Web Nostalgia: seleção de videos preferidos do youtube e como eles marcaram meu eu adolescente
A ideia desse texto surgiu após a realização de uma atividade de processos de vendas para a aula de Operação, Processos e Sistemas, enquanto tocava uma playlist nostálgica de Indie/Jazz que eu ouvia aos 18 anos escrevendo Alternative Universe (AU) no Twitter.
Dei uma fuxicada na minha playlist de vídeos favoritos do YouTube e selecionei os que marcaram momentos específicos da transição da minha adolescência para a fase adulta. Eu, que nunca fui a adolescente mais excêntrica, mas também não a mais básica, cresci rodeada pelos vídeos mais diversos da plataforma: desde os criadores de roleplay do BTS (uma vibe bem “ai, Jimin! você me mordeu/desculpa, Kookie :c” e o pior é que eu gostava muito), as moças que criavam tutoriais de capa de fanfic no PicsArt, passeando pelo nicho dos gamers (onde conheci muitos, mas não joguei nenhum), indo ali com frequência nos canais de remix — ao Trap Nation aquele abraço! —, até chegar nos Vocaloids e desaguar no oceano de youtubers, cada um mais original que o outro (naquela época, é claro, hoje eles são... meio cringe).
O YouTube sempre esteve presente na minha vida e contribuiu significativamente para grande parte do meu conhecimento de mundo.
Na pandemia ele ganhou sua força máxima. Eu já tinha acesso à internet Wi-Fi, então não precisava mais sair de casa para passar a tarde na lan house com 2 reais e nem ir à lanchonete comprar 3 salgados (às vezes apenas 1, só para tapear) e ficar usando o Wi-Fi de lá. Aliado ao Twitter e ao que para mim foi um grande momento do K-pop, a 3ª geração, esses gigantes construíram minha excêntrica identidade digital.
Como todo mundo estava em casa, as playlists longas começaram a ser recomendadas com mais frequência. Playlists muito criativas e elaboradas dispararam na minha timeline; foi uma época em que ouvi muita música indie, muito rock japonês e descobri que meus estilos favoritos, como o R&B, poderiam ser cantados em coreano. Sim, naquela época eu achava que só estadunidense podia cantar R&B, gente, perdão. Mas foi por ter conhecido o K-R&B que eu expandi meus horizontes para ouvir meus estilos favoritos em outros idiomas além do inglês! (Lembrete breve de escrever sobre isso outra hora).
Na pandemia, conheci playlists que tocam em repeat no meu subconsciente, e eu as trouxe, hoje, como uma criança que apresenta seus brinquedos à visita.
Hasoyi — alternative songs to take a break from whatever you're listening now (maybe it'll help u)/ playlist
O fundo azul-céu, esses dois gatinhos ao sol, a extensa lista de músicas que eu ainda não conhecia (algumas do Boy Pablo, pois me marcou muito na pandemia também); foi numa tarde entediante com minha irmã, largadas no chão, que eu dei play nesse vídeo. Os acordes de Losing You iniciaram a melhor playlist da vida daquela Julia adolescente. Inicia-se com o fundo azul-céu, somente; os acordes se repetem até o compasso mais forte, dando início à canção, e a imagem dos gatinhos brota no cantinho com a lista das músicas.
Aquilo foi o AUGE da atenção aos detalhes, pois sempre gostei de sincronia da imagem com a batida. Depois disso, não perdia uma playlist de Hasoyi e cheguei a segui-lo no meu Spotify hackeado. Meu amor secreto pelo seu gosto musical me fez conhecer outros tantos artistas que hoje em dia já não escuto, mas retorno a ouvi-los quando a nostalgia daqueles tempos – sombrios no mundo – bate e eu quero me sentir uma adolescente sonhadora de novo.
Talvez a playlist mais indie-kid de todas. Talvez a mais otimista também.
Dansu, Phum Viphurit, Last Dinosaurs e até Trails and Ways cantando Taj Mahal (minha versão preferida na época até eu descobrir que a original é do Jorge Ben), foram os artistas que embalaram minhas tardes tediosas e serviram de música de fundo para a construção dos capítulos da fanfic que eu escrevia sobre o Tomorrow X Together no segundo (?) ano de seu debut.
Esse momento na internet foi tão precioso que ele me atravessa até hoje como aquela brisa da tarde, leve fresca... é, nostálgica.
청각예술 — 🌻9:00am : shiny morning time (Indie/Jazz)
Fui procurar a forma romanizada desse nome e o que saiu foi: “Cheonggak-ye-sul é uma palavra coreana formada pela combinação de 'cheonggak' (o sentido da audição) e 'arte'. Sua pronúncia em Hangul é [cheonggak-ye-sul] e sua grafia romanizada é cheong-gak-ye-sul”.
Pois pronto, essa aí, disparado, é a playlist que descreve o sentimento de nostalgia daquele momento.
Era de manhã, minha mãe não estava em casa e eu tinha ligado a TV. Fui procurar por playlists para ouvir durante a manhã, pois sempre gostei de playlists de acordo com o momento do dia. Cliquei nessa. Escrevia a cena de um momento familiar do Choi Yeonjun tomando café com sua mãe; eles cantarolavam uma das músicas dessa playlist, Someone Else. O contexto, se não estou enganada, é a sua mãe falando sobre como o temperamento de Yeonjun era semelhante ao do pai, numa comparação com a relação atual do filho com o valentão da escola, Choi Soobin.
