Jetée
seis da manhã não se dorme mais
já não se prensa a indiferença
contra o escuro
seja loucura ou crença,
seis da manhã ilumina
o Cais que sopra redondilhas
nos arredores da cara
revolta do dia.
Keni
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Jetée
seis da manhã não se dorme mais
já não se prensa a indiferença
contra o escuro
seja loucura ou crença,
seis da manhã ilumina
o Cais que sopra redondilhas
nos arredores da cara
revolta do dia.
Vetusta
O sol cabe no mar,
e da manhã resta o cheiro.
A sagrada oração com a cabeça a oeste (ou
leste).
Do poema fez-se o vento
a espalhar os dias - sem aparelhos, teias,
tramas alheias.
É na areia onde não estão os peixes; no
passeio, pessoas.
E o pelotão? E o ditador? morreram todos,
há muito.
O inimigo? sabe-se lá - o tempo, o esquecimento, o ego. Não sei.
Atravessar a rua como se não houvesse lado.
A areia toca os calcanhares. O cão morreu seis vezes. Latiu, tossiu, deitou e não voltou.
Outro, com mais focinho, nasceu, ocupou o que tinha de ser.
O sol entrou do mar,
e a tarde no papel.
Diário
eu tenho um presente a todos os tiranos que impestam florestas e rios do mundo.
eu tenho a sede das crianças d'África e vou jogá-la na piscina iluminada dessa gente rica e maldosa às custas do infanticídio nos arredores de Damasco e Bangladesh.
eu tenho a fome nas bocas de senhoras sem aposentadoria, eu poderia capturá-la na imagem de comunidades ciganas varridas da europa racista.
eu tenho em minhas mãos as lágrimas das mães de adolescentes assassinados pela polícia no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, e em meu peito a asfixia causada por bombas do governo na comunidade de Paraisópolis, em São Paulo.
eu vejo os pés cansados do trabalhador desempregado, cuja utilidade é servir de estatística aos contratos milionários e duvidosos dos mandatários do poder central.
eu tenho nos olhos a lâmina de Dalí, a palma cuspindo fogo, o corpo moído pelo capitalismo.
esse jogo um dia vai virar, e não estarei mais onde estou, mas recomeçarei como faço dia sim, dia não.
a luta é originária
dos povos que aqui na América sempre viveram
abajo
quero a palavra insurgência
nos passos, nos dentes
no avanço do ato, na tomada
de cada silêncio que ocupava
praças, casas, corpos, medos
não quero apenas ver, impassível, ruir e cair a estrutura
quero derrubá-la com punhos
próprios, com mãos e esperanças
próximas.
Viva o povo.
Tourada
Quando a caravana do Estado passa, lava seu ódio de classe, d'alma, no sangue fresco de quem p sustenta. Ontem, em Paraisópolis-SP, foram jovens e crianças. Todos desmembrados numa espécie de tourada policial, avalizada pelo João Dória Jr., cuja espécie é oque temos de mais escroto e desprezível no Brasil.
É na periferia, marginalizada de qualquer bem e serviço, onde se confina e destrói a esperança. Onde calor e potência humanos são chamados de: manada.
Tortura-se [asfixia, aperta, espeta]
pra que do arranha-céu a paulicéia arrefeça. É espetáculo, culto, mitologia estatal:
[cada animal sacrificado
indica reinado próspero].
É disso que se trata: tradição.
Como em Pamplona, se ouve o chupinazo do palácio -
a carne, o corre, a queda,
a festa, a festa, a festa,
pobre abatido é dia de festa.
os assassinos têm seu alvo,
salvo-conduto.
#ForaDoria
#DoriaAssassino
#A.C.A.B
Caderno
Solitário em suas alucinações. O caderno que carrega versos, pensamentos e a tatuagem de café derramado agora vai com o rio e se agarra em seu pescoço úmido.
Do alto, pedras de gelo se lançam do vespeiro de poluição e imaginação.
Penso no caderno, nas mais íntimas anotações sobre quem sou e fui.
Há devaneios sobre o enlace da carne vermelha das fogueiras com o coração que pensei não haver possuído, pois me enxergava, ainda pequeno, apenas como um ou dois pares de gravetos empapuçados pelo líquido arsênico de uma república disposta a adoentar e aniquilar corpos não-brancos.
E esses senhores de cinismos
dobráveis, de diretrizes conspiradas em parlamentos, ainda hoje autorizam o matadouro amazônico, abatem crianças pretas nas comunidades urbanas periféricas, favelas, cortiços. Suas sacolas só poderiam ser feitas de plástico, o mesmo usado pra sufocar a voz e os pulmões do jovem preto em operações policiais genocidas.
Sim, eles nos matam, mas não nos veremos no inferno ou no elevador do andar debaixo, loucos como ratos.
O caderno também carrega iluminuras. Agora ele se vai com o rio, sua digital, feitiços e histórias. Eu o dedico a Willian Blake, aos povos nativos desta terra, aos poetas, às futuras lutas que haveremos de travar, com certeza.
liberdade, latino-americana
irmã de povos longínquos
de olhos migrantes
coração quente
mãe de um, quatro, cinco...
terra livre, sem patentes
não subserviente
avante, alma nativa.
