O 6º estágio do luto (que você me deu). (Colagem digital, 2022).
Guilherme Oliveira.
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O 6º estágio do luto (que você me deu). (Colagem digital, 2022).
Guilherme Oliveira.
Cordeiro de Deus (Colagem digital, 2022).
Guilherme Oliveira.
Vai ser feliz, anjo. (Arte digital, 2022).
Guilherme Oliveira.
Vá pra m3rda. (Arte digital, 2022).
Guilherme Oliveira.
F*deu (Arte digital, 2022).
Guilherme Oliveira.
O futuro já morreu. (Arte digital, 2022).
Guilherme Oliveira.
Estar no mundo é um susto.
Guilherme Oliveira.
Céu azul.
Faz pouco tempo que cheguei, mas o pedaço fino de madeira rangendo sob as costas faz tudo ser frio e triste rápido demais, o que se soma ao vazio intrínseco de uma vida excessivamente racional. O tempo aqui é diferente e age de forma igualmente distinta em todas ações realizadas ou até mesmo naquelas fadadas apenas à intenção. O espaço é mórbido, estranho e com um gosto fúnebre iminente, tal qual as entranhas de uma catedral gótica, onde vozes e figuras se mantêm naturalmente sorrateiras pelas sombras e distantes dos arcos ogivais adornados pelas rosáceas de vitrais multicoloridos. O ar permanece pesado como o tempo acumulado de um século, o que, automaticamente, faz aumentar a saudade do meu pequeno, porém ventilado aposento, de quando os dias eram dóceis, ou apenas sutilmente suaves, como a brisa do outono que chega despretensiosa pela janela numa manhã ordinária de sábado, enquanto todo o entorno ainda dorme embalado por uma certa normalidade que eu, há muito tempo, já não assimilo mais; aparentemente, apenas eu, encolhido, tolhido e ao mesmo tempo à espera de algum sinal para eu pudesse descobrir outra forma de existir, que não espremido e sempre buscando lugares quase impossíveis, como um par de pináculos solitários.
Cercado pela melancolia que se instalou nesse espaço-tempo-matéria onde passei a habitar, a velocidade de pensamentos faz o corpo suplicar um cuidado que eu já nem sei onde seria possível encontrar, mas ainda assim gostaria de tentar. Nesse momento, o caminho parece óbvio, mas a névoa entrando pelo vitral quebrado se torna densa demais para que eu possa esboçar qualquer reação.
Apenas saudade de espaços conhecidos.
Guilherme Oliveira.
Ninguém me vê. Tudo me acha.
Guilherme Oliveira.
Meiose.
Enquanto nadava naquela piscina de clonazepam, vi fantasmas e outras coisas que prefiro não mencionar, pois tenho medo de dar figura ao pensamento ainda descontrolado, e me perguntei que caminho tua vida rumou. Soube que as quatros linhas que atravessam sua vivência se tornaram insuportáveis.
Em meio àquele mundo de uma epifania por hora, brotou um estranhamento que eu mesmo não pedi, mas que cresceu à medida que me perdia naquele espaço naturalmente arfante: E EU, pra onde vou e como vou, se a cada unidade de tempo que passa tenho perdido a capacidade de imaginar? E imaginar é a própria realidade e materialidade das coisas, pois é a única forma da coisa passar a existir.
Então o mundo só depende de mim e eu mesmo dependo de mim mesmo, criando minha própria realidade, exercício que ao longo do tempo sempre fizeram por mim. Mas eu crio, sim. Talvez não numa instância que a vida espere. Eu crio vendo Pollock. Eu crio vendo Bernini, Warhol, Basquiat, Leonilson. Quando tiro a roupa da cômoda e simulo uma viagem, eu crio. Não criando, eu também crio.
Então, quais as lacunas que ainda não foram preenchidas? *Um respiro* E por que me pergunto do seu rumo, se posso criar minha própria realidade, apesar de ainda não saber como fazer de acordo com o que esperam? Por enquanto, entrego vestígios. Ainda é artificial, sintético, desajustado, mediado, mas é meu. Na verdade, nem eu sei. É essa coisa humana, um processo meiótico que parece que não se concretizou.
Eu vou, não sei bem pra onde. Mas simplesmente vou.
Guilherme Oliveira.
Caixa Preta.
911. What’s your emergency?
Estou cansada. Sou eu agora: o eu, o eu que tenta emergir de um eu divino, um simulacro que se debate no virtual, um outro que sinto falta que eu nem sei se existe mais e outro que só você enxerga. São 5 de mim, e não 3 como Freud teorizou? Por que? Não sei, não há resposta. Parece uma interlocução unilateral. Tudo que é falado bate no paralelepípedo e se espraia pra algum espaço que eu não conheço, como as coisas que são engolidas por um buraco negro. O que é um absurdo, já que são cinco e certamente um fica sobrando. Esse racionalismo cartesiano é pavoroso.
