Quem é aquela MÉDICA NEUROLOGISTA correndo por ali? Para estar com pressa assim, tenho certeza de que é FELLOW DE NEUROPSIQUIATRIA no GREY-SLOAN MEMORIAL. Olhando assim, bem que parece YOLANDA FRADE DE ALBUQUERQUE sabe quem é? Dizem que é bastante DEDICADA e EMPÁTICA, mas as más línguas dos corredores adoram dizer que é METICULOSA e INTROVERTIDA. Enfim, pode ser só fofoca, não é? Igual aquela que contavam sobre se parecer muito com CAMILA QUEIROZ. Seja como for, espero que tenha um ótimo plantão!
[TW. Suicidio]
O mal do ser humano é falar do que não sabe. Não digo isso em relação a teorias, claro. Sim a veracidade e crença cega com que encaram o desconhecido sem preocupar-se com o que passam a frente, seja para suas gerações futuras ou para as ao seu lado.
Iolanda pouco lembra de seu pai. Na realidade, sempre teve dúvidas se as memórias que tinham eram de fato suas ou inseridas pelas histórias contadas por terceiros. Arthur Frade foi encontrado morto por sua esposa, no quarto de casal da chácara em que passavam as férias, quando a jovem tinha sete anos. Ao seu lado, um bilhete que tentava justificar o motivo da partida precoce. Alice de Albuquerque compartilhou o bilhete apenas com a família mais próxima e por muito tempo, não disse nada sobre a causa a sua filha. Naquela época, o que a criança sabia era que ele havia ido morar no céu, pois Deus queria ele por perto, de tão bom homem que era. E Iolanda sorria, porque naquela época lembrava como aquilo era verdade e se perguntava quando poderiam ir visitar o homem lá no céu. Era uma boa história a ser contada, claro, o problema é que a língua das pessoas no interior mineiro em que viviam não fosse tão grande assim. Passou a ouvir histórias estranhas, de que seu pai havia cometido um pecado horrível, que ele era um fraco, que era um homem triste. Iolanda chegou a brigar fisicamente com uma garota na escola porque ela disse que seu pai estava condenado ao inferno. A adaptação foi ficando cada vez mais difícil, não apenas para ela mas, para Alice, que apesar de conseguir sustentar as pontas com seu salário de enfermeira e a pensão pela aeronáutica, se segurava na corda bamba de um estresse pós traumático.
A melhor solução encontrada foi retornar a casa dos pais na cidade natal, buscar ajuda, pois alguns dias mal conseguia entrar em casa sem cair num choro e sentir como se coração fosse sair do peito. Precisava de auxilio para se reerguer e cuidar da filha, ao menos enquanto cuidava de si. De fato, foi a melhor solução. Seu Tide e dona Hilda tinham uma casa tão grande quanto seu corações, e acolheram as duas com todo amor do mundo. Aristides vinha de uma família de comerciantes e havia herdado uma grande loja de tecidos em São Paulo, passou a vida cuidando e se dedicando ao comércio com o mesmo zelo que se dedicava a família, talvez por isso seus funcionários o passaram a tratá-lo como tal. Mesmo com o crescimento da manufatura e, consequente aumento de concorrência, optou por manter um negocio menor/familiar, afim de manter a qualidade dos atendimentos e a proximidade com os funcionários. Sempre teve a convicção de que as pessoas compram bem como fazem as coisas com mais gosto quando tem uma ligação pessoal e foi com essa ideologia que a figura “paterna” com que Iolanda cresceu a criou.
Embora a casa dos Albuquerque fosse cercada de netos, era a queridinha do avô. Ioiô, como carinhosamente foi apelidada, alem de filha de sua caçula tinha um sorriso largo e um jeito gentil que derretiam e remontavam o coração do velho. Cresceu cheia de mimos, mesmo que não fossem cheios de dinhero, tinham uma boa condição e uma boa vontade maior ainda. Se queria ir a um passeio, o velho avô aos cuidados e ia. Se tinha apresentação na escola, ele, a mãe e a vó estavam lá na primeira fila, algo que nem sempre acontecia com os primos, acabando por gerar uma certa rivalidade entre os mesmos. Iolanda odiava, no entanto, ouvir que só ganhava as coisas por ser a queridinha, fosse em casa ou na escola, era como se houvesse algo de errado em ser simpática o suficiente para ter o afeto dos avós e dos professores. Não tinha. Ela sabia que não tinha mas, algo a fazia questionar se, não fosse isso, se seria alguém. O sentimento, ao longo dos anos, foi gerando uma certa necessidade de se provar, bem como uma ansiedade intensa nas falhas. O que lhe fez tomar um baque no começo da faculdade de medicina, já que tinha de lidar com pessoas tão dedicadas quanto ela, em ser a melhor da turma. Era uma das melhores faculdades do Brasil, afinal.
