michael estava contando quantos minutos de casa até mitras. quarenta e cinco minutos por enquanto. o silencio o incomodava, mas era ainda pior imaginar como estaria sendo a jornada dos filhos. nem sempre eles contavam como realmente estavam se sentindo e tinham os próprios motivos para tal, mike só desejava que eles não estivessem se sentindo tão sozinhos e inseguros quanto ele.
astra se mexeu em seu colo e ele lhe acariciou atrás das orelhas. esperava que sua futura - deveria chamá-la de esposa? parecia errado - colega de casa não tivesse alergia e que gostasse de animais, pelo menos de sua cachorra. ela já estava velha e tinha se acostumado a dormir com ele. nunca na face da terra que ele a deixaria para trás, era a única coisa que realmente não seria flexível. uma hora e vinte.
finalmente mike foi deixado na frente da casa que passaria a morar. era exatamente idêntica a todas as outras do complexo, eles levaram a sério esse lance de igualdade. entrou com o pé direito. podia ser superstição, mas não fazia mal. ele realmente queria que aquilo desse certo e que um dia ele também se sentisse em casa ali. logo avistou uma mulher, loira, parecia jovem. OH OI, TUDO BOM? ela era simpática e bonita e… aquilo eram livros? ao menos tinham algo em comum, por algum motivo aquilo reconfortou seu coração. michael sorriu.
por alguns segundos, estavam os dois apenas se encarando. não seja estupido, pensou, e foi ela quem quebrou o silêncio. ❛ josephine é um belo nome ❜ ele estendeu a mão livre para mulher ❛ michael, michael collins, mas todo mundo me conhece como mike❜
ele ouviu a coleira de astra fazendo um leve barulho e lembrou que precisava apresentá-la também. ❛ e se você gosta de cachorras dengosas e mimadas, vai adorar a astra ❜ soltou uma breve risada ❛ ela é bem educada, não se preocupe ❜ acrescentou logo em seguida ❛ não vai fazer sujeira nem dar trabalho, astra só quer que o mundo termine em barranco para ela ir se encostando❜ brincou e a cadela, como que para provar o ponto do dono, deitou no chão com o rabo levemente abanando.
mike continuava segurando a mala, não sabia exatamente onde seria seu quarto até porque não esperava dormir na mesma cama que josephine logo de cara. seria estranho, fazia um bom tempo que não dormia com alguém, ainda mais alguém desconhecido. deixaria a dica de ‘não esperar pelo casamento’ para os jovens cheios de hormônios. exceto suas crias, ugh, ele não queria ser avô tão tão rápido.
❛ eu também gosto de ler ❜ comentou, apontando para a estante antes de retirar um pequeno livro do bolso. era algo que sempre mantinha consigo, uma lembrança do primeiro livro que a falecida mulher tinha lido para ele. ❛ poesia, não tenho exatamente muita concentração para algo épico❜ admitiu levemente constrangido e estendeu para que ela desse uma olhada. ❛ hm, onde seria o meu quarto? ❜
O aperto de mão pareceu um cumprimento adequado para dois estranhos recem conhecidos, ainda que todas as vezes que ela começava a pensar no assunto, assustava-se ao lembrar que em poucos, pouquissimos mesmo, dia ela estaria casada com o homem e deveriam fazer uma corrida para conseguirem engravidar. Só o pensamento já fazia o estomago revirar em um quase enjoo. Se estivesse sozinha, o pensamento a levaria a por uma das mãos na barriga, imaginando como seria ter seu corpo inteiro modificado por causa de uma criaturinha que carregaria genes de um homem que apesar de beleza estonteante -o que ela esperava que fosse passado a criança- mas do qual ainda só sabia o nome. E que tinha gosto por animais. Agradeceu, então, por estar um pouco atonita e com uma das mãos ocupadas, assim não houve tempo para o gesto. Esperava que as mãos não tivessem suando, ou aquele aperto, o qual logo tivera fim, se transformaria em algo um pouco embaraçoso. A Gibson não era tímida, na verdade, lidar com tantas crianças com as línguas afiadas a tinha deixado um pouco também. Além de sempre juntar-se aos pequenos alunos na falação. Provavelmente, por esse traço de personalidade, acabou por começar a tagarelar sobre o assunto simples que era seu nome. "Eu gosto também, apesar de achar que, quando me chamam pelo nome inteiro, fico parecendo uma senhora. Como se fosse meus netos falando da vovó Josephine..." Parou a frase de maneira abrupta, franzindo o nariz com uma careta. "Acho que netos não são bem o assunto mais ameno para uma primeira conversa. Não é como se eu estivesse pensando em netos a todo momento, ou filhos. Quer dizer, não há nada de errado em pensar nisso, mas não é um pensamento recorrente na minha mente." Engoliu em seco, tentando manter um sorriso afável no rosto enquanto levava a cabeça de um lado ao outro, em uma negação a sua boca descontrolada.
