Desde sua adolescência, Alice tentava ouvir aqueles que não tinham sua própria realidade. Nem todos eram ricos, nem todos eram brancos, nem todos tinham o sangue puro. No começo, era tudo muito pratico e tudo muito bom. Ouvia aqueles que já eram seus amigos, que já mantinha uma relação boa e uma ligação empática ainda maior, mas tudo ficou diferente quando teve que perceber que até mesmo aqueles que ela não gostava podiam ter uma vida bem mais difícil do que a dela. Passou por um ano se sentindo incomodada com o próprio privilégio, incomodava-se em falar sobre ele, sem admitir que os tinha ou em tentar compreender que seu dinheiro em gringots não era nada se comparado a quantidade de pessoas da família que não ligavam para aqueles menos favorecidos. Entretanto, não parou de procurar se entender. Seguiu o caminho e de desconstruiu. Bem, tentava até os dias atuais se desconstruir e entender tudo que alguém lhe falava. Por essa razão, quando Gwen Jones disse sobre seu privilégio, Alice não se sentiu nem um pouco incomodada. – Eu concordo. – sabia que a outra esperava que Nott brigasse ou refutasse o que havia dito, mas era verdade, ela de fato concordava com muitas coisas que a outra havia falado e não poderia negar isso, independentemente de com quem estivesse falando. – Meus privilégios me impedem de ver muitas coisas, Gwen. Tenho consciência disso, espero estar fazendo um bom trabalho na luta contra eles. – sua voz educada voltou, não porque sua raiva e irritação tivessem passado, mas porque ela acreditava que ao se falar de classes sociais, era preciso falar de uma forma correta e justa.
– Mas, sabe, nem tudo lá é perfeito. – acrescentou quando pensou no que seu pai havia lhe dito no começo daquela semana, fazendo-a sair de casa e ir morar com Ivory Shafiq, uma antiga amiga de infância e de hogwarts. – Algumas vezes tudo parece muito… Falso. – olhou para a garota ao seu lado. Estava mesmo tendo aquela conversa com Jones? Uma menina que a odiava por motivos desconhecidos. Ela não compreenderia, não teria como e nem se esforçaria para. Alice desejou não ter dito absolutamente nada sobre a própria família, até porque passavam por um departamento com muitos Nott. – Claro que é melhor do muita gente passa, então não vou reclamar. Mas engana-se se acha que concordo com que a maioria deles falam. – esperava que Jones entendesse, mas pouco acreditava nisso. Era bem provável que ela julga-se Alice por estar negando seus privilégios, enquanto, na verdade, ela só queria dizer que viver com pessoas preconceituosas era ruim, mesmo que fosse melhor do que sofrer de verdade com o novo ato. Arrependeu-se novamente. O cansaço, a dor e a irritação talvez não estivessem permitindo com que ela se expressasse direito, mas ela não tinha o que fazer mais. Sentia fome, mas fazia um esforço para lembrar de que agora não podia gastar como antes. Dependia somente do dinheiro do treinamento, não mais dos pais.
- Não sei se entende o conceito de treinamento de auror, Jones, mas a ideia é exatamente essa: aprender coisas para se proteger e lutar. – comentou, referindo-se a ideia de aprender feitiços de flutuação. Alice ficou um pouco apreensiva, esperou que a outra não percebe-se, mas elas iriam passar por alguns membros de sua família e ela não sabia o que os pais haviam dito para sua saída de casa. Não que ela se importasse, pois nunca ligou para o que eles falariam dela e de suas companhias, mas não pode deixar de se incomodar pensando que eles nem mesmo falariam com ela. Por bem, isso não aconteceu. Seus tios acenaram com a cabeça e ela acenou com a mão de volta. Pode respirar calmamente após eles terem passado. A verdade era que apenas de procurar lutar por seus ideais, Alice ainda era muito próxima da família para saber como ficaria sem eles. Pelo menos, até o momento atual, doía se imaginar sem Alec. – O que você faz no time? – esperava que ela não entendesse como provocação, já que Nott queria apenas retirar da mente à visão dos familiares a ignorando. Enquanto esperava que Gwenog respondesse, não pode deixar de pensar que o medo que ela sentia deles não falarem com ela, era exatamente do que milhões de nascidos-trouxas estavam passando, mas de forma ainda mais cruel: eles seriam apagados da mente daqueles que amavam. Isso não aconteceria com Alice, mesmo que ela fugisse e se voltasse com a grande casa dos Nott.
Estavam chegando ao local que Gwen deveria ir, Alice não poderia estar mais animada para se livrar da outra, mas ainda faltava um caminho considerável e por isso a ex-gryffindor respirou fundo e bufou. Algumas vezes Jones a cansava, não que ela de fato se importasse. Em seus temos de Hogwarts, discutir com a garota ou ver seus olhares feios deixavam Alice exausta, talvez por ter que estar sempre em situação de alerta com Jones, coisa que ela não gostava nem um pouco de fazer. Tudo era muito pior no quadribol, já que ambas jogavam e Gwen sempre parecia estar disposta a derrubar Alice da vassoura e quebrar seus ossos em todos os jogos. Não que Alice não demonstrasse a mínima raiva necessária para ser batedora, afinal era uma garota competitiva e só Merlin sabia o quanto ela odiava ter que lidar com James depois de terem perdido um jogo. De qualquer forma, todas as vezes que as duas se enfrentavam Alice quase ia parar na ala hospitalar e isso não era algo que ela queria que acontecesse. Até porque era quase uma auror, o que significava que brigar com Gwen além de inadmissível, podia acabar mal para a outra.
