[FB] Breathe deep, breathe clear. - AxB
Aos seis anos, praticava mais categorias de luta do que poderia pronunciar. Aos sete, realizava exercícios de lógica que seriam avançados demais para um membro da sociedade comum. Aos oito, aprendia a projetar e programar como se novas tecnologias fossem um simples brinquedo (ainda que, nesta etapa, seu irmão finalmente se encontrasse, mostrando-se muito melhor). Aos nove, foi-lhe ensinado a arte da mentira e a necessidade da mesma no “mundo real”, título pelo qual conhecia tudo que era exterior ao já conhecido, ou ainda, aquilo para o qual estavam se preparando (e nesta, a irmã sobressaiu-se, como se já pudesse lecionar). Aos dez, começou a atirar, e o fez com maestria. E durante todo o processo, valores e disciplinas lhe eram ensinados como regras; um manual de instruções que guiava à perfeição.
Nos primeiros anos de sua infância, Arthan mostrou-se uma criança quieta e introvertida. Enquanto B e C extravasavam tristeza ou raiva por não terem um verdadeiro lar ou família, A preferia não aprender o sentido de tais palavras. Ao invés disso, reprimiu-se.
Inconscientemente, optou por não se dar ao previlégio de sentimentos negativos e, pouco a pouco, sua própria mente apagou as memórias de momentos em que sentia-se assim, substituindo-as por uma grande inteligência, capaz de absorver tudo que lhe era ensinado com a mesma avidez com a qual uma criança curiosa torna-se criativa. No pequeno Arthan, que desenvolvia-se rapidamente, não havia a intensidade de descobrir e fazer por si só, mas a facilidade de um robô que pode ser programado. Eis um fato sobre transtornos antissociais: nem sempre nascem; podem ser criados. E para evitar sofrimentos, sua mente permitiu-se criar-se assim. E justamente por seu potencial em ser moldado é que tornou-se peça chave para o Experimento. Pois seria de sua responsabilidade trazer de volta os outros, caso desistissem da futura missão. Pois fora treinado, além de todo o resto citado até então para, também, liderar.
Ainda que incapaz de sentir com a naturalidade de um indivíduo qualquer, Arthan teve de entender a tal da empatia. Enquanto crescia, tornou-se capaz de decorar todos os hormônios que causam determinada emoção e qual o efeito que esta mesma traz para o corpo alheio; como extra, quis compreender também, como lidar com as pessoas sob o efeito de uma. Gradualmente, entendeu também que, se quisesse honrar a própria nação, deveria aprender a senti-los; ou, ao menos, simula-los.
Durante todo o processo de preparação, Arthan foi acompanhado por uma psicológica que, por meio de soros e fios, era preparada para conhecer cada espaço de sua mente. Assim, para ela, não sentia a necessidade de fingir. E, com ela, obteve o ensinamento que mais o guiou nos anos seguintes de sua vida: começando pela própria equipe, deveria construir a ideia de cuidado e proteção. Se queria ser um bom líder e, enfim, alcançar o único objetivo que fora motivado a ter, deveria pensar não só em si (reforça-se: apenas pensar).
[…]
O rapaz, agora aos onze, passava por uma aula sobre a técnica necessária para um específico tipo de revólver, tendo um desses em cada uma das pequenas mãos. C fora liberado no dia, pois um projeto qualquer de programação lhe soava melhor. B, porém, parada ao seu lado, parecia tremer ao errar mais um tiro seguido (já no certeiro, Art parara de contar). Ainda que jamais houvessem sido mal tratados durante os treinamentos na base quase militar onde viviam desde onde podiam se lembrar, isto não significava que o cuidado para com os três não fosse duro e, no mínimo, frio.