A distração que fora instaurada pela presença, e apresentação, assim pode focar os olhos na cachorra. Abaixou-se brevemente e apresentou-se ao animal, deixando-o que cheirasse sua mão antes de afagar um pouco a cabeça da mesma. Ao voltar a postura, de pé e com as mãos para trás, Josie achou um pouco de graça das palavras escolhidas pelo outro. Parecia um tanto caipira, não estranharia se logo mais o homem lhe dissesse que trabalhava em alguma fazenda. Provavelmente com trabalho manual dado os músculos bem feitos. "Acho que Astra e eu nos daremos muito bem. Não tenho problema com animais, ou com sujeira. Não que eu seja uma pessoa suja, mas se tudo pode ser limpo depois não há porque estressar-se." Acabou por erguer brevemente os ombros após a fala. Seguindo aquele pensamento era como a loira se portava na cozinha. Amava fazer seus bolos, biscoitos e tortas. Às vezes o ambiente ficava um pouco caótico, mas nada que ela não conseguisse arrumar enquanto sentia o cheiro maravilhoso do alimento assando no forno. Esperava que Mike gostasse de seus pequenos dons na confeitaria, era a única área da culinária na qual ela se arriscava sem medo. E, na verdade, torcia para que ele fosse um pouco mais hábil que ela na cozinha ou talvez tivessem um pequeno problema para se alimentarem. Não que e mulher não soubesse cozinhar, mas se atentava ao básico nada especial ou incrivelmente delicioso.
Seu sorriso se alargou um tanto mais ao ouvir aquilo. Algumas pessoas, como os pais, achavam leitura em excesso quase prejudicial a um bom cérebro. Josephine devorava os volumes em pouco tempo e sempre ansiava por mais. Seria importante, para a boa convivência, que o futuro marido ao menos aceitasse aquilo sem pestanejar. Compartilhar do seu gosto era algo ainda melhor. Pegou o livro que lhe foi estendido, passando os dedos pela capa com delicadeza. Tinha conhecimento do mesmo, apesar de não ter um exemplar ou ter lido o mesmo inteiro. "Talvez possamos ensinar um pouco um ao outro porque as vezes não compreendo muito o que alguns poemas querem passar. Talvez o problema seja eu por não conseguir sentir... tanto. Tenho alguns volumes curtos, alguns de contos. Talvez possa se interessar. Não exigem concentração por muito tempo." Não se importaria de emprestá-los. Muitos livros de sua coleção estavam bastante gastos por já terem passados pelas mãos de vários conhecidos. Leitura era algo a ser compartilhado, era isso que pensava. Devolvendo o pequeno livro ao homem, pôs-se a andar para guiá-lo até onde ficavam os quartos. "Eu me acomodei nesse, espero que não se importe." Disse apontando por cima do ombro para a porta aberta de onde tinha se instalado. Suas coisas foram guardadas e ela tinha colocado alguns itens pessoais decorativos para deixar o lugar se parecendo mais como a casa que deveria ser. "Então, esse é o seu quarto." Disse apontando para o outro comodo. "Tem dois banheiros também. Então não precisaremos dividir isso." Afirmou, achando que talvez aquela informação fosse algo do interesse do outro. Era bom saber que pelo menos um pouco de privacidade havia sido dado aos participantes no início ainda que ela imaginasse que a presença de dois quartos deveria ser para que a futura prole pudesse ter um lugar onde dormir. “Se precisar de ajuda... quer dizer, não sei se prefere ficar sozinho ou se quer começar as conversas amenas fundamentais tipo o que faz da vida, ou se tem algum ritual diário importante, o que gosta de comer.”