O louco, o religioso, o hacker e eu
Era final de janeiro e eu estava bastante confuso. Eu queria escrever, aprender idiomas, ir a lugares que não conhecia, tocar com a minha banda e tentar ficar com a Vivian. Eu desenhava, compunha, escrevia poesias... parecia que eu tinha tudo desenhado na cabeça: continuar estudando, passar no vestibular para Letras (Francês) e seguir a veia artística que eu sempre acreditei ter. A confusão começava quando eu dizia isso para a minha família e só recebia retorno negativo. Nenhum incentivo, nenhuma palavra de apoio; tudo que eu dizia a respeito dessas coisas que eu tinha em mente eram simplesmente “lixo” para todos ao meu redor. Fui tão desincentivado que parei de desenhar pouco tempo depois. Na cabeça tacanha de quem dizia querer o meu melhor, música e qualquer outro tipo de arte era coisa de vagabundo. Isso me fez muito mal, demorei muitos anos para perceber que eles estavam errados.
Foi nesse intervalo que me colocaram para fazer um curso, desses profissionalizantes, em uma ONG. Hoje vejo que a única intenção dessa ONG – sustentada por meia dúzia de empresários – era apenas “formar” mão de obra barata e isenta de impostos (anos depois, a prática ganharia o nome bonito de “menor aprendiz”). De qualquer forma, foi o caminho para o meu primeiro emprego (já extinto) com carteira assinada: office-boy. Era época de MTV com sinal ruim no UHF, mas eu fazia o treinamento em um local alto, com boa recepção de qualquer tipo de sinal de rádio. Chegávamos às 8h da manhã e só íamos embora às 17h. Nos primeiros dias, era tudo muito estranho, um ambiente que misturava escola com trabalho, aprendíamos como nos portar dentro de um escritório, os trabalhos que hoje ficam a cargo de um estagiário, noções básicas de finanças e assuntos relacionados. Eu costumava chegar por volta de 7h30 e tinha uma TV na nossa sala. Antes da instrutora chegar, nos era permitido assistir “coisas que não fossem fora do escopo” do nosso treinamento. Nunca entendi muito bem o que isso queria dizer. Como mencionei anteriormente, era o auge da MTV (de verdade e consonante com o nome, não a emissora de reality shows merda que se tornou depois). Nós assistíamos a videoclipes sensacionais, em uma época em que a indústria fonográfica se preocupava com isso.
Um dia, começaram a reprisar os programas do João Gordo, justamente no horário em que eu e meia dúzia chegávamos para esperar a instrutora. Comecei a fazer amizades com o pessoal que se identificava com ideias mais inclinadas ao punk e ao hardcore. Entre os que conheci nessa época, estava o Miguel (revoltado, mas já bastante inclinado à igreja), um cara que dizia absurdos com o único intuito de chocar. Encontrei com ele muitos anos depois disso e era um cara completamente mudado: abraçou a igreja de vez e não fazia mais nenhuma piada infame. Irreconhecível; Paulo, um cara que me impressionava genuinamente. Eu ouvia de muita gente que eu era inteligente e, em dado momento da vida, eu acreditei nisso como qualquer adolescente se agarra a qualquer coisa que o faça se sobressair no meio do bando. Mas o Paulo era diferente. Ele tinha uma capacidade de raciocínio muito rápida, era difícil acompanhar. Ele era realmente brilhante. O computador ainda dava os primeiros passos e ele já dominava completamente algumas linguagens de programação. Ele obtinha informações dos servidores do local onde a gente depois trabalhou juntos com uma rapidez que eu não sei explicar até hoje. Andava com um clipe (desses de papel mesmo) entre os dedos, mastigando chiclete e tinha sempre um disquete (lembre-se que era 1997).
Mas tinha um cara com quem eu me identificava demais: o Louco. Os pagodeiros do curso deram esse apelido para ele, ele gostou tanto que adotou e parou de se apresentar pelo nome. O pai dele ia levar ele de carro e parecia ser mais louco que ele. Um tiozão descolado que ouvia metal. Lembro do dia que ele chegou no curso ouvindo um som pesadíssimo e eu perguntei o que era. “Mercyful Fate, é a banda preferida do meu pai”. Caralho. Eu queria que meu pai gostasse de coisas parecidas com as que eu ouvia, mas fico feliz de ele não ter sido metaleiro. Era uma época de divisão de “tribos” e os punks (minha linha) não se davam bem com metaleiros e clubers, que não se davam com emos (ainda no início) que não se bicavam com skatistas (que ouviam hip hop e rap) e assim por diante. O louco era muito gente boa. Aquele tipo que se dá bem com todo mundo e ninguém tem coragem de fazer mal. Ele andava com umas correntes penduradas nos passadores do cinto e vestia suspensório, que ele dizia ser do avô.