Agora, um homem cuja altura passava a das duas crianças, se somadas juntas, gritava acima dos dois se tudo o que havia lhes passado até então não valera de nada. Ainda que o comentário não se dirigisse a si, Art percebia um certo desconforto na própria mente, ao ver apenas pelo canto do olho que uma mecha vermelha cobria um dos olhos de B (em parte, porque isso desmontava o padrão dos fios ligeiramente presos que estavam em sua cabeça antes que o treino começasse. A preferia padrões.); principalmente, afetava-lhe ainda mais saber que era proposital. Ela sempre deixava que isso acontecesse ao disfarçar as lágrimas que insistiam em surgir.
Para ter a certeza que o holograma que servia de alvo a sua frente realmente estava morto, o loiro disparou mais uma vez. As informações sobre onde haveria acertado se fosse um ser humano real surgiram flutuando ao lado da figura e após lê-las, permitiu-se apenas apreciar a linha tênue de acertos que formara desde o crânio até um ponto logo abaixo do coração, em perfeita formação.
A admiração durou pouco, quando outro grito da voz grave de seu professor ecoou pelo espaço todo. Perguntava à menina o porquê de não conseguir simplesmente acertar. E Arthan respirou fundo, simplesmente esperando a reação que, como já calculara, viria a seguir.
@blairld
Ainda muito jovem B começou a entender como as coisas funcionavam no campo de treinamento onde passaria a maior parte de sua vida. Porém, entender é diferente de aceitar e simplesmente não conseguia considerar sua vida comum. A verdade é que sempre teria dúvidas e inquietações, pois nunca deixaria de questionar e eles nunca lhe forneceriam as respostas desejadas. Na teoria aquilo era tudo muito fácil, chegou ali sem informação alguma, de forma que não sabia de nada e tudo o que poderia aprender era o que outra pessoa dissesse que era necessário e nesse caso deveria ser capaz de dominar a técnica ensinada de forma rápida e permanente. As regras eram feitas para ser seguidas e suas ideias eram irrelevantes, pensar era só mais uma forma de perder tempo. Seguir esse padrão costumava exigir muito esforço quando ainda era nova e incapaz de trancar os seus pensamentos. A verdade é que pouco do que aprendia era natural a seus olhos, a maior parte exigia grande dedicação. Aprendeu cedo a lutar e era dotada de agilidade singular, só que passou noites em claro pensando em como cada movimento deveria ser executado e onde estava cada um de seus erros. Todos os códigos e instruções tecnológicos eram complexos, tantas letras e palavras dispersas se embaralhavam em sua cabeça e levava algum tempo até que tudo aquilo começasse a fazer sentido, isso resultava em mais tempo de estudo. A única coisa que veio naturalmente, como se tivesse algum talento para aquilo desde o berço, foi a arte da mentira. Não parecia ter dúvida alguma quanto aquilo, vivia dentro de um teatro desde que sua família foi assassinada, o que custava atuar um pouco? Gostava mais quando faziam aquilo no qual era boa.
No começo era difícil. A menina era agitada desde cedo passando por dias em que não conseguia parar de falar e depois por momentos em que estava tão frustrada que não queria sair da cama. Era complicado crescer sem uma identidade, tudo o que tinha era uma letra e algumas tarefas nas quais não tinha o direito de falhar. Podia ser a mais nova entre os três, só que era esperado dela a mesma evolução, tendo que amadurecer muito antes do tempo.
Começou a demonstrar seu problema aos cinco anos, quando os pesadelos sobre seus pais começaram. Era a história a qual tinha acesso e conforme compreendia seu significado começava a ficar aterrorizada não conseguindo esquecer daquilo nem por um segundo. Afinal, se lutava era para vingá-los. Por outro lado, suas crises de choro, sua dificuldade em controlar o próprio humor eram mal vistas e deveriam ser eliminadas. Passava muito tempo submetida ao acompanhamento psicológico no qual recebia ordens para controlar seu temperamento e instruções para como o fazer. Respirava fundo e deixava-se moldar no fim aquilo viria naturalmente, fingir era o seu maior talento. Quando não conseguia evitar, escondia. Tornaria-se mais fácil com o tempo, por enquanto deixava que eles dessem as ordens, teve que aprender cedo que ali dentro precisava ser maleável.