Quando a menina havia se formado em Hogwarts uma das coisas boas que havia aceitado era que não precisava lidar com inúmeras pessoas que não gostava. Por ter escolhido seguir a profissão como jogadora ficava ainda mais difícil o convívio com rostos familiares já que os mesmos passavam longe de ter o talento para serem jogadores. Estavam mais impressionados com os problemas do mundo bruxo, e Gwenog não poderia tirar a razão deles. Ela simplesmente não tinha a noção do quanto aquilo poderia impactar sua vida. Por mais que fosse algo importante, política não era algo que chamava sua atenção. Por mais que ela entendesse sobre política, conexões, e sempre tentava ao máximo manter seus contatos, aquela não era uma vida para ela. Ela queria ser uma jogadora famosa, e nada daquilo importava. As necessidades mudavam, e sabia que as pessoas também precisavam de distração. Algo para tirar seu foco dos problemas que estavam acompanhando. Elas precisavam se agarrar um pouco a alegria que era ver seu time favorito ganhar. Por mais que fosse uma alegria momentânea servia para distração, e era naquilo que a menina poderia ajudar. Poderia parecer egoísta, mas o quanto menos ela se envolvia com as atuais decisões políticas de seu mundo melhor se sentia, mas não era assim tão simples. Ao continuar a ser jogada para o banco, a Jones havia ficado extremamente amargurada. Por ter uma visão tão clara sobre as coisas ficou fácil dar aquele discurso para Alice, mas agora ela via que a garota conseguia ficar cada vez mais irritantes. Como se a garota fosse perfeita. Algumas vezes, era okay, admitir algumas coisas ou simplesmente abandonar o assunto, e foi aquilo que havia feito. Não valia a pena conversar com Alice Nott sobre privilégio, afinal, ela não conseguiria compreender aquilo da maneira como ela estava tentando explicar.
“São coisas diferentes, Nott. Você pode entender, mas qual é a dificuldade que está passando? Por mais que o treino esteja difícil, as pessoas ainda te apoiam, você é queridinha e é uma Nott. Não é como se tudo fosse mudar tão cedo.” O mundo bruxo era assim. Alguns possuíam privilégios, e do jeito que as coisas estavam continuariam a tendo. Aquele não era o tipo de assunto que queria comentar no final de um dia cansativo com Alice Nott, mas antes ficar com Alice Nott do que esbarrar com mais alguma outra pessoa que simplesmente a estressaria até a menina explodir. Ela já estava acostumada com a garota ao seu lado, então ficava muito mais fácil simplesmente ignorar e seguir em frente. Uma parte dela até mesmo já tinha entendido que infelizmente, aquele era o jeito da menina, e não seria ela ou ninguém que mudaria os jeitos dela. O universo precisava de algumas Alices para equilibrar com as Gwens. Não que em algum mundo ela fosse dizer aquilo em voz alta, em seus pensamentos ficava muito mais seguro. Deu uma risada baixa ao entender aquilo enquanto seguia a Nott.
Estava fácil demais até a menina perguntar sobre sua profissão. Então respirou fundo. Ela deveria lidar com as coisas. Como poderia esperar ser uma figura pública, uma jogadora famosa, se não conseguia nem mesmo lidar com uma antiga colega de Hogwarts. Tentou não entender como provocação, e respirou fundo. “Eu fui recém contratada. Estou apenas treinando, aprendendo as táticas, e agora sendo confiada a levar os papéis e novas fichas para o departamento de jogos, e encontrar meu ex namorado. A vida que todos desejam.” Disse mais sarcasticamente, e estava tentando ao máximo pegar o caminho mais lento. O desespero de Gwen estava tanto que ela preferia passar o tempo com Alice do que tendo que ter small talks com seu ex namorado. Ela queria poder falar dos lances novos, dos treinos exaustantes, de suas colegas incríveis, mas por mais que ela soubesse que tudo aquilo era real tinha que se contentar em observar tudo aquilo. Como uma criança só podendo comer o doce depois da janta. Uma pequena tortura diária, mas que ela sabia que algum dia iria compensar. Seus olhos foram para Nott tentando entender se a mesma estava ou não observando-a.
Seus olhos foram para a Nott. “E você? Tudo certo com o Frankie?” Ela realmente não havia acompanhado mais sobre a vida amorosa dos dois, e nem mesmo sabia o porquê de estar tentando conversar com Alice. O cansaço talvez tivesse pegado a menina, e aquilo ganhou de seu mau humor. Por mais que small talk não fosse seu forte antes com a Nott do que com o Podmore. Respirou fundo. Ela não tinha sentimentos por Frank, não depois de tudo que havia passado com Sturgis, e realmente esperava que ele e Alice ainda estivessem juntos, pois depois de todo drama que passaram se estivessem separados, era outro acorda para vida que teria que dar na menina ao seu lado.