Projeto Desenhando Sorrisos
Com a cabeça raspada, e os olhos atentos, observa a cidade que seguia o seu rumo caótico do cotidiano. Lá fora, as crianças da mesma idade, com banho tomado e uniforme vestido, iam à escola. Dentro do quarto mais um dia de luta. A batalha diária contra o drama que assombra a vida de várias crianças naquele andar, o câncer.
Em meio a essa cena o projeto ‘Desenhando Sorrisos’ nasceu. A Bioquímica Melina Rodrigues decidiu trazer um pouco de alegria e quebrar a rotina tediosa da internação. Foi assim, que tudo começou.
Durante todas as tardes de quarta-feira, à ala de Quimioterapia Infantil do Hospital São Vicente de Paulo (HSVP) em Passo Fundo, é tomada por uma trupe da alegria. Em Agosto de 2014, o grupo começou a dar os seus primeiros passos. Com pouco mais de quatro meses, já contavam com aproximadamente 20 voluntários de diferentes idades e profissões.
Melina garante que quem conhece o projeto deseja participar. A demanda é tão grande que eles se revezam durante as semanas. A intenção é expandir essa ação para outros hospitais e atender o maior número de crianças possíveis. Além das atividades de jogos, brincadeiras e palhaçadas, o grupo realiza a coleta de brinquedos.
Aos poucos as crianças vão aparecendo na sala de espera, a surpresa em encontrar o grupo é nítida. Ver todas aquelas pessoas pintadas e fantasiadas é realmente inesperado.
As visitas nos quartos é uma parte importante, antes era preciso ir até à sala, para que as crianças pudessem acompanhar as atividades. Ter a liberdade de ir até os quartos é um grande passo na caminhada do grupo. Assim, eles têm maior participação na vida dos pequenos e acompanham de forma mais íntima essa difícil fase em que se encontram.
Os olhos curiosos e encantados começam a surgir pelos corredores. Os familiares sempre atentos à movimentação do Hospital abrem sorrisos carinhosos e sinceros, quando percebem que o grupo vem chegando. Fantasiados com roupas de personagens que remetem à infância, o Chaves e a Chiquinha, passam pelos corredores cantando, distribuindo pirulitos e fazendo graça. De quarto em quarto, algumas vezes em silêncio, perguntam pelos pacientes.
Os funcionários, sempre gentis e atenciosos, indicam os corredores para a visita. Enquanto esperamos os dois voluntários colocarem as roupas para entrarem na sala de recuperação, uma avó se aproxima. Com os braços abertos ela vem em nossa direção, e não disfarça a alegria.
Com a voz trêmula e segurando as mãos de Melina, ela agradece e fala que adora o grupo. A neta no início da tarde, perguntou se o Chaves iria visitar ela, sem muita certeza a avó disse que sim. Vendo que Melina estava ali, ela garante que sentiu muita alegria.
Parecia que aos poucos e com pequenos detalhes, a felicidade ia voltando naquela família. Emocionada, Melina organiza os seus sentimentos e fala: ‘Isso traz muita vontade de continuar, o retorno que nós recebemos da família, o sorriso no rosto da criança é a maior prova de que vale a pena dedicar o nosso tempo para isso’. Na última visita, fomos até o quarto de dois meninos.
A alegria da chegada, os abraços afetuosos, de quando se recebe alguém querido, estão sempre presentes. A cabeça raspada e no braço a sonda intravenosa, os acompanham. Além das janelas e o ventilador de teto a porta está aberta durante essa tarde. Como se fosse um sinal para que entrassem, sem pedir permissão. São crianças que passam uma parte da infância no antigo quarto no Posto 2.
Despeço-me de cada um, a alegria é perceptível. Depois da visita, os dois estão com as mãos cheias de pirulitos. Chaves e Chiquinha se despedem ao som de ‘isso, isso, isso, isso’. Chegando à sala de espera, na nova parte do Hospital, encontro a outra parte do grupo cantando e tocando violão. Paro na porta e fico olhando para aquele momento. Existe ali um espaço totalmente voluntário.
O sorriso de quem está na sala é causado pela dança que o palhaço faz, todos esperando pacientemente à espera do próximo nome, para mais uma dose de medicação. A vontade é de participar, sentar em uma das pequenas cadeiras da sala, pegar o violão, distribuir gargalhadas e ali ficar. Assim como Melina disse, quem conhece o grupo quer fazer parte. Acho que é isso que eu sinto.
Enquanto houver crianças precisando de uns minutos de atenção e pessoas dispostas a mudar o dia a dia dessas pequenas e especiais criaturas, como hoje, o projeto ‘Desenhando Sorrisos’ estará lá. E na próxima quarta-feira e na outra, e na outra, e outra, outra, outra e outra. E esperamos que continue durante muito tempo.
Texto e Fotos: Maitê Weschenfelder














