002british:
Ele a conhecia como a palma da sua mão. Conhecia cada um dos motivos que a faziam rir, se envergonhar, se irritar e também sabia dizer quando ela estava prestes a chorar. Um Warren de um ano atrás largaria tudo o que estava fazendo para pedir desculpas e se assumir culpado, porque ele era mesmo, mas o de agora estava com o julgamento tão nublado que era como se ele fosse uma outra pessoa. O ano ruim havia, finalmente, o convencido de que ele tinha uma vida ruim. Estava na segunda metade dos vinte anos e não tinha um emprego decente, aceitando migalhas desde a faculdade. Estava, há tempos, entregue à ideia de que nem Minyoung era para ele. A verdade é que aquele ano agira como um ponto de virada da sua vida; nada dava certo para si, e qualquer coisa que tinha chance de ficar ruim, ficava. As palavras que a Jeon proferia, no auge da mágoa, soavam como verdadeiras facadas, e o pior de tudo é que era tudo verdade. Ele já não achava que a relação deles era algo que valia a pena. Talvez, lá no fundo, ele quisesse insistir, mas ele já não tinha força restante para resgatar aquela parte de si mesmo, a parte que era de verdade. Já estava submerso no mar de mentiras e covardia, sem chance de salvação. Estava já no enésimo gole de vinho quando olhou pra água caindo do chuveiro e demorou uns instantes antes de entrar ali, à tempo de escutar a última palavra da mulher. Sempre achei que você fosse esse alguém melhor, ela disse. Porra, em que espécie de buraco ele tinha se enfiado?! Seria mais fácil que ela o estapeasse logo, gritasse na sua cara em plenos pulmões dizendo que o odiava. Não merecia qualquer explicação da parte dela, do tamanho do empenho que investira naquela noite perdida, do quanto ela apostou e continuava apostando nele. Sentiu-se o maior dos covardes, mas poderia ser ainda mais, pois quando saiu do banho, o espelho embaçado pelo vapor, ele vestiu a roupa de dormir sem olhá-la direito. E mesmo que ela ainda estivesse chorando e ele estivesse presente, disse, “Eu não pedi pra você fazer nada disso, você quem quis fazer uma coisa maior do que realmente é. Não pedi para transferir sua folga, não pedi para arrumar a casa como se você tivesse quinze anos e não pediria se soubesse que você daria chilique se eu agisse como o humano que sou e esquecesse.“ Riu de sarcasmo, fechando as portas do armário. Então deu a volta na cama para deitar do lado que ela não estava. "Você está sendo ridícula, Minyoung,” a voz deu uma vacilada, mas esperava que o choro dela abafasse sua falha. Por via das dúvidas, acrescentou, “Mas você pode estar certa sobre o que disse. A gente durou bem, não foi? Mais do que muitos casais por aí. Tá na hora de conhecer gente nova, expandir os horizontes.”
Apesar de todos os conturbados acontecimentos que nem sequer estavam em seus planos, Minyoung ainda mentalizava que no dia seguinte tudo voltaria ao normal. Ou mesmo que não fosse necessariamente no próximo dia, mas num curto período de tempo, provavelmente já estariam rindo juntos e fazendo qualquer outra coisa um com o outro como era de costume. Esses pensamentos amenizavam um pouco todo o sentimento ruim e as palavras negativas que ouvira durante a noite, mas não eram suficientes para que fizessem com que as lágrimas parassem de rolar sob seu rosto. As mãos já estavam molhadas de tanto secar o choro e o rosto continuava úmido e a coreana finalmente se convencia de que deveria levantar-se para pegar algum lenço de papel para se secar, mas o namorado parecia continuar o assunto. Já não tinha muito mais o que dizer, até porque havia dito tudo o que pensava e provavelmente, a discussão duraria mais tempo enquanto ambos rebatessem um ao outro e talvez com o olhar levemente maduro, percebeu que seria desgastante o suficiente manter aquilo tudo. A única coisa que precisava talvez era uma boa noite de sono, porque o dia seguinte poderia ajuda-la a esquecer um pouco do que fora o fiasco da noite e também todo o desentendimento ocorrido. Minyoung só não contava com aquela decisão. Poxa, já não tinha sido ruim o suficiente, tinha que piorar? Justamente no dia do aniversário de namoro, Warren estava terminando com ela? A surpresa foi grande o suficiente para que ela engolisse o choro por certo instante. Na verdade, não sabia nem como reagir, porque não era algo que chegou a passar por sua mente de vir a ocorrer. Okay, já havia pensado num término, mas não imaginou que fosse uma possibilidade tão próxima. Chegou a se levantar, ainda calada, com o olhar bastante sério e fixo para o inglês. — O que você disse? — Apesar de dolorosas, precisava ouvir novamente as palavras alheias. Era como se estivesse presa num pesadelo e não conseguisse acordar por nada nesse mundo e a mulher preferiu até nem pensar em possibilidades piores para não “atraí-as”. Mal esperou que o namorado, ou melhor, ex-namorado terminasse de responde-la e apressou-se em pegar alguns objetos como travesseiro e cobertor, direcionando-se rapidamente a sala. Não era justo que depois de todo seu esforço, ainda fosse parar no sofá, mas a coreana nem sequer queria mais ouvir a voz de Warren e também não tinha mais forças para poder discutir ou argumentar qualquer outra coisa, simplesmente só queria que o dia acabasse – não que fosse amenizar toda a dor que estava sentindo – mas quem sabe não lhe traria nada melhor. Apesar de tudo, sabia que a madrugada ainda seria longa e teria sorte se pegasse no sono logo, já que toda a adrenalina ainda corria por suas veias, assim com as lágrimas voltaram a escorrer em seu rosto.











