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@igoormarins
Senhor, conserta-me porque às vezes eu sou o problema.
(x)
Tem um momento da vida em que a gente cansa de colocar a culpa nos outros. Cansa de apontar o dedo, de justificar cada dor com o que alguém fez ou deixou de fazer. Porque, no fim das contas, a gente percebe que também teve culpa. Que também errou, se sabotou, mentiu. Que não foi só o mundo que machucou, a gente também se feriu sozinha tentando ser algo que não cabia mais. É dolorido encarar o espelho e entender que boa parte das quedas não vieram de fora, vieram de dentro. Da forma como a gente se tratou, se negligenciou, se odiou em silêncio.
Eu já me odiei tanto que virou rotina. Acordar e me olhar como se eu fosse uma decepção ambulante. Me cobrar até sangrar. Fingir que tava tudo bem só pra não parecer fraca. Eu sempre fui boa em fingir força, sabe? Em dizer que eu aguentava, que eu era dura na queda, que “nada me abala”. Mas por dentro, eu desmoronava em silêncio. E o pior é que, com o tempo, esse silêncio vira casa. A gente se acostuma com a dor, com o peso, com a exaustão. Passa a achar que ser forte é não sentir. Mas é mentira.
Demorou pra eu entender que não existe vitória nenhuma em se destruir tentando provar que tá bem. Que força de verdade é conseguir se olhar sem raiva, sem máscara, sem desculpa. É admitir: eu me feri tentando amar. Eu menti pra mim dizendo que isso era amor. Eu joguei sal nas minhas próprias feridas. E foi aí que a ficha caiu, o perdão que eu precisava nunca foi o de ninguém além do meu.
Eu passei tanto tempo me culpando, me comparando, me diminuindo… e tudo isso disfarçado de autocrítica. É cruel perceber que a pessoa que mais te cobrou, te maltratou e te colocou pra baixo foi você mesma. Eu era minha própria inimiga. A pior delas. E sabe o que é irônico? É que eu achava que isso era disciplina, que era amadurecimento. Mas não. Era só dor não curada, travestida de autocontrole. Era só eu repetindo as mesmas feridas que tentava fugir.
Hoje eu olho pra trás e vejo quantas vezes eu me tornei o que diziam de mim. Quantas vezes eu deixei o olhar dos outros me definir. Eu me calei, me moldando pra caber em expectativas que nem eram minhas. Eu me perdi tentando ser admirada por pessoas que nem sabiam quem eu era de verdade. E tudo isso me levou a um esgotamento tão grande que eu precisei parar. Eu precisei olhar no espelho e dizer: chega.
Foi nesse “chega” que algo dentro de mim começou a respirar de novo. Eu parei de correr. Parei de me odiar por sentir. Parei de querer ser uma versão invencível de mim mesma. Hoje, eu só quero ser real. Não perfeita, não indestrutível, só real. E tem sido estranho, mas bonito, perceber que dá pra rir de novo, dá pra brilhar por dentro, dá pra se reconstruir sem precisar fingir que nunca doeu.
Eu ainda carrego cicatrizes. Ainda tenho dias em que a dor parece voltar disfarçada de lembrança. Mas agora eu não fujo mais. Eu olho pra mim com mais gentileza. Porque tudo que eu fui, todas as quedas, todos os erros, tudo isso me trouxe até aqui. E eu amo como, no fim das contas, acabou se transformando. Como da dor veio força, e da culpa veio perdão.
Então sim, eu me desculpo. Por todas as vezes em que me fiz pequena, em que me traí, em que insisti em me ferir pra caber em algo que já não era pra mim. Me desculpo por ter duvidado da minha luz, por ter confundido resistência com abandono próprio. Hoje, eu só quero seguir sendo leal a quem eu sou, mesmo quando isso for difícil. Porque eu já fui minha pior inimiga, agora, quero ser minha cura.
Amor não deveria doer tanto assim
Mr. Darkman
o tempo muda tudo, menos aqueles que decidiram morrer por dentro e continuar respirando.
- noscanos