“Meu corpo é um apartamento que eu mal posso pagar. Em volta, há um mundo inteiro de possibilidades acessível com alguns passos meus, mas por algum motivo, eu não consigo sair pela porta da frente. Eu estou olhando o assoalho de madeira e o lustre deslumbrante, mas só enxergo as goteiras no telhado e o fato de que estou ficando sem baldes me causa agitação. Eu tento lembrar que tantas pessoas querem o que eu tenho, que quando eu desligo as luzes, eu me torno parte da imagem dos prédios da cidade que as pessoas olham e invejam. Que viver aqui é um privilégio. Não importa o quanto pareça que essas paredes querem desmoronar, eu brindo a elas com meus entes queridos. Mas o peso dessa existência aumenta a cada dia, a cada pessoa perdida, a cada coração quebrado, a cada derrota, a cada lágrima. Eu ganho cada vez menos e menos, meu aluguel começa a ficar atrasado, os danos se acumulam e o prédio parece ceder. Até que uma carta do correio chega e diz que o aluguel foi pago. Os danos podem ser escondidos. Eu tenho uma colega de quarto agora. Alguém que começou com uma estranha silhueta e se ajeitou no canto escuro do quarto, ocupando um lado da minha mente. Eu estou vivendo com a depressão, não há dúvidas, já vivi com ela antes, mas, ainda assim, não consigo enxergar. Ela ergueu novas paredes e todos os outros permaneceram pra fora, porque ela disse que é a única a aguentar esses quartos apertados e mofados, nos quais ela parece estar se espalhando mais e mais a cada semana, até que não haja espaço para nada que me lembre de mim mesma. Eu não acho mais espaço para comer, e não me sinto afim de coletar novas memórias. Ela diz para mim o quão ridícula é minha antiga rotina, mas não me da espaço para procurar outras coisas, pessoas ou formas. Eu tenho uma colega de quarto, e ela deixa meus amigos desconfortáveis, porque quando ela está lá, eu não falo sobre nada, eu mantenho minha cabeça baixa e faço apenas o necessário. O necessário para eles fugirem. Não queria deixá-los bravos, magoados, não queria ouvir o que eles têm a dizer sobre mim. Minha colega de quarto e eu passamos muito tempo juntas, ela é a única com disposição para atender ao telefone, mas eu acredito que ela recusa as chamadas, porque minha colega é possessiva. Eu já não quero saber se as pessoas continuarão a me ligar. Ela não vai embora, então eu tento sair, tento encontrar outros apartamentos, com diferentes camas, bebidas e drogas. Qualquer coisa para me fazer esquecer que eu inevitavelmente voltarei aos tropeços para casa e ela cuidará de mim. Vai estar na sala de estar, na cozinha, no banheiro, na minha cama. E eu sei que enquanto estiver acordada, ouvirei suas risadas e os sussurros do passado, por isso, tentarei dormir o tempo inteiro.
Ela quer que eu vá embora, eu sei! Quer que eu desocupe essas paredes sem mala alguma, sem despedidas, sem enxergar a luz do sol na minha face novamente. Quer que minha família e meus amigos esqueçam o meu nome e lembrem somente do dela, eu sei! Posso dizer pelo papel de parede que eu gostava e agora ela desgasta, pela madeira arranhada e pelo lustre empoeirado. Ela quer que eu vá embora, e agora, eu já nem sei se é ela ou sempre foi eu. Mas consigo enxergar que estou doente e aceito a minha condição. Por mais malvada que eu possa ser comigo, me perdôo por saber que não estou bem. Só penso como seria bom se entendessem que minha cabeça é uma grande montanha-russa. ‘Há dias em que a depressão é uma mosca na pata de um urso, mas há outros em que ela é o próprio urso’. Estou ciente de que são só fantasmas do passado, mas as imagens que passam pela minha cabeça e as vozes que sussurram na minha mente, eu não desejo nem pro meu pior inimigo. Mas como todos, eu vou passar por isso. É só mais uma crise, um momento de extremo e incontrolável desespero e angústia, que todos costumam relativizar. Mas olho no espelho e, contrariando todas as opiniões alheias, me sinto forte, é, sou sim. Digo pra minha imagem: como todos os dias, iremos aguentar. Só nós sabemos como é viver assim.”