Nem comecei, mas já fiquei arfante. Mas o que não cansa, já que o material é intenso e impregnado à adrenalina? Nesse rumo, liquefiz tanta coisa — talvez coisa demais — e me tornei demasiado planetário e esqueci de voltar aqui, o que ainda assim não tirou partículas materiais de mim.
Em Saturno sou tão jovem, que deu tempo de conhecer todas as luas. Foi deveras maravilhoso como jamais puder sonhar em nenhuma das minhas fantasias mais pueris. Mas aqui mal consigo dar um passo. Preciso me despir, deixando só o que ninguém pode ver, mas que sabe que existe, mas também que ninguém jamais clamou. Meu pescoço treme e ao mesmo tempo é como se minha própria vida inteira chacoalhasse e meu mundo fosse tudo o que não consigo alcançar com as mãos, tampouco com a cabeça.
O que fazes a essa hora enquanto poderias estar a fazer qualquer coisa que qualquer pessoa desconhecida diria que é o que precisa ser feito? Desculpe, ainda não assumi a responsabilidade sobre qualquer coisa que eu preciso ou precisava. Flutuar é um paradoxo. A falta de propósito é constante, e eu que não sei o que fazer, já que eu mesmo não sei se é o âmago ou o macroambiente.
911.
Guilherme Oliveira.
Híbrido.
Deus é o que? Ou quem? Essa pergunta se trata de mais uma demonstração da minha dependência da interlocução, ou uma aflição que realmente precisa ser dividida com alguém ou simplesmente compartilhada nos campos híbridos? A técnica muda a cognição, forma de pensar, e será por isso que eu cheguei nesse espaço?
Não sei sequer perguntar em que instância habita essa coisa que precisa do sentido alheio — é mais um processo sígnio — e que mais uma vez me coloca no meio de um dilema: se vou com todo mundo ou se fico. Mas se vou ou se fico onde? Nem mesmo sei que lugar é esse, e se é mesmo um lugar ou a evidência de alguma coisa, um simulacro, uma coisa que tem no vocabulário.
Além disso, acabei de me dar conta de outra coisa que torna essas incongruências metafísicas mais tectônicas e inacabadas: como posso questionar o que supostamente não conheço, se eu mesmo não sei se eu existo, e se existo não sei se o lugar existe. Então, não posso questionar porque senão estaria questionando minha própria existência? Mas eu existo mesmo, ou acho que existo só porque tenho capacidade de raciocínio? — que prepotente, não? Então vou ficar sem resposta outra vez e em mais outra coisa? Alguém me responda. Viver sem resposta é um ato que mortifica, porque não quero ter que descobrir.
Talvez precise expor a palavra falada, porque o que fico guardando na mente ou no coração é grande demais pra ser entendido em um espaço tão contido como isso que foi chamado de corpo.
Mas finalmente: o que é Deus ou quem é Deus? Talvez nunca devesse ter nadado numa região tão abissal. Sinto que vou entrar numa caverna com todos aqueles animais marinhos neon e nunca mais sair. Domingos não foram feitos para nadar.
Guilherme Oliveira.
Apesar de que.
Quando o fim do que eu achava que era fim tiver fim , eu vou comprar uma bicicleta, já decidi, mesmo que eu ainda não saiba como eu vou comprar, tampouco marca, modelo, cor, nome, ou qualquer coisa que possa tirar o peso da bicicleta de um simples objeto de transporte, produzido por um conjunto de artefatos técnicos, que teoricamente parecem não ter espírito nenhum. Já que a vida precisa de sentido, e sentidos que precisam ser construídos e completados por mim mesmo, por que não dá sentido à bicicleta que eu já amo sem nem mesmo conhecer? Mas de hora em hora sou tomado por uma sensação que emana de uma extensão que se transfigura do outro para mim, o que eu ainda não entendo, já que pensamentos ainda são rarefeitos e impenetráveis e uma das poucas, — senão a única — coisas que é possível de ser individual e que ainda não foi diluída pelas tecnologias líquidas. Eis o pensamento: o amor vai acontecer mesmo, porque está no meu cerne, ou porque sinto que preciso desesperadamente de sentidos depois de fim que eu achava que não teria fim ou que seria o fim? Vou explicar: eu vou comprar a bike mesmo ou é apenas uma projeção futura que criei para dar sentido a esse momento que não tem emoção nenhuma e quando puder realmente comprar, eu não vou comprar porque, na verdade, me apego à sensação de fazer diferente e não concretizar isso? Assim, na hora que me for possível comprar uma bicicleta, acho que vou falhar, porque me alimento da rotina e tudo que envolve comprar “A” bicicleta (maiúsculo mesmo) — desde pensar sobre o assunto até o ato de enxugar o suor no retorno do passeio diário no futuro — envolve destroçar qualquer possibilidade de manutenção da rotina e, consequentemente, a necessidade de um volume extra de oxigênio. A bicicleta, então, não se trata de um apego material, mas de algo que acho que preciso fazer para sentido a algo que ainda não tem? Parece que a vivência é sempre uma troca, um sistema negociado. Talvez o que eu queira dizer, e ainda não tenha percebido, é que é preciso coragem para querer e amar de verdade.
