Dois livros cujas leituras me impactaram bastante nos últimos tempos foram As obras do amor, de Kierkegaard, e De Profundis, de Oscar Wilde. São livros com temáticas e pontos diferentes, porém que abordam um ponto em comum: O amor de Cristo (ou Yehoshua, como chamarei neste texto).
Em seu livro As obras do amor Kierkegaard define que o cristão não tem o amor como opção, mas sim que o cristão DEVE amar, ou seja, o tem como uma obrigação. Tu DEVES amar, porque este é o desejo de Deus para conosco. Tu DEVES amar ao teu próximo, mesmo que teu amor seja o silêncio.
Tu DEVES amar. Não consigo pensar em frase mais impactante para qualquer ser humano do que esta. Tu DEVES amar. Não somente o amor é transformado num dever, mas também numa obrigação moral. Tu DEVES amar pois esta é a única forma de viver segundo o Cristo. Não sou cristão mas tais palavras me impactam, e isso porque minha relação com o deus cristão não é das melhores, quiçá o fará com autênticos cristãos (poucos, em meu ponto de vista).
Tu DEVES amar. Não creio que os que se dizem cristãos percebam a veracidade e profundidade do compromisso que estão assumindo ao se auto-denominarem "cristãos". Tu DEVES amar. Pois assim diz no segundo mandamento e assim testemunha o maior dos homens que um dia já habitou este planeta, segundo o cristianismo.
Você consegue se imaginar amando a todos? Amando tanto à pessoas boas quanto mercenários, bandidos, estupradores. Você consegue se imaginar realizando o DEVER do amor?
Claro é que não é fácil. É impossível. É impossível para qualquer ser humano comum exercer plenamente o mandato do cristianismo. E por que, ainda assim, tantos se dizem cristãos, se não amam até mesmo aos que vivem em frente à sua porta?
Ama, pois o amor não é deste mundo, o amor é do reino do transcedente. Se existe algo que definitivamente transcende a capacidade de entendimento e expressão humana é o amor, no sentido mais nobre da palavra.
Amor não é sentimento, amor é escolha. Amor é se calar perante a diferença, o amor é se calar, o amor é cuidar. Nós não amamos quase ninguém, claro, então o quão distantes estamos da tarefa, e dever, do amor?
Neste sentido o amor cristão, que não é praticado e pouco existe neste mundo, se assemelha ao devir. Vir-à-ser o amor, independente de quem lhe seja testemunha. Yehoshua deixou aqui não somente uma testemunha, mas também uma nova religião: A religião do amor.
A modernidade liga o amor à um "sentimento", frequentemente amor é tido como "paixão" e sexo apenas. Estão todos contaminados. Amor não é o que você sente pela sua esposa, isso é só apego ligado ao sexo. Amor não é o que você sente pelos seus filhos, isto é apenas instinto protetor materno/paterno. Biologia. Amor é quando se ama mesmo na diferença. Amor é quando dói-se e mesmo assim escolhe-se a dor. Não é possível, segundo Kierkegaard, amar um sem amar o todo. Quem o faz pratica o amor do mundo, e o amor do mundo não é o amor de Yehoshua, cujo amor destinou-se não somente à um, mas também à humanidade inteira.
Nenhum de nós ama plenamente se à todos não amamos. Você não ama quando você dá uma esmola ao mendigo, você não ama quando faz sexo, você não ama quando vai ao túmulo de alguém querido apenas. Amar é dedicar-se, e amar, no sentido mais completo da palavra, é transcendência. Amar somente à uns não é "transcender", é amor mundano. Amar à todos é se calar, logo, transcendência. O verdadeiro amor é aquele que não é destinado somente à um, à individualidade, mas sim à humanidade inteira.
Sidarta Ghautama também já sabia disso. O apego é o que nos limita, o que nos prende, o que nos apega ao que não é nosso e nem que nos é. Alguns líderes da humanidade já falaram bastante sobre o (ainda pouco) falado "amor ao próximo", mas pouquíssimos de nós compreenderam. Nós não amamos, estamos cegos, não há como amar a um sem amar ao todo.
Não creio que a maioria dos cristãos, pelos motivos acima mencionados, o sejam cristãos de fato. Na verdade diria que pouquíssimos são de fatos cristãos. Se você leva uma vida comum e ainda assim tem coragem de se intitular "cristão", creio que você deveria se envergonhar. Porque o amor de Cristo não é somente ter uma casa, uma família, amigos e tudo o de mais comum, mas também amar à toda humanidade e abdicar de si mesmo e de seus próprios bens em direção ao amor. Por isso mesmo, o cristianismo mais ortodoxo defende a castidade e celibato. Não é possível transcender amando-se somente um (e não quero com isto dizer que amantes não podem viver o amor de Cristo, mas sim que as amarras da carne são, muito frequentemente, intransponíveis para quem quer atingir o verdadeiro amor).
"Porque Cristo sabia que o amor é mais belo do que o ódio", diz Oscar Wilde em seu livro De Profundis. E está mais do que correto. Devemos amar para que nossos corações não sejam infectados pelo ódio, e amor não é o contrário de ódio, mas sim o seu antídoto. Porque tudo o que existe neste mundo é vão e nada se concertará, só resta a nós amarmos a nós mesmos e aos que nos cercam. Toda vida tem seu valor, mesmo que nossa carne, ego e opiniões digam que não.
O amor de Yehoshua é um amor ainda indisponível para a maior parte da humanidade. Não amamos, só transamos e repartimos o pão com aqueles que nos são queridos, mas fazer isto é muito fácil. Viver na obrigação do amor é quase impossível para uma geração acostumada com brigas, ego e virtualidade. Não há mais amor. Cristo está morto, mas não porque literalmente assim o esteja, mas sim porque não amamos, não sabemos mais nem o que é o amor. Amor não é sentimento, mas sim, dor. A transcendência da dor e de todos os lamentos deste plano mundano, a compaixão e a bondade, isto é amor. Amar à quem é difícil ser amado, tendo consciência de que mesmo amando, nem sempre isto resolverá os problemas, isto é amor. Porque o amor de Yehoshua não possui limites, mas sim se justifica à si mesmo. E quão distantes, mesmo 2 milênios depois, ainda estamos do amor de Cristo.