Naquela época, o fandom MOA era composto majoritariamente por Yeonbin-shippers que sempre colocavam o Soobin como o coitadinho nerd e o Yeonjun como valentão, gostosão. Eu queria uma coisa diferente (pois muito disruptiva desde a adolescência, queria quebrar padrões!) e criei uma AU onde o Yeonjun é o nerd fofinho e o Soobin é o valentão, junto com o Beomgyu! Os dois grandes bottoms do Tomorrow X Together foram escalados para interpretarem adolescentes intimidadores do ensino médio! Para minhas amigas e eu, aquilo foi o auge.
Esse momento aconteceu já faz 6 anos.
Mas, especificamente, essa cena do café da manhã do Yeonjun com sua mãe me marcou para sempre, pois Someone Else, de um duo chamado Wild Child, que estava na playlist do trenzinho em 2020, tocava de fundo enquanto eu escrevia meu primeiro registro como fangirl de um grupo de K-pop, com dezessete anos. Para mim, isso é o que tem de mais precioso nos registros que fazemos na web. A documentação desses arquivos, a recuperação dessa informação pelas plataformas digitais é algo que vai me encantar para sempre enquanto entusiasta a cientista da informação.
A música que inicia essa playlist é Blueless Bird, da Joni.
Não conheci os outros trabalhos dessa cantora, mas se eu ouvi-la novamente daqui a 20 anos, vou me lembrar de quando escutei essa música pela primeira vez; quantos anos eu tinha, o que estava fazendo e até a posição em que estava quando essa playlist iniciou:
Sentadinha no sofá com as pernas cruzadas, a almofada em cima das pernas. Tenho quase a impressão de estar comendo pão assado.
Tomorrow By Together — Fairy of shampoo
A fangirl que habita em mim é alimentada pela nostalgia do dia em que o TXT lançou o Eternity: meu álbum favorito por diversas razões, mas principalmente por ter Fairy of Shampoo na lista.
O momento mais criativo da minha vida, depois de ter sido ensinada a escrever, foi quando me tornei fã do TXT. Eu escrevia, aprendia coisas novas, criava edições em vídeo, foto, ajeitava o perfil do Twitter inteiro só para ficar combinando com a selca mais recente deles… Eu morro de saudade daquela época somente por causa disso. E quando Fairy of Shampoo na voz deles lançou, foi como se eu tivesse encontrado o amor da minha vida em forma de canção. Acho que posso considerar Fairy of Shampoo como o pontapé inicial da minha intensa paixão pelo shoegaze, e se eu gosto muito de dreampop é porque minha eu de 17 anos ficava o tempo inteiro tocando essa música em repeat.
Tomorrow by Together — 0X1=LOVESONG (I Know I Love You) feat. Seori
Fiz um post no Twitter no dia em que essa música lançou, porque ela tem a idade do meu irmão: cinco anos. Ele era um bebezinho de colo quando saiu o MV. No post, eu falo que era de manhãzinha e eu estava com ele no colo, dançando e cantando enquanto a mamãe lavava a garagem. A euforia de acompanhar o lançamento de um MV é um sentimento inesquecível quando se é adolescente, mas eu não fazia ideia de que tinha essa lembrança do meu irmão e a quando a informação chegou à superfície do meu cérebro, tive vontade de chorar enquanto escrevia.
O mundo ainda estava tão caótico, mas ele era um bebezinho e estava ali comigo, ouvindo esse grupo que não vai nem mais existir quando ele tiver a idade que eu tinha quando assisti o clipe pela primeira vez. Esse álbum foi fantástico, e estar na internet naquele momento foi uma das melhores experiências da minha adolescência.
Choco - choco demo [2005] (Spaghetti Vabune!)
Eu cresci, vim para a faculdade, ainda com aquele sentimento de ter só 17 anos. E eu já estava há algum tempo nesse ritmo acadêmico quando conheci esse álbum. Só tem 16 minutos, mas foi uma experiência interessantíssima tê-lo escutado. É como se eu abrisse uma caixinha no cérebro, toda enfeitada de veludo, e encontrasse um ratinho com roupinha medieval escutando esse disco numa vitrolinha, com um chapéu pontudo coloridinho de listra e um pompom vermelho no topo.
cemeteryf0g — everybody smokes in lisbon
Hoje, o que eu amo é a vida acontecendo despretensiosamente. Everybody Smokes in Lisbon me lembra de quando eu saio com minha irmã quando visito nossos pais; parece com os passeios que dou com minhas amigas por Natal; parece quando dou uma volta em Cidade Alta e fico me sentindo um daqueles músicos que tocam chorinho lá no Balalaika e mais tarde se apresentam na rodinha de samba.
Ele não tem nada de mais, mas me leva para os dias em que fiquei sem trabalho e passeava muito pela cidade, porque tinha a tarde inteira livre. E me leva, principalmente, para perto da minha irmã, quando passo muito tempo sem ir para casa.
Não sei como termino esse texto.
Mas eu sinto certa saudade dos momentos felizes daqueles tempos esquisitos dos meus 17/18 anos.
Fico feliz.
















