Uma vez eu estava tomando café e comendo um pedaço de bolo na casa da Dona Mirna, como vinha fazendo há alguns meses em todos os finais de semana e ela começou a contar a história de quando conheceu o Seu Juca - seu primeiro, único e eterno amor. Dona Mirna disse que eles se conheceram na escola mesmo (ah, que inveja), que ficava numa cidadezinha do interior de São Paulo, chamada Bonfim. A cidade não tinha mais do que 8 mil habitantes e todo mundo se conhecia e frequentava os mesmos lugares, incluindo a mesma escola. Simples assim, Mirna e João Carlos (carinhosamente apelidado de Juca) se conheceram. Ele tinha 17 anos e ela 15 quando começaram a namorar. Quando terminam a escola, Seu Juca sabia que em Bonfim não teria como oferecer tudo o que planejava para Mirna… Então ambos se despediram de suas famílias, compraram uma passagem só de ida para a capital e vieram tentar a sorte por aqui. Dona Mirna disse que foi assim que alugaram a casa ao lado da minha e que era uma das primeiras a serem construídas na rua. A casa era simples, com todas as paredes pintadas de branco e janelas imensas e com um quintal enorme, mas vazio. Os anos foram passando e a vida dos dois foi melhorando… Juntaram o dinheiro que ganhavam trabalhando - ela como professora e ele como porteiro - e compraram a casa ao invés de continuar no aluguel, compraram um carro simples e deram a luz à primeira filha, Joana. Depois veio o João. Juliana. E o Jorge. Uau. As paredes brancas foram substituídas por cores mais vivas - amarelo, azul, vermelho e rosa - e reformaram os cômodos ali dentro… Mas a memória mais especial que Dona Mirna gosta de lembrar é quando uma parte do quintal virou um jardim. Ela dizia que colocava a Joana no carrinho, com um boné rosa e passava as tardes depois do trabalho cuidando de suas flores e novas mudas até Seu Juca chegar em casa. Fez isso com todos os filhos. Eu cresci na casa do lado, como falei anteriormente, e tenho memória com os dois desde a minha infância. Lembro dos natais que eles enfeitavam a casa com tantas decorações que todos da rua faziam questão de parar em frente à ela quando anoitecia para admirar (acredito que a decoração era mais para nós, do que para eles). Lembro que nessa mesma época, Seu Juca se vestia de Papai Noel e distribuía brinquedos e doces para as crianças. No mês da Páscoa, Dona Mirna dava chocolate para a gente, também… Eu era uma criança tímida e ela sabia disso. Enquanto várias outras crianças iam pedir chocolates na casa dela, ela guardava um saco com muitos deles só pra mim e me entregava pessoalmente. Só para mim. Voltando da escola, sempre espiava o jardim da Dona Mirna, a explosão de cores e formatos que tinham as plantas sempre me impressionava… De olhada em olhada, fui vendo a vida acontecendo. Os filhos cresceram, Joana casou e presenteou os pais com Lucas, o primeiro neto. João com a Mariana. Juliana com Beatriz. E Jorge com o Pedro. Uau. E mesmo com a casa sempre tão cheia, Dona Mirna e Seu Juca nunca deixava de cuidar do pessoal daqui da rua. Era Seu Juca que dava uma ‘arrumada’ no carro de todo mundo e Dona Mirna que cuidava dos joelhos ralados que apareciam - mais vezes do que é considerado normal - na porta da casa dela. Eles eram a referência no amor, na paciência e no carinho. Nunca dormiam brigados um com o outro. Superaram muitos obstáculos e, assim como as flores no jardim de sua casa, floresceram da forma mais bonita no concreto. Quando a família dois dois começou a seguir seus próprios passos e a casa foi ficando mais vazia, percebi que a minha vida também estava correndo. Já tinha me formado em Biologia e trabalhava em um laboratório na outra ponta da cidade. Vi meu pai ir embora de casa e nunca mais voltar. Terminei um casamento de 3 anos. Terminaram alguns relacionamentos comigo. Voltei a morar com a minha mãe para ela não se sentir sozinha. Uau. E assim como a vida corre, ela para. Em uma manhã, fui acordado pelo barulho das sirenes de uma ambulância chegando na rua de casa. O motorista estacionou na casa da Dona Mirna e do Seu Juca. Vi Seu Juca sendo levado às pressas na maca para dentro da ambulância. No final da tarde daquele mesmo dia, veio uma das notícias mais tristes que já me contaram. Abracei Joana