Aos sete anos foi introduzida em aulas para aprender a técnica que necessitaria para um novo tipo de revólver. Aquilo não era natural para ela. Não tinha recebido as informações com antecedência de modo que não tinha conseguido antecipar aquele momento. O alvo era muito alto, o revólver era pesado, suas mãos eram muito pequenas para arma com a qual lidava. Enquanto isso, o homem encarregado de passar as instruções gritava. Insatisfeito com o seu desempenho não fazia questão de esconder sua decepção, usava de palavras duras que ecoavam na cabeça dela e as quais não conseguiria esquecer tão cedo. Não queria ser incompetente, não queria desapontar seus treinadores, o medo de ser incapaz de realizar aquele teste a paralisava e se a bronca deveria funcionar como um incentivo, não funcionava. Sabia que A estava ouvindo aquilo, ele tinha uma facilidade natural para tantas coisas que fazia com que se sentisse incompetente por estar ali incapaz de acertar o alvo. Conseguia alguns tiros que passavam de raspão em locais como braços e pernas, mas sabia que não seria o suficiente para matar nem mesmo um rebelde. Enquanto isso o homem continuava a berrar, quanto mais ouvia mais difícil ficava se concentrar, completamente desanimada em relação a sua própria capacidade.
O homem parava de falar. Então ela limpava mais uma lágrima que escorria e voltava a mecha de cabelo para trás da orelha para não obstruir sua visão, torcia para que seus olhos vermelhos não fossem notados por serem um sinal de fraqueza. Ajeitava a postura com os ombros para trás e a cabeça erguida. Mesmo que suas mãos tremessem e conseguisse sentir o coração acelerado tentava fingir que estava tudo bem enquanto as lágrimas faziam seus olhos arderem, todo o local a frente parecia embaçado. Sua respiração era acelerada e não seguia um ritmo, como se tivesse corrido até o local. Após ter se ajeitado da melhor maneira que podia respirava fundo e jurava que dessa vez ia dar tudo certo antes de destravar a arma. Mais um tiro, mais um erro. Poderia fazer aquele holograma mancar, mas não poderia matá-lo. Tentou outra vez, a bala apenas relou no abdômen mostrando outra tentativa inútil. Baixou a cabeça deixando que o cabelo mais uma vez cobrisse seus olhos enquanto voltava a ouvir aquele incessante sermão sobre a sua falta de habilidade e perguntas como se estava pensando que aquilo era brincadeira, se não era capaz de acertar pelo menos uma vez.
B já não ouvia mais o que o homem estava falando. Sentia-se inútil, a pior em todo aquele projeto. Se pelo menos tivesse tido um dia para se preparar poderia ter chegado até ali sem envergonhar a si mesma. Com tudo aquilo acontecendo não pode perceber exatamente quando foi que perdeu a calma. Porém, fez algo de que se arrependeria no instante seguinte. Antes mesmo que o homem parasse de falar e mandasse tentar novamente deu mais um tiro. Após esse deu outro e vários outros, um seguido do outro de forma que o único som naquele local fosse o disparo de sua arma. Não parou até que estivesse completamente descarregada e então olhou para o homem entregando o revólver. “Pronto. Algum desses eu devo ter acertado.” Sabia que era um ato de insubordinação e se realmente tivesse pego algum era por sorte e não por técnica. O treinador ficou ainda mais nervoso e após terminar de fazer mais um sermão deu para os dois um tempo livre enquanto ia recarregar a arma. Não chegou nem perto de A, o que era incomum já que vivia tentando chamar sua atenção, foi até um canto na intenção de não ser vista. Soltou o cabelo para que ninguém pudesse ver seu rosto, só que estava tão nervosa e frustrada que qualquer um poderia ver que estava chorando. Não parava de tremer e soluçar, pensava em todo o trabalho de sua psicóloga que tinha sido jogado no lixo porque era incapaz de recuperar o controle dentro de sua própria mente.
