O século XX foi um ponto de inflexão na história da arte como um todo, porém na música erudita a mudança foi diferente do que no restante. Enquanto ouve um declínio da popularidade da música clássica e uma restrição de público crescente, surgiram nesse mesmo tempo compositores revolucionários e os maiores virtuosos de uma miríade de instrumentos. Especificamente para o piano, um instrumento relativamente novo (o a versão padrão não existia até a metade do século XIX), é dito que os dois maiores intérpretes dividiram o mundo entre si nos anos de 1900.
Vladimir Horowitz e Artur Rubinstein foram considerados gênios vivos em seus tempos de vida, desde jovens atraíram grandes públicos por onde passaram e foram unanimidade entre a crítica. Ambos tiveram vidas pessoais tão interessantes quando sua atividade profissional e suas trajetórias são aulas sobre o contexto de tensão e mudança que o mundo viveu no século passado. Juntos, os dois moldaram o perfil do pianista celebridade e sua suposta rivalidade está para o universo do instrumento de 88 teclas assim como a rivalidade de Maria Callas e Renata Tebaldi está para o mundo da ópera.
O título de grandiosidade dos músicos do vigésimo século é facilitado pelo fato de que passou a ser possível registrar suas interpretações a partir do desenvolvimento de uma indústria fonográfica cada vez mais tecnológica. Não existem gravações de Paganini e as de Sarasate são escarças e de baixa qualidade, e os dois foram grandes violinistas, em contraste quase todas as obras tocadas por Heifetz e Stern, violinistas do século XX, estão gravadas. Por isso é comum ouvir ser dito que este sr. Heifetz é talvez o maior violinista de todos os tempos, pois pode-se ouvir tudo tocado por ele e comparar com outros contemporâneos e sucessores seus (ainda que a opinião não seja consensual). O mesmo ocorre para Horowitz e Rubinstein. Há relatos de que Schumann e Liszt, além de grandes compositores foram intérpretes de talento excepcional, mas não é possível saber se excediam aos virtuosos contemporâneos.
Vladimir Horowitz nasceu na Ucrânia czarista. Quando jovem estudou com o inovador compositor Alexander Scriabin. Antes de completar 20 anos já era reconhecido na cena artística russa. Emigrou em 1925 justificando-se com as autoridade soviéticas de que pretendia aperfeiçoar-se ao estudar com Arthur Schnabel, primeiro grande intérprete de Beethoven da era gravada. Não retornaria a seu país natal até 1986, quando daria seu lendário concerto em Moscou. Viveu em capitais europeias e finalmente em Nova Iorque. Durante a juventude foi amigo pessoal do compositor-intérprete Sergei Rachmaninoff, que lhe creditou a melhor interpretação de seu próprio terceiro concerto, dizendo que após ouvi-lo ser tocado pelo jovem Horowitz, assumiu que nunca mais o tocaria ele próprio por não ser capaz de alcançar tamanha excelência.
Durante período de expatriação, ele casou-se com a filha do lendário maestro Arturo Toscanini, Wanda. Os dois protagonizaram um casamento tumultuado. O casal Horowitz era reconhecido como pessoas de gênio tempestuoso, além do que o pianista, que mantinha sua homossexualidade escondida, manteve por certo tempo casos extraconjugais, o mais famoso com um de seus assistentes. Romperam momentaneamente o casamento na década de 1940, reatando posteriormente. Em 1952, o pianista sofreu um colapso nervoso e não deu nenhum concerto até 1965, quando foi convencido por seu agente Harold Shaw a retornar para o público com um grandioso concerto no Carnegie Hall, que foi posteriormente lançado em disco. O casal Horowitz teve uma filha, Sonia, cuja morte por overdose em 1975 causou depressão em ambos os pais. No período posterior ao evento, as apresentações do sr. Horowitz foram prejudicadas pelo uso de anti-depressivos.