bem forte e dei um beijo na testa do Lucas. Seu Juca havia falecido. A vida parou. Na verdade… A rua parou. Se imaginar o tempo como uma ampulheta, tenho certeza que naquele momento a areia parou de cair por alguns instantes. O mesmo Juca que arrancava risos e ajudava todo mundo não ia voltar para elogiar o jardim da Dona Mirna e nem para apagar as luzes da casa mais colorida da região. Nesse dia a casa estava lotada, mas pelo pior motivo possível. Não deixei de ir ao velório e me propus a ajudar como pudesse, buscando e levando quem precisasse, levei comida para quem não havia almoçado, abracei quem eu via segurando as lágrimas. Os dias voltaram a passar e, na medida do possível, a gente se apoiava como dava. Dona Mirna ia se despedindo da família que precisava ir embora e a casa ia ficando mais vazia. Até que ficou só ela. E ela dizia que estava tudo bem. Percebi, depois de um tempo, voltando do trabalho, que a casa dos dois já não era a mesma. Continuava bonita, mas parecia triste. O jardim.. Ah, o jardim. Tão cheio de vida… Começou a perder as cores, as flores foram morrendo, ervas daninhas tomaram uma boa parte do espaço… Perceber isso foi o que quebrou meu coração em mais de mil pedaços. E foi assim que decidi me inscrever em um curso rápido de técnicas de jardinagem. Assim que consegui o certificado, o pendurei na geladeira de casa e toquei a campainha para a Dona Mirna me atender. Ela veio com um olhar meio perdido, sem entender o que estava acontecendo, mas assim que me reconheceu, abriu o sorriso que só ela tinha. Secou as mãos no avental que estava usando, destrancou a porta e me convidou para entrar. Me levou para a mesa da cozinha e me serviu café, bolo, pão, chá, mais outro pedaço de bolo e só depois de um tempo, quando ela me deixou falar, consegui explicar o que estava querendo fazer por lá. Confessei à ela o que vinha estudando nos últimos meses e que sensação maravilhosa ver o brilho de empolgação em seus olhos. Pedi para que ela me levasse ao jardim e de lá me ofereci para cuidar dele. Sem hesitar, ela insistiu que eu usasse suas ferramentas (mesmo eu falando que comprei as minhas) e começou a me explicar como cada plantinha recebia um cuidado diferente. Absorvi cada informação como quando era criança e decorava as falas dos meus desenhos animados favoritos. Mexi na terra, passei a mão nas folhas e nas flores, reguei algumas delas e até mesmo arranquei algumas ervas daninhas. Quando precisei ir embora, Dona Mirna não fez questão de marcar um horário comigo, apenas disse que quando quisesse e tivesse tempo, tocasse a campainha da casa e entrasse para cuidar do jardim. Ela se despediu de mim me abraçando tão forte, com um silêncio tão acolhedor. O tipo de calor que poucas pessoas conseguem emanar. Beijei sua bochecha e me despedi. E assim seguiram os dias... Em meus dias de folga, passava algumas horas cuidando daquele espaço. Sentia que as vezes a Dona Mirna queria tomar meu lugar e fazer tudo e só me deixar olhando. Era uma sensação engraçada. Mas fui aprendendo a lidar com o jeito dela. Depois de algumas semanas, muitos dos cuidados nós fazíamos juntos. Ela me ensinou algumas técnicas antigas e eu umas novas. Era uma troca. Não só de conhecimento, mas de tudo. Nessas horas que passávamos juntos, eu fui me abrindo sobre o que estava acontecendo na minha vida e ela foi dividindo algumas dores comigo também... Especialmente sobre não ter mais o Seu Juca para partilhar a vida. Quando a gente começava a conversar sobre ele, não demorava muito até os olhos dela se encherem de água. E era nesse momento, que a Dona Mirna falava que era hora da pausa para o café. Depois de lavar minhas mãos e sentar na mesa ao lado dela, minha xícara já estava cheia e na minha frente um pedaço de bolo de milho quentinho. Segurei a mão dela com o maior carinho que podia e sorri. Ela sorriu de volta, respirou fundo e compartilhou um discurso que guardo com muito carinho dentro do meu coração até hoje... 