A.C.A.B
perdão
que com os incontáveis e
imensos erros
imersas e sobre mim, a urgência
do cálculo e
a paciência do sábio
agrimensor
possam prover o eu-olhar além
da falsa propriedade de críticas
ao campo alheio,
que assim, e a fim, conjure
potencializar a verdadeira
sabedoria que é a do não
julgamento
é um tipo de arte, gentil-penetrante,
saber que a própria arte é uma porta
aberta no meio do deserto vacilante
que nos habita.
cartografia
cantilenas em orfanatos
da Paraíba
marcha em Exarchia
foi ontem
crianças chilenas prostradas
e a couraça do pelotão
a meteorologia errou
nenhuma batalha perdida
filmes no pause
repetidas idas
à janela
estátua
de São Dez da Manhã
de um domingo em Moscou
respectivamente, não acreditamos
em beijos sintéticos
a arma do povo e
não diatribes políticas
é a ocupação das ruas
e seu deslocamento expectante
ao arrebol das marchas
caminhante das nuvens
ferino das estrelas.
Amor
nada é tão-meu se não for teu e em ti também
a infância lá atrás (a árvore da qual pulávamos)
a rua que proibidos buscamos na cartografia do bairro
nada é tão-eu se em vão não for esse cavalo, o veículo
a ideia de correr os olhos nos teus e dizer "te vejo à noite!" ou ouvir
"te amo mais que sorvete com bolo de caneca" e
eu rindo responder 'petit gateau!
preciso do risco, das risadas de Cocteau das cem primaveras de Ferlinghetti e de quantas maçãs forem necessárias, até que genealogias não me alcancem
e quando o hectoplasma vulcânico da palavra disser Adeus!
estarei no próximo parágrafo.
Gaveteiro
Caminho na pista de quem quer que seja
gotas saltam das calhas
como bolhas intraepidérmicas
brotam nas mãos e volto a olhar o céu
o táxi estaciona do lado de fora
chove
os vidros derretem nos olhos
luzes na atmosfera de umidade e calor
Caminho na pista de quem quer que seja
a brisa alisa o rosto
não agradeço
não hoje agora não como gostaria é tudo
um meio copo de medo
ao ouvir pássaros noturnos doentes
árvores urbanas no corredor das ideias
Caminho na pista de quem quer que seja
entra alguém sozinho e bêbado no bar
o garçom sai do jukebox posto solidão talhada na mão das horas
a noite tem vermelhas manchas nos lábios
o cigarro arde sua pressa como obituário pronto
datilografado sob uma coleção de palíndromos e poemas
os infrarrealistas
penso nas mulheres em Rojava com Kalashnikov nos ombros
pilhas de fotos cartas receitas manuais contra traças
o cérebro é um gaveteiro.
a canção
blood mary, drogas
cavidades cartilaginosas, leitoras
solitárias
fora e
seus daiquiri macerados
teóricas
profundas corretoras
de sentimentos
possíveis conquanto
ideia não é arma pra
tomada de decisão
uma situação é agir preso
ao corredor movediço e
em algum tempo verbal a
outra sequer existe
à cena favorita da canção
faz-se silêncio.
Outubro #19
o povo se multiplica
nas ruas do Chile luta mais linda
e mais
suja nas mãos sujas
da polícia política
súdita sanguinária retrátil
do sadismo
pinocheteano
segue na voz nos
ombros da jovem no
peito da vó que busca há
trinta e oito outubros
a neta na escuridão
o ferro queima colapsa
prende porém liberta
o grito
a vida que somente vale
se encara a morte
cadáveres alvos
da
belicosidade insana
anciã da pobreza da miséria
da tristeza
a praça e campos e
corpos fraturas da
guerra de outros
ontens
lutam hoje
mães filhas autonomia
nas vias libertárias
aéreas barricadas
barrigudas bigodudos
boas mãos vindas
de todo bom Mundo
das
vísceras gritam beijam
sangram sulamericanas
esperanças
viva resista Chile.
Superfície
Quando pensei: "há uma represa de sol nos olhos...", tempo e apego desapareceram.
Não julguemos mal a vida, uma casa de campo inclinada na colina sob a colcha ilimitada de luz.
E aqui incide o necessário, não me vale aposta de "perde" ou "ganha".
O turbilhão nos devolve o gosto, vento de leste.
Aí mora, quem sabe, a resposta, acredite. Sim.
O trem desaparece, então trato dos joelhos, e cozinha ao redor um ar de século que não se acaba, ainda.
Uma música me mergulha, nada.
De melodia híbrida, folclórica, mesopotâmica. Vou assim, de banda, som ligeiro, de nome "Smash the Daesh".
Ontem, cinco peixes do aquário morreram. Não de frio nem fome, ninguém sabe.
Os que ainda vivem, vivem. Superfície é aquilo que se rompe.