E então voltei. De frente para aquela mesma livraria de anos atrás. Parecia (quase) uma volta ao passado. E antes de entrar, respirei fundo umas quantas vezes. Fechei os olhos e fui. Porque só assim. Lá estava tudo imaculado no mesmo lugar como se o tempo nem tão pouco tivesse passado por ali. Continuava a mesma. Os sons que tocavam de fundo eram os mesmos, o pequeno balcão dos chás e cafés, era o mesmo, a velha estante dos livros era a mesma. Tudo igual. Não sei explicar o que senti, o que estou a sentir ainda. Se ao mesmo tempo que aquele passado parecia não me fazer parte mais, ora, por outro, ele era tão inteiramente uma parte imensa de mim, e isso é inegável. Chorei, interiormente, desabei, pois por fora era que nem pétala de flor, murcha a vagar com o vento. Ainda que tudo isso me pertença, eu não sei mais lidar, e isso dói tanto. Peguei da estante empoeirada daquela mesma livraria de anos atrás, o livro de sempre. Sim, pois estava exatamente no mesmo lugar. Folha após folha, era um suspiro profundo a mais, o ar faltava, real, quase abafei. É tão louco como tudo isso ainda sou eu e ao mesmo tempo, não me reconheço em tanto assim. Tudo mudou, e tudo ainda está exatamente igual. E isso sufoca. Isso, confunde. Em cada palavra, uma lembrança a mais, cada frase que eu já sabia de cor, uma memória irrompia-me de tal forma que me senti nua. Sim, desnudada por cada história, cada verdade, ali contada, ainda era eu. Levei a mão ao peito, depois à cabeça, depois ao pescoço, sentia-me a pesar. Eram as recordações a fazer-se chegar. E convenhamos, ninguém é leve ao lembrar de tudo, de cada segundo, desde que abriu os olhos neste mundo. Por isso é que dizem, os estudiosos, que a memória vai ficando, com o passar dos anos, mais seletiva, contida até (mas eu não). E a minha parecia querer atropelar-me, estourar-me com tantas lembranças. Não que me tivesse esquecido. Mas reencontrar-me, ali, novamente, estava a ser uma colisão. Quando viajamos dentro de nós a exaustão é tão maior, que não somos capazes de mensurar, quem dirá expressar copiosamente em palavras. E era isso que estava a passar-se, que estava a passar-me. Inspirei e expirei profundamente, o número significativo de vezes, suficiente para perder a conta, e me acalmar. Estiquei o pescoço, estalei as costas, limpei as mãos suadas nas calças, engoli em seco, até ter força o bastante para me levantar, tragar uns goles de água sem me afogar neles, tal era a agitação, e por fim voltar, sentar-me ali e começar a encaixar palavra por palavra, devagar, no meu tempo, até me redescobrir, e conseguir escrever. Foi então que saquei um papel e uma caneta, que trago sempre comigo, e comecei a transbordar. Tudo ficou mais real ainda, tomou uma proporção tão grande, que eu nem sequer concebia a ideia de terminar aquela escrita, ou talvez, o que eu queria alcançar com ela, até achar o cerne, o âmago, onde pudesse, serenamente, colocar o ponto final, e aí sim, respirar de alívio. Como se uma etapa a mais se cumprisse ali. Claro, ninguém entra numa livraria, aquela mesma livraria de anos atrás, e faz morada. Ainda que queira, ainda que parte de si, se guarde por lá, a realidade vai além, e em algum momento, a uma qualquer hora do dia, é preciso sair, voltar para casa, mesmo que se sinta que o próprio lar seria ali, também. Óbvio, entre tantos devaneios e vislumbres, não achei o ponto. Mas incluí reticências. Ensinaram-me, certa vez, que com elas, podemos sempre voltar, ao mesmo lugar onde se parou, ou separou, ou ficou por lá…