Guilherme Oliveira.
Artifício.
Hoje, mais do que nunca, me deparei com uma ausência de sentido de tudo, o que se concretiza muito pela falta de perspectiva do futuro. Não é necessário me reprimir e mentalmente dizer que é preciso pensar no agora; eu sei. Mas ao mesmo tempo é difícil, já que o ser humano é naturalmente comunicativo — e é importante pensar sobre isso — , mesmo sabendo que é uma condição também incitada pela inerência dos processos técnicos que vão se diluindo ao longo do tempo nas mais diversas atividades do cotidiano. É uma extensão neural. Nesse sentido, começo a pensar no filósofo tcheco Vilém Flusser, quando diz que a “comunicação humana é um artifício cuja intenção é nos fazer esquecer a brutal falta de sentido de uma vida condenada à morte”. Talvez Flusser não fizesse ideia de que teríamos tanto tempo em casa justamente pra pensar e literalmente se aproximar tanto da morte. Aqui não é morbidez. Se o meio é extensão do corpo, como profetizou McLuhan, então a potência de ser do virtual sobrepôs a minha realidade material do ser? Talvez seja sobre prestar atenção em outras coisas, como o vento e a docilidade do sol de inverno de uma manhã dominical, ou simplesmente sobre como como a essência não nos deixa. Ou apenas sobre desapego de alguma coisa.
Guilherme Oliveira.
Memória.
Um dos grandes impactos da cultura digital sobre a humanidade se consolida no processo de armazenamento da memória em nuvem, o que antes era tarefa do cérebro e de outros suportes, como a escrita. À medida que o isolamento aperta é como se o apego à lembrança precisasse ser maior na cabeça ou na nuvem. Mas percebi que em alguns momentos coisas que era muitos claras, agora não consigo sequer lembrar da sensação. Hoje, enquanto tomava o sol matinal, me peguei perdido em mim mesmo (de novo), no instante em que pronunciei uma palavra e não consegui projeta sua representação em minha mente. Respirei fundo e pensei: será que meu cérebro perdeu a capacidade de lembrança até das coisas que eram tão fluidas?
É como se as memórias estivessem rarefeitas e mesmo as coisas mais tangíveis se tornassem movediças, como a própria perspectiva de futuro - na verdade, de existência, porque futuro a gente só tem e sabe qual é. Sei também que é necessário desapegar do que foi pra dar lugar do que vai chegar. Mas será que minhas referências de signo têm se alterado e já desconheço o que era familiar? Sigo tentando lembrar de todo e qualquer tipo de estímulo, porque mais do que nunca memória é existir.
Guilherme Oliveira.
Automático.
A gente se acostuma, mas não devia - já alertou Marina Colasanti. A gente se acostuma a muita coisa, mas depois de uma conversa de cozinha despretensiosa com minha mãe, me dei conta que, nesses entrocamentos do cotidiano, a gente se acostuma principalmente a dizer que tá tudo bem, mesmo quando não tá, quase como um movimento involuntário e intempestivo intrínseco à comunicação humana. A gente se acostuma talvez pelo medo velado de sequer ter percebido que talvez o "como você está?" tenha se tornado um mero questionamento de conveniência ou formalidade, o que gera um medo de depositar um fardo pesado demais no outro, ou talvez pelo medo que a interlocução se torne complexa demais a ponto de não haver linguagem prontamente apropriada - às vezes nem os suportes prometidamente inteligentes de base binária 0/1 sejam suficientes. A resposta também vira uma formalidade (?). E como lidar com isso? Ainda não pensei sobre, porque chegou a hora do almoço e depois tive que problematizar minha própria pesquisa de mestrado. Mas deu tempo de perceber que ser honesto consigo mesmo está imerso nesse bolo todo. E como se é honesto consigo mesmo? Ainda estou descobrindo.
Guilherme Oliveira.
A via crurcis do ser. (Colagem manual + aplicação em mockup, 2020).
Guilherme Oliveira.