Seria um belo modo de morrer, os cabelos ao vento e o coração acelerado. O céu límpido e azulado, com nuvens de formas irreconhecíveis. O sol clareando ainda mais os meus cabelos louros e os cortes em meu pulso quase irreconhecíveis. Um ótimo modo de morrer. Talvez se me jogasse ao mar minha morte seria lenta, lenta como a dor que corroeu meu coração durante todos esses anos.
A praia estava deserta, eu havia subido uma das maiores rochas da praia. Se não morresse afogada, poderia bater a cabeça em uma das pedras do mar e talvez desmaiar. Não havia ninguém. Ninguém que pudesse impedir e ninguém que pudesse apoiar. Assim como foi a minha vida inteira. Ninguém por perto. Ninguém longe. Ninguém.
Lembro-me de minha infância, a infância que preferia não lembrar, aqueles coleguinhas do colégio que não puxavam assunto. Aqueles que simplesmente deixavam-me de lado e iam brincar de cobra-cega ou até pique-esconde. Aqueles. De repente sinto que poderia ser diferente, que poderia ser fácil ou que poderia ser difícil de mais a ponto de parecer fácil.
Começa a chover, os pingos finos e em grande quantidade rapidamente molhavam meu corpo. As lágrimas se confundiam com os pingos de chuva. O que seria lágrima e o que seria chuva? Seria um ótimo modo de morrer. Com a tristeza irreconhecível, escondida por finos pingos de chuva. Igual há uma semana, quando escondi a minha grande tristeza com um sorriso bobo e risos sem motivos. Mesmo estando com tantos, me sentia sozinha, deixada de lado e escondida.
Pouco a pouco o céu estava nublado, confuso. Da mesma forma que eu, confuso. Um impulso, apenas um belo impulso e a confusão acabaria. Mas quem disse que tenho coragem? Coragem para ter coragem de ir embora? Seria tão fácil, não? Tão fácil e difícil ao mesmo tempo. Aquela vontade de ir embora, e ao mesmo tempo de ficar. Ficar quieta, esperando alguém. Alguém que pudesse me fazer ter coragem de viver. Alguém que me fizesse sorrir. Alguém que me fizesse ter coragem. Alguém. Aquele alguém, um alguém que esperei a vida inteira. Não o amor, mas sim alguém. Alguém que mostrasse compaixão, alguém que mostrasse coragem. Alguém que fizesse valer a pena tudo. Toda a dor, toda a lágrima, todo o amor escondido por uma barreira invisível de sofrimento. O sofrimento invisível, porém presente.
Um impulso, um pequeno impulso. Caia lentamente ao mar, o vento bagunçava meus cabelos. Sabia que chovia, mas não sentia a chuva. A água. Já havia alcançado o mar. Deixei que ele me levasse, me levasse a algum lugar, um lugar que sempre quis ir. O lugar. Meus olhos estavam abertos, avistava vários peixes, grandes peixes, eles pareciam felizes. Felizes com a vida falsa que viviam, sem se preocupar se um tubarão poderia comê-los. Eu me preocupava com o tubarão. Queria que sobrasse algo de mim, queria que me encontrassem e dissessem: “Poderíamos ter dado um mínimo de amor a ela”. Queria arrependimento, queria choro, queria dor, queria alguém. Alguém que pudesse chorar e velar, mas não haveria ninguém. Ninguém para sentir falta, ninguém para carregar o caixão e ninguém para dizer: “Era uma boa pessoa, uma pessoa feliz, ou pelo menos, aparentemente feliz”.
Aos poucos, o pouco ar que tinha em meus pulmões ia embora. Iam se acabando. Havia uma pessoa, alguém também pulara. Vou fechando os olhos para sentir a morte, a bela morte. Sinto mãos, mãos me tirando da água, mãos me impedindo de ir embora. Mãos que talvez nunca tivesse sentido. Abro os meus olhos, alguém. Aquele alguém que implorei para me salvar. O alguém que esperei a vida inteira demonstrar compaixão. Simplesmente alguém. O alguém.