O esforço ao longos dos anos foi valendo a pena, claro que era difícil manter relacionamentos quando estava tão focada em se aperfeiçoar no que fazia, os casos passageiros eram o que lhe restava, já que não tinha fôlego, nem quando realmente se interessava em alguém, de insistir. O comportamento inclusive lhe rendeu a fama de “quem faz doce” por um tempo, como se a indisponibilidade não passasse de charme, o que se fosse pensar melhor, não era o caso, visto que quando se interessava e acreditava na recíproca, tomava iniciativa, claro…não quando realmente se interessava. Nesse caso era um Deus dará, ficava numa timidez sem fim, crente que não teria uma chance. Foi numa dessas que perdeu seu primeiro “amor a primeira vista”, de tão enrolada, acabou deixando todas as oportunidades de um romance passarem, perdendo o rapaz para uma moça que conseguiu ser mais rápida que ela, sua prima Silvia. Se culpa internamente por isso ate hoje, mas, deixou seguir. A vida seguiu. E com ela, veio o diploma e a pressão da independência financeira.
Iolanda sempre foi esforçada, logo não foi surpresa o primeiro lugar de neurologia na USP. Mas, o esforço necessário estava apenas começando. A residência é um período infernal, especialmente num país onde as horas cobradas são muitas vezes absurdas e a bolsa irrisória, e, se você for empático o suficiente, é impossível não se desgastar com a situação do sistema publico de saúde de um país subdesenvolvido. O burnout quase lhe pegou no final do segundo ano, mas o observership em um dos mais renomados hospitais de Seattle veio em boa hora. Foi quando percebeu que queria mais qualidade de vida do que poderia lhe ser ofertado em seu país. O observership lhe abriu as portas para um novo mundo e para novas oportunidades.
No terceiro ano mais uma oportunidade, por mais que Iolanda ficasse com o coração na mão de deixar seus familiares ela sentia que um caminho se formava na sua frente. O rodízio eletivo no final do terceiro ano veio, o Grey Sloan parecia uma decisão precisa para o futuro mas, algo dentro dela ainda hesitava. Como poderia ser egoísta ao ponto de deixar sua familia e simplesmente cruzar continente acima? Como poderia fazer isso com seus avós, com sua mãe que já havia perdido tanto, com sua familia.
O fellow em doenças neuromusculares foi desgastante, ela não sabia se queria aquela realidade. A beira de um novo burnout uma conversa franca lhe salvou. Seu Aristides lhe salvou pela milésima vez. Ele lhe disse que jamais ficariam chateados se ela fosse, que se esse era o sonho, ela precisava ir atrás e foi assim, que a cerca de seis meses Iolanda começou seu fellow em neuropsiquiatria no Grey Sloan Memorial. Dividindo rondas entre a enfermaria de neurologia, an ala psiquiátrica e a emergência, uma nova realidade se apresenta para ela, a qual ela agradece pela oportunidade diariamente.
Iolanda é um doce de pessoa, como qualquer um poderia lhe dizer. Não por isso deixa de ser encrenqueira quando necessário. Bem como seu Tide, sabe bem as brigas que tem de comprar, embora as compre em menor intensidade que o homem. Não é de ficar calada na hora de defender ou proteger as pessoas com quem se importa, mesmo não sabendo fazer isso por si muitas vezes. Faz de tudo para não entrar numa discussão mas, quando entra arruma argumento ate encher o saco do ouvinte. Metódica que só ela, morre de angustia só de pensar em uma coisa sair diferente do planejado, ou seja, vive meio angustiada já que a vida não se planeja. Apesar de matura, tem dificuldade para resolver alguns problemas de adulto, mas tem aprendido a se virar, apesar dos perrengues de quem vive em outro pais. Por ter crescido entre diversos primos e gerações de sua família, consegue se enturmar entre muitas pessoas, embora nem sempre sinta-se muito confortável. É capaz de rir da mesma piada 10 vezes se achar engraçado, de tão boba. No entanto, se comete um pecado, é julgar. Falar não fala mas pensa que é uma beleza. Meu Deus, como pensa. A cabeça as vezes parece que vai fritar de tanto arborizar ideia e pensamento, ou seja, pode ser um tanto histérica e nervosa, por trás da carapuça de calmaria e tranquilidade.
HCs
Como salário de estudante não dá em árvore, divide um apartamento proximo ao hospital com outras 2 pessoas
Iolanda fala com seus familiares por vídeo chamada todos os dias, nem que sejam por três minutos em algum intervalo para dar “oi” e checar como estão as coisas
Apesar de ser uma pessoa que parece extrovertida por ser simpática sempre, precisa de pelo menos de uma hora sozinha com frequência para conseguir organizar os pensamentos no lugar
Por ter muita dificuldade em dizer não, às vezes acaba se encarregando de mais coisas do que deveria
Ela tem de explicar com frequência como já terminou uma residência e está no segundo fellow mesmo com 29 anos, dinâmica que parece impossível nos EUA a menos que você seja um gênio porém, diferente dos EUA o Brasil tem acesso direto da faculdade de medicina a residência
Adora flores e frequentemente acaba voltando com um buquê para decorar a casa
Um dos hobbies que guarda nas horas livres é a pintura