'Ah, meu querido... Como é difícil lidar com uma situação assim, não é? A gente se conheceu numa idade tão jovem e ficamos juntos por mais tempo que o triplo dessa mesma idade. É tanto tempo que se alguém me perguntar 'o que é o amor?' para mim, eu só vou conseguir responder o nome dele. Um amor assim é muito difícil de encontrar e é ainda mais raro de encontrar quando você nem estava procurando por ele. Veio tudo assim... Na sorte, na confiança e no respeito. Quando a gente começou a nossa vida nessa rua, tinha só um pouquinho mais do que sua idade hoje. Tu ainda é jovem. Em uma das nossas poucas brigas ao longo desses anos, antes de dormir, o João Carlos me disse enquanto me pedia desculpas: 'Estou acostumado a ser mais abestado, maluco, infantil e desengonçado. Eu, por alguns dias, esqueço que você é mais tímida, decidida, acolhedora... E maravilhosa. Me desculpa, meu amor. Você é a minha Lua'. E eu nem lembro sobre o que era a briga. Mas a cabeça, quando sabe domar o coração, também sabe a hora de aceitar as desculpas e deixar a situação de lado. Se eu era a Lua do Juca, ele era o meu Sol. E agora, meu filho, sem meu Sol, a gente tem que acostumar a viver nessa floresta nublada, cinzenta e triste.' Eu, ainda processando essas palavras, também deixei meu coração chorar um tico. 'Eita, Dona Mirna... Ver todo mundo chorando no dia do enterro dele foi o que me fez perceber que o amor é para os fracos. Já chegou a ouvir que o amor não é para os fracos? Nunca acredite nisso, meu amor. Ele foi feito para pessoas como nós. Fracos, frágeis e desamparados. Um tiro quase mata a gente, um câncer tem 99% de chances de matar a gente, mas o amor... Quando a gente perde um amor, ele traz uma sensação ainda pior que é a de quase morrer. A gente não morre. Mas a gente deseja. Não é mesmo? Mas a gente segue os dias, um depois do outro. Aos poucos nossos pulmões vão voltando a se encher e a gente volta a respirar como antes. Voltar a respirar. Voltar a viver, na verdade. É a maior prova de amor que a gente pode dar pra quem foi embora antes do tempo certo. E o maior presente pro Seu Juca, Dona Mirna, assim como é pra mim, é todo esse amor que você tem por ele. Quem tá cuidando desse jardim é a gente, mas quem faz as flores nascerem com essas cores lindas e vibrantes e quem faz esse sol raiar para que elas fiquem quentinhas, não somos nós. É ele. Sempre será ele.' Ela me respondeu: 'Meu menino... Que palavras bonitas. Vou guardar todas elas com muito carinho, pode ter certeza. Nunca feche esse coração gigante que você tem. Deixa ele voar por aí. Tudo bem?' Dona Mirna me deu um abraço tão forte e tão reconfortante... Senti uma lágrima escapando pelo meu olho e enxuguei rapidamente. Ela virou minha companheira. Minha amiga. Alguns meses depois, infelizmente, a Joana tocou a campainha de casa para conversar comigo e informar que a mãe dela havia falecido. A Mirna foi dormir em uma noite e acordou sem vida no dia seguinte. Uma morte calma, tranquila, pacífica. Repeti as mesmas coisas que fiz no velório do Seu Juca. Mas dessa vez, quem precisava de um abraço era eu. Nos dias seguintes, senti meu coração tão encolhido... Mas fiquei tão feliz de ter conseguido passar aquele tempo com ela. Até que um dia, conversando com a Joana, ela me disse que ia colocar a casa dos pais à venda. Não demorou muito para alguma coisa estalar dentro da minha cabeça e pedi à ela para que a casa fosse vendida para mim. Ela sorriu e me disse que não teria dono melhor para ela do que eu. Peguei minhas economias e comprei a casa. Mas não somente para mim... Me demiti do meu antigo trabalho, reformei a fachada da casa da Dona Mirna e do Seu Juca e a transformei em outro lugar... Uma floricultura. Usei os conhecimentos que fui juntando ao longo do curso e os que ela me passou. Vendia plantas, flores, sementes, de tudo um pouco. Todo mundo que passava ali na frente parava pelo menos para admirar as cores e o lugar. Conversava com quem passava por lá, fazia novas amizades e aumentava o tamanho daquelas famílias. Ouvia histórias diferentes. Razões diferentes pelas quais as pessoas compravam flores. Presente. Desculpa. Luto. A floricultura foi crescendo e ganhando um espacinho na rua de casa. Meu presente para os dois está no letreiro da floricultura: 'Floricultura Mirna & Juca - Aqui o amor floresce colorido'. Segui o conselho da Dona Mirna e deixei meu coração voar. Na verdade, deixei ele florescer.
As rosas estão lindas, mesmo. O senhor vai levar?


















