uma coisa que ninguém te conta quando você começa a trabalhar com atendimento ao público: você aprende a ler pessoas muito antes de elas abrirem a boca.
dá pra saber, pela forma como alguém se aproxima do balcão, se o dia vai ser leve ou pesado... tem gente que chega olhando pro celular, já com a sobrancelha franzida, como se o simples fato de ter que interagir com outro ser humano fosse um obstáculo no meio do caminho deles... tem gente que nem para direito, joga o documento na bancada e fica de pé, meio de lado, como quem diz eu já tô indo embora, me dá logo isso!
eu trabalho num balcão de atendimento há dois anos. não vou dizer onde porque não importa... poderia ser banco, poderia ser farmácia, poderia ser cartório. o lugar muda, a pressa é sempre a mesma.
o que me intriga não é a pressa em si, pois eu entendo. a gente vive num ritmo que não para, a cidade não para, o relógio não para... o que me intriga é a forma como a pressa apaga o outro. é como se, quando a pessoa está com pressa, eu deixasse de ser gente e virasse uma máquina. um passo numa lista. uma etapa entre ela e o próximo lugar que ela precisa estar.
ontem mesmo, uma mulher me interrompeu no meio da explicação que ela mesma tinha pedido. eu estava falando, ela já estava guardando o documento na bolsa. eu parei. ela não percebeu que eu tinha parado. ficou um segundo de silêncio, daqueles ensurdecedores, e ela disse tá, então tá! e foi embora sem olhar pra mim.
eu fiquei pensando nisso o resto do turno...
não é raiva. é mais uma espécie de curiosidade triste. me pergunto o que acontece com as pessoas ao longo do dia que faz elas chegarem assim — já gastas, já fechadas, já do outro lado de um vidro invisível. me pergunto também se elas percebem, mais tarde, quando o dia desacelera um pouco, que foram indelicadas. se elas pensam nisso. se isso aparece de madrugada, naquele momento em que a gente revisita o que fez...
tem dias em que fico tentando manter alguma coisa viva no atendimento. uma pergunta a mais, um comentário qualquer sobre o tempo, sobre o pedido feito, sobre qualquer coisa que devolva a dimensão humana do encontro. às vezes funciona... às vezes a pessoa relaxa, sorri de um jeito um pouco envergonhado, como se tivesse acabado de se lembrar que existe.
mas tem dias em que eu também fico cansado. e aí eu entendo, de um jeito que me desconforta, como é que se entra nesse ciclo. como a pressa contamina. como a frieza de um atendimento pode moldar a frieza do próximo...
o que fica, no final do turno, é uma sensação difícil de nomear, sabe? não é exatamente solidão. é mais a consciência de que passei o dia inteiro cercado de gente e que, para a maioria delas, eu fui invisível. não por mal, só por pressa mesmo...
e talvez seja isso o mais pesado: a indiferença que não tem intenção nenhuma... que não é crueldade. que é só o sinal dos tempos: esse negócio de estar sempre a caminho do próximo lugar, sem nunca estar, de verdade, no lugar onde se está...
— o que fica depois que eles vão embora.