Quando se é incapaz de ter emoções intensas, sobra em mente um bom espaço para a observação. E em todos os anos de sua vida, atenção, o alvo favorito de Art eram as pessoas com quem fora obrigado a conviver. Dia após dia, analisava seus atos, palavras e reações. Buscava padrões que poderiam ser repetidos e, com certa diversão em fazê-lo, tentava encontrar possíveis motivos para que cada um tenha se tornado o que é. Brincava de tentar entender a mente humana como um garoto brinca com drones. E ao fim de tudo, sempre concluía: ninguém era puramente imparcial ou singular. Por trás de cada ação, havia um motivo. Tratando-se de B e C, A possuía uma vontade ainda maior de compreender. Para seu tamanho, já se mostrava absurdamente maduro, capaz de saber que nada mais eram que pequenos moldes de uma argila necessária. Como já havia escutado dos profissionais que lhes ensinavam: com quaisquer outras crianças que fossem criadas em seus lugares, o resultado seria o mesmo. Por isso, deveriam se sentir honrados em terem sido os escolhidos para tal dever. Ainda que com a glória, Arthan possuía um ponto de vista ainda maior: com quaisquer outros indivíduos em seus lugares, também, haveriam problemas surgindo em suas respectivas mentes. Em B, o mais previsível veio: a ansiedade. Ao tentar melhorar, entre falhas e acertos, a garota jamais conseguia aquietar a própria mente. Pressão lhe destruía e se mostrar incapaz era sua ruína.
Agora, buscava fixar pensamentos que pudessem lhe ajudar a lidar com a situação. Antes que pudesse ter qualquer conclusão lógica, o comportamento instável de B afastou sua capacidade de raciocínio (afinal, algo como um surto não se soa tão fácil de se prever em números). Virou o corpo de modo que pudesse assisti-la com atenção, no justo momento em que a mesma começou a atirar. Disparos seguidos e que sem qualquer preparo, beiravam a insanidade, acertaram algo próximo ao coração do pobre holograma. Nos tiros não havia mira; ao invés disso, a mais pura intensidade. Se de ódio ou tristeza, não tentou adivinhar. Até mesmo os olhos da menina, quase tão vermelhos quanto seu cabelo (e que contrastavam com sua pele clara, agora mais pálida que o normal) mostraram-se indecifráveis. Haviam lágrimas, mas o sentimento poderia ser qualquer um. Ainda que, internamente, pensasse que ela deveria já ter aprendido a lidar com os próprios pensamentos com um quê de julgamento, Art permitiu-se seguir seu lado mais isolado: os próprios instintos.
Assim que a menina correu após o sermão seguinte do instrutor, A a seguiu. Parou apenas quando a mesma se abaixou em um quanto qualquer e, logo, abaixou-se a sua frente, ajoelhando-se no chão e, com uma das mãos, segurando seu rosto com delicadeza, de modo que ela lhe olhasse. Todavia, não soltou palavra alguma. Apenas respirou com clareza, de modo que seu ato fosse suficientemente auto-explicativo. Ela deveria imitá-lo. Respirou pela boca até o máximo que pode aguentar e, então, segurou o ar dentro do próprio pulmão por um tempo ainda maior. Moveu os lábios, contando. 1, 2, 3, 4, 5. Enfim, expirou, de maneira igualmente lenta. Como se cada molécula fosse válida e necessária. E com uma tranquilidade que sequer era real, expressou a própria voz dizendo “Quero que imagine quantos átomos estão ao nosso redor nesse momento. Quanto oxigênio temos disponível aqui. E o quanto você precisa dele. Foque em minha voz, e foque em você. Inspira. 1, 2, 3, 4, 5. Segure o ar. 5, 4, 3, 2, 1. Solte. Devagar.”. Ao contar, levantava os dedos da outra mão e abaixava-os, no mesmo ritmo.