Naturalizou-se americano em 1944 e morou em Nova Iorque a maior parte da sua vida. Gravou seus maiores sucessos comerciais nas salas de concerto da cidade, como o Carnegie Hall, palco de seu reencontro com o público em 1965 e o Avery Fischer Hall, cujos recitais inédito foram lançado em 2015 pela Sony Classical. Venderam-se muitos discos gravados em estúdios durante toda sua carreira e ele foi utilizado como garoto-propaganda de selos importantes como Deutsche Grammophon, Decca e RCA Victor. Ainda assim, a consagração derradeira se deu com seus concertos em Berlim e Moscou em 1986. Com o relaxamento do regime soviético, Horowitz pode retornar a seu país natal e tocar em um teatro russo depois de 60 anos de ausência no país. O evento foi transmitido ao vivo pela televisão e depois lançado em vídeo e em disco. Nessa gravação é perceptível a emoção do pianista, algo explicitado por uma lágrima que escorre por seu rosto enquanto ele executa Traümerei, das Kinderszenen de Schumann. O LP do concerto lhe rendeu um Grammy de melhor álbum clássico e uma homenagem na cerimônia da entrega do prêmio.
Horowitz sempre foi conhecido por uma interpretação única do repertório romântico, mesmo que tenha gravado peças clássicas, barrocas e modernas. Suas apresentações tinham sempre Chopin, Liszt e Schumann no programa. Muito perseguido por professores de piano, que alertam seus alunos para não se inspirarem na sua técnica, ele sempre teve uma maneira de tocar excêntrica. Ele acertava o meio das teclas com uma força excepcional, o que resultava num som límpido e com volume alto. Há também entre suas façanhas a de manter o mesmo vigor físico inclusive no fim da carreira, quando já contava com mais de 80 anos. O seu timbre e precisão únicas são facilmente reconhecíveis quando comparado com gravações de mesmas peças por outros pianistas. Além disso, seus dedos longos permitiram que ele desenvolve-se uma maneira pouco ortodoxa de tocar. Ele sentava-se mais baixo que a maioria dos demais pianistas, permanecia com os braços abaixados a maior parte do tempo e mantinha as palmas das mãos abaixo do nível do teclado, além de tocar as teclas brancas mais "profundamente" que os demais, para lá da linha das teclas pretas, todas posturas combatidas pelos mestres tradicionais do instrumento que acabam resultando em desastre acústico e físico para a maioria absoluta dos músicos. Todas essas peculiaridades tornavam o som que o sr. Horowitz tirava do piano ímpar. Ainda que isso despertasse o impeto dos críticos o acusavam de não procurar manter-se fiel às intenções dos compositores, trocando-as por sua interpretação personalizada. Ademais, ele foi reconhecido por ter uma memória prodigiosa. Um de seus cartões de visitas era saber todo o repertório ocidental sem precisar recorrer a partituras.
O mítico pianista tinha a excentricidade de tocar apenas aos domingos às 16 horas. E nesses padrões seguiu tocando até o último ano de vida. Morreu em 1989 de um ataque cardíaco em seu apartamento em Nova Iorque, que dividia com a esposa e os cães gatos do casal. Seu obituário no The New York Times o chamava de Titã do Piano logo no título. A sra. Horowitz foi a executora de seu espólio, que continha diversas gravações inéditas, lançadas numa ordem determinada por ela própria. Muitas não foram lançadas devido à opinião dela de que eram trabalho menores de seu marido.
Por fim, o conjunto de carreira bem-sucedida, estrondoso sucesso popular, estrelato perene e vida pessoal envolvente tornaram Vladimir Horowitz não um ícone. Cultivou uma relação ambígua com seu par Artur Rubinstein, muito maculada por seu próprio temperamento volátil. Mesmo com um gênio tão extravagante, ele foi o rosto do piano erudito para gerações ao redor do mundo. Quando indagado sobre o porquê de ausentar-se dos palcos tão frequentemente, ele disse que a culpa eram das coisas em torno das performances, e não o instrumento. Que tocar piano era a coisa mais fácil do mundo.