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@indovinare
Distraída, por Luiz H.
Ensino jovens e crianças a tocarem instrumentos. Naquela quarta-feira estava indo para a casa de um garoto, que mesmo não tendo muito dinheiro, tinha uma vontade enorme de aprender a tocar violino. Geralmente eu ia de carro, guardava com todo o cuidado o meu violino dentro de sua ‘bag’ e a aconchegava em baixo do banco do motorista. Sempre foi assim, até que, num dia chuvoso, a água inundou algumas ruas de meu bairro, e todas as casas de meu quarteirão ficaram praticamente ilhadas, não havia como sair de casa dirigindo. O único jeito de ir até a casa do garoto era pular o cercado dos fundos e encarar o metrô, e como eu não sou de furar, foi assim que fiz. Pra minha sorte, foi assim que fiz.
Eu não sabia ao certo o horário do metrô que sairia de meu bairro para Manhattan, e fiquei por um bom tempo parado na estação. O tédio era tão grande, que pude ouvir meu violino me chamando dentro da bag, e encostei minha mochila, que carrego para levar as partituras, peguei meu violino e risquei leves notas de Richard Strauss, um maestro e compositor que admiro muito. Uma senhora aproximou-se de mim, empurrou com os pés minhas mochilas para a parede e me alertou, “é perigoso ficar mostrando suas coisas aqui, há muitos ladrões na estação”, e eu apenas sorri. Sabia o perigo que estaria correndo tocando um violino grego, mas não imaginava que o lugar era tão perigoso.
A senhora embarcou no mesmo metro que eu, e sentou-se ao meu lado, certamente era o que ela tinha mais intimidade e confiança, imagina-se por quê. Eu não aguentei muito o silêncio das almas misturado com a inquietação do metro. O ar ali era um tanto desanimado e cansativo, e eu me senti no direito de suavizá-lo, fazendo dessa inquietação, uma turbulência de sentimentos que todos devem sentir. Prossegui com a obra de Strauss, aquilo me animava. E toquei boa por parte do caminho, com um anseio de que alguém poderia não gostar, mas algumas pessoas sorriam, outras tinham feição de estar mais leve, e até cochilavam.
Uma moça aproximou-se de mim, debruçou no ferro e sorriu olhando diretamente para meus olhos, ignorando a existência de meu violino, como se eu apenas estivesse ali, fazendo nada.
-Você toca muito bem – disse, sorrindo ainda mais.
-Obrigado – respondi, assentindo com a cabeça. Meus pais haviam me ensinado que agradecer por agradecer era apenas dizer “obrigado” por obrigação. Deveria mostrar em gestos o quanto estava agradecido.
Levantei do banco, dando lugar para a moça, e me desliguei do mundo. Lembrei de uma obra de Niccolò Paganini, que já havia até perdido a partitura. Me encantava por essa música quando criança, ouvindo meu pai tocar pra minha mãe e eu adormecer. Era a única coisa que a acalmava em seus últimos dias de vida. Que Deus os tenha.
Sim, eu queria impressionar a moça. Não sou de fazer isso. Na verdade, odeio chamar atenção, timidez devia ser meu nome, mas meus anjos/pais foram mais criativos.
A moça levantou-se do assento, olhou para mim, e com leves movimentos de bailarina arriscou uma dança. Pouco desajeitada, talvez pelos movimentos bruscos do metro. Senti que não estava só, na verdade estava acompanhado por uma linda moça, com uma mania estranha de piscar os olhos, e que mesmo sem eu perceber, me encantou naquele dia. Tomamos posse do corredor, ela dançando, e eu tocando. Acompanhando seus movimentos e sorrisos. Dois bobos no vagão. Eu de cá, tentando me concentrar no violino, sendo tomado pela bailarina, ela de lá, dançando uma hora leve como uma pena, outra, torta como uma bêbada.
O metro começou a frear, e num momento de desequilíbrio, a moça caiu em meus braços. Nada de beijo, nada de um pedido de desculpas, nada de música. Os dois loucos estavam enfeitiçados por uma peça que o metrô resolveu pregar em nós. E ficamos assim, parados, até o metrô parar. Ela foi saindo aos poucos de meus braços, e continuou me fitando fortemente, sintomas de hipnose, não sei se de paixão.
Com as portas abertas, pessoas entravam e saiam do metrô, e ela enfim acordou. Sorriu pra mim e me deu um abraço. Não era o que eu esperava no momento, mas ficamos um bom tempo trocando esse afago caloroso, até que ela deu um pulo, olhou para a porta e notou que tinha chegado ao seu destino. Sussurrou bem baixinho o nome de uma cidade, que não me lembro muito bem qual era, e soltou-se de mim, apressada.
-Preciso ir, tenho uma apresentação agora. Quer vir?
-Tenho um compromisso, moça. Me perdoe – respondi, me arrependendo desde já.
-Tudo bem – deu um sorriso que me encanta até hoje, e saiu pela porta.
Antes mesmo de olhar pra trás, eu já me corroia pela saudade. Não saberia quando a veria novamente. Não tivemos tempo de trocar telefones ou informações. Não queria gritar “qual é o seu nome?” ou coisa do tipo. Ai sim seria taxado como louco.
-Minha pasta! Estou esquecendo – gritou, entrando novamente no metro com passos curtos, porém acelerados.
Eu peguei uma pasta que estava no assento no qual ela sentou. Dei em suas mãos, e antes dela virar de costas, pulou em meu pescoço e me deu um beijo. Que loucura. Meu coração foi a mil naquele momento, e eu fiquei realmente sem palavras, mania de tímido. Ela saiu pela porta e olhou pra trás novamente.
-Minha bolsa! Poxa vida – bradou, pulando como uma criança, com sua pasta batendo em suas pernas. Achei que estava brincando, mas quando olhei para o assento, a senhora que sentava ao nosso lado estava com uma bolsa em mãos. Estendendo o braço em minha direção.
-Dê a bolsa pra moça, garoto – disse a senhora, uma ordem quase sem forças.
Eu corri e peguei sua bolsa, e ouvi o barulho das portas se fechando. Corri até a porta com esperança de entregá-la a tempo, mas por pura ironia a bolsa ficou presa. Metade pra fora, metade pra dentro. A moça entrou em desespero, tentando puxar a bolsa pra fora pela alça, mas esta não se movia. O metrô começou a andar, e a moça cessou seu desespero. Olhou pra mim pelo vidro da porta, deu um sorriso, e puxou um laço de fita de dentro da bolsa. Eram suas sapatilhas de balé.
Fomos embora. Eu, o trem, o violino e a senhora. Levamos conosco a bolsa da moça, e seu lindo sorriso. Caminhei até a porta e a puxei para dentro, triste, pensando que talvez a moça nunca mais veria sua bolsa, e suas coisas que ali estavam. Fiquei uns minutos pensando, paralisado. Violino num braço, bolsa no outro. Senti um toque em meu ombro.
-Você vai devolvê-la não vai, garoto? – disse a senhora, com um sorriso que me deu esperança, e força. Animei-me desde então, e me decidi. Vou atrás – Você não parece ser ladrão… é?
-Não, senhora. Não sou.”
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