Por norma, gosto dos meus cereais acompanhados de uma crónica criminal, do almoço com dois ou três assaltos à mão armada e do jantar com umas quantas mortes de guerra. Sei que começo mal o dia se nas notícias das sete, não houver pelo menos dois ou três bombardeamentos, um assalto à mão armada e um desfalque em alguma empresa pública. Perdoem-me mas sou assim, não me cai bem o café!
Hoje foi dia de sorte: não só tive direito a um episódio de violência doméstica como ainda vi um rapazito a ser espancado por uns quantos maganos e mais uns tantos treinadores de bancada, que obviamente estavam ali para confirmar se o pobre coitado ainda aguentava mais uma ou duas bordoadas e registar tudo em vídeo.
Quanto às imagens, essas são péssimas. Acho sinceramente que alguma marca de telemóveis deveria pensar em fazer um sponsoring, para que jovens como estes possam ter a possibilidade de gravar estes momentos em condições. E já agora, uns quantos cursos de realização também não fariam mal a ninguém, é que alguns dos ângulos não favorecem em nada a vítima, principalmente quando ela se tenta levantar e leva outro pontapé na cabeça. Quase que perdíamos esse momento e a expressão de sofrimento estava digna de um óscar.
A mãe chora em depoimento exclusivo, o saco de pancada acorda a chorar durante a noite, mas dizem-se comovidos com duas sms de votos bom de ano, enviadas por dois dos maganos intervenientes na luta de galos. Segundo os próprios, o Natal correu bem e não queriam entrar em 2017 com escalpe nas unhas.
Eu ainda estou em choque! Quem é que no seu perfeito juízo utiliza sms hoje em dia?!
Segundo os factos apurados, a luta de galos foi de origem passional, havendo uma galinha em comum na vida destes dois capões.
Até aqui, tudo bem. De 0 a 10, em termos de violência, estamos num nível 5, 6 no máximo, porque nenhum dos galos acabou no tacho. Agora vem a parte realmente sádica: os pais, os progenitores e os professores deste aviário. Aqui sim, é onde está a verdadeira violência, sádica e sem limites. O que é que andamos a ensinar aos nossos filhos? E quem diz filhos entenda-se também todas as pessoas que se cruzam na nossa vida. Que valores? Que modelos? Que educação? Eu ainda não tenho filhos mas espero um dia vir a ter, para poder pensar nestas questões com mais afinco e menos desresponsabilização. Confesso que tenho alguma dificuldade em identificar o “eles” como principal alvo de depósito de culpas, até porque nunca percebo se estou ou não incluído no grupo. Desconfio que não porque “eu não papo grupos” (Carreira, David, Não papo grupos, 2016), mas um dia estarei, se as minhas competências sociais não me falharem.
Não vou falar mais sobre isto, vou deixar apenas o mote para que todos nos deleitemos em pensamento.
Só espero amanhã ter sorte ao pequeno-almoço. Deus queira que eu tenha…