Eu era só eu. Eu tinha uma banda que tocava covers de punks californianos da época (Ramones, Green Day, Offspring, Bad Religion, etc.). A gente se divertia ensaiando na casa do baterista e fazíamos um relativo sucesso com as meninas que curtiam rock porque, afinal, nós tínhamos uma banda. Eu tocava guitarra e cantava, sempre tive facilidade com outras línguas e inglês é uma das mais fáceis, convenhamos. Mas a menina que eu gostava não queria saber de moleques que andavam maltrapilhos e tocavam músicas de nóia. Eu já tinha aceitado que a Vivian jamais olharia pra mim (e assim aconteceu). Eu toquei em alguns bares, na escola e até cheguei a passar som para um camarada que tocou no Hangar 110 (uma casa de shows tradicional do underground paulista que foi responsável por suportar e fazer crescer muitas bandas nos anos 90~2000 – NX Zero, Dead Fish, Cachorro Grande, Glória, e por aí vai). Acho que esse foi o auge da minha “carreira” musical, uma passagem de som no mesmo palco que algumas das minhas bandas favoritas tocava.
Mas, a vida cobra rápido um posicionamento. No meu caso, era em relação a minha condição social: se a música não iria me levar a lugar nenhum, era bom começar a buscar um emprego. Eu comecei a trabalhar bem cedo, com 12, 13 anos, eu já tinha um emprego de meio período em um mercadinho de bairro. Aos 15, o meu primeiro emprego com carteira assinada. Meus sonhos foram atropelados um a um. Tentei entrar na faculdade de música aos 16. Fui reprovado porque “já tinha algum conhecimento musical”, nas palavras do avaliador que disse que o curso era para pessoas totalmente leigas e iniciantes. Tentei o vestibular para Letras da Fuvest (USP), sem cursinho preparatório nem nada do tipo. Fiquei em quarto na lista de espera. Ninguém desistiu do curso e eu fico pensando se eu teria conseguido conciliar estudo e trabalho, visto que há disciplinas distribuídas por todo o dia. No ano anterior, fiz vestibulinho para o curso técnico de “processamento de dados”, o que hoje pode ser considerado Ciências da Computação ou algo assim. Nesse, que eu não queria, passei. Não fiz. Era a saída do ensino médio para o colegial. Eu ficava com uma menina e achei que era uma boa ideia irmos para a mesma escola para passarmos mais tempo juntos. Não durou três meses (caramba, Andrea). Hoje, ironicamente, sou profissional de TI com quase 20 anos de carreira.
Lembrei de toda essa história porque fui buscar uma pessoa no terminal rodoviário do Tietê, aqui em São Paulo, e fiquei esperando na rua de trás, em frente ao colégio para o qual eu passei no vestibulinho, que fica em frente ao local que um dia foi um bar rock n roll que eu toquei com a minha banda. Fiquei ali imaginando se a vida tivesse tomado rumos diferentes. Fiquei lembrando dos amigos dessa época e me deu uma saudade do caralho deles. Por onde andará o Louco? Será que ainda é aquele cara que eu conheci. Eu nem me lembro do nome dele. E o Paulo, será que trabalha na mesma área que eu? Será que já passei por ele algum dia e nem me dei conta? E o Miguel, virou pastor? Ele tinha mudado tanto na última vez que o vi. Será que eles conseguiram seguir os planos que tinham feito quando mais jovens? Caralho, que saudade que eu tenho dessa turma. Lá se foram quase 30 anos e eu me peguei hoje em frente ao antigo Splash. Queria que estivesse aberto para eu atravessar a rua e beber uma cerveja, tocar umas músicas no palco minúsculo sem ganhar um real. Encontrar o Moe (Eduardo, que também entrou para a igreja), o Nove dedos (Flávio, que foi nosso baterista uma época, perdeu o dedo em um torno), o Cláudio e suas correntes do Ozzy, o Claudinho e seus vinis usados à venda, o Márcio e sua paixão pelo Corinthians, a Fabi e suas camisas do Offspring, a Andrea e sua idolatria pelo jovem Eddie Vedder,o Mário e seus solos de metal. Caralho, eu não queria chorar hoje. Que saudade de todos vocês.








