como nós, que nos precisamos, há lugares que precisam de outros lugares para existirem.
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Singapura, pós-aterragem, é humidade que se adentra no corpo, num quase sufoco. as peles tocam-se e, sobre elas, uma fina camada de água - tanto o calor.
Singapura são carruagens de metro cheias, com pessoas tão diferentes entre si como as línguas e dialetos que no ar ecoam. A carruagem que nos transporta embala-nos. Abraço-a enquanto os nossos corpos arrefecem sob o ar condicionado - o mesmo que nos separa do calor que enche as avenidas, os quartos, as mercearias, os mercados, os templos.
Acordamos com ecos de uma prece - murmúrios que nos chegam vindos de um templo próximo. As ruas infinitas e Singapura é o cheiro a fruta fresca em Chinatown, ou o aroma a incenso, de madrugada, antes do sol nascer, nas ruas de Little India. É um quase-verão eterno - banhos de mar e a pele salgada. Adormecemos na areia sob céus nublados. Quando despertamos, um comboio leva-nos a casa. A noite recebe-nos com luzes de néon que banham a face, os braços, as mãos. Convida-nos à queda: comemos e bebemos, vagueamos até nos perdermos, até um qualquer autocarro nos obrigar ao regresso e nos levar até ao lugar desde onde começámos.
nós, que voltamos sempre à casa de onde partimos, somos como Singapura: precisamos de outros lugares para existirmos, caso contrário, nada somos.
João Tamura,
Singapura, 2018.
Canon EOS 500N + 35mm Fujicolor C200
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