com a porta entreaberta, a tocha acesa, e o coração — ansioso, indeciso e imprevisível — dançando entre o medo e o amor.
— não saí, mas escrevi…