Blood, desire and sin || Lucy and Dorian
Lucy estava sentada de frente para uma janela durante o anoitecer, onde ela estava já não se batia mais os raios solares, então não tinha problema em ver o Sol antes da escuridão cair. Sua expressão de pedra fazia jus à sua condição de criatura noturna, com o ar soturno e silencioso de um predador. Mesmo com sua belíssima face, Lucy ainda punha medo em quem a via daquele jeito, a garota era… assombrosamente bonita, como um fantasma ou algo sobrenatural, a realidade parecia boa demais pra ser verdade.
Ao lado da cadeira de madeira entalhada com cobre permanecia um criado-mudo, sobre este havia um envelope levemente aberto já vazio e em sua mão o papel de carta com a caligrafia impecável com um convite ousado para a residência de Dorian Gray.
Tal carta havia chegado durante a manhã, porém por sua nova condição ela não poderia desfrutar do dia como antes e então teve a notícia naquele instante. Lucy achou o convite um tanto quanto pertinente, era a primeira vez que alguém lhe convidava para um jantar em Londres, entretanto não o recusou.
Lucy levantou-se da cadeira indo em direção ao seu armário, passou a mão por todos os vestidos ali e escolheu o mais apropriado para a situação. Um vestido de seda preta acompanhado de um casaco longo em vermelho cor de vinho com bordados pretos, a armação era pequena levando em consideração aos vestidos mais usados pelas damas, porém Lucy gostava mais desse tipo de vestido por deixar seu corpo mais definido mesmo por baixo de tanto tecido. Em seu pescoço repousava uma corrente de prata sustentava um simples rubi tão vermelho quanto seus olhos no momento em que se alimentava. Os cabelos loiros estavam presos no alto de sua cabeça com alguns cachos caídos na altura dos ombros adornados com a tiara de cristais que havia ganhado de presente de um antigo pretendente que não a agradou em Whitby. Lucy espirrou um pouco de perfume doce em seu pescoço, em seguida abandonou o quarto já escuro.
Desceu as escadas sem falar nenhuma palavra com ninguém, abriu a grande porta principal e caminhou sem pressa até a rua onde uma carruagem ficava a sua espera. Falou o destino para o cocheiro e então partiu para o tal jantar.
Não demorou muito para chegar até a residência de Dorian, o que a deixou deveras satisfeita. Lucy trocou algumas palavras com o cocheiro e em seguida entrou, acompanhada dos empregados, até o grande casarão onde ficou aguardando o seu anfitrião da noite.
Interessado em escolher a melhor opção de vinho para aquela ocasião, Dorian demorou-se até chegar à luxuosa sala de entrada de seu casarão, local em que sua companhia para o jantar estava a sua espera. Completamente adorável com os cabelos louros presos em um coque firme e delicado, o perfume de Lucy era tão doce quanto a jovem que havia encontrado outro dia nos jardins do Kew Gardens, apesar de que as feições macias e joviais lhe parecessem curiosamente mais maduras e rijas que outrora. Dorian não tinha o costume de se aventurar enviando cartas tão imperativas e intrusivas quanto a que havia mando para Lucy, porém seu instinto lhe fez mudas de ideia dias atrás, quando teve a ligeira sensação de que seu convite seria recebido por Lucy com satisfação.
Não teve muito trabalho além de colocar as suas vestes usuais e que somente o deixavam mais elegante do que já era. Um terno suntuoso e com cortes irreverentes, os sapatos polidos e importados, a camisa de cores sombrias e as jóias que tanto gostava de exibir envolvendo seu pescoço e alguns dos dedos compridos. Dorian sempre estava absolutamente impecável e belo, tal como se não fosse possível em um mundo real que estivesse com um fio de cabelo fora do lugar.
Sorriu para a moça com deleite e gesticulou para que um de seus empregados a ajudasse com o sobretudo vinho e requintado que ela vestia, até que ela estivesse sem ele e Dorian pudesse se admirar com o vestido de seda negra que ela usava, ressaltando ainda mais a pele de porcelana e as maçãs de seu rosto, que pareciam ainda mais rosadas e apetitosas que a última vez que a havia encontrado, quando seu interesse era mais pelas orquídeas raras e não pela beleza doce que Lucy possuia.
- Senhorita Westenra. – Disse com muita elegância, segurando-lhe uma das mãos e a beijando com toda decência que geralmente lhe faltava. – Seja bem vinda ao meu peculiar recanto. Você está encantadora está noite. – Afirmou se erguendo e oferecendo-lhe o braço, como que com o intuito de guiá-la até o salão ao lado, por lá estava uma mesa abastada com um considerável banquete e dois lugares vagos. Seus passos eram firmes ao guiá-la e Dorian não conseguiu deixar de notar com mais ardor o perfume de Lucy, que estava agora bem ao seu lado. – Se me permite, seu perfume me remete curiosamente a crisântemos. – Sibilou com curiosidade. Dorian poderia dizer com mais clareza que ela cheirava a crisântemos brancos, flores que simbolicamente eram conhecidas como representantes da simplicidade e perfeição, também sendo considerado um mediador entre o céu e a terra, entre a vida a, sobretudo, a morte.













