Certo, talvez Asli houvesse iniciado a noite com baixíssimas expectativas e alguma impaciência. Na verdade, se fosse totalmente sincera, estava assim desde que havia - por livre e espontânea pressão - concordado com todo aquele circo planejado por sua mãe. O fato era que não poderia deixar de perceber o quão atraente de fato era o homem do outro lado da mesa muito bem organizada; mas mais importante ainda, o quanto ele aparentava tão perdido quanto ela. Sendo a jovem quem era, no entanto, não precisaria de muito para que logo acabasse se perdendo em longos discursos e conversas com tom entusiasmado. O pronome de tratamento tão formal podia não ser algo inesperado em uma situação em que ambos se desconheciam, mas fora praticamente instintivo o leve franzir do nariz quando escutou aquele ‘senhorita’ na voz gutural. “Ah, por favor, só Asli. ‘Você’, sabe, e derivados.” Pediu, já que embora não tivesse uma real intenção de dedicar-se ao encontro a ponto de encontrar seu grande amor (ah, se Yasemin pudesse ler a mente da filha teimosa!), tampouco queria que aquele momento parecesse uma espécie de reunião de trabalho. Emendando com o sorriso simpático que já tinha emoldurado no rosto, a Ayhan soltou uma leve risada ao mencionar da avó alheia. Ela podia não ter nenhum avô e avó ainda vivos ou que se encaixavam em tal descrição, mas poderia com toda certeza incluir em um patamar equivalente sua tia Ebru. Pobre do rapaz que eventualmente se envolvesse consigo, ela bem sabia, pois as memórias do quanto a mais velha torturara o pobre cunhado quando enfim a irmã iniciara um relacionamento ainda seguiam frescas na mente. “Acho que quanto mais o tempo passa, mais se torna uma necessidade biológica arranjar casamento aos filhos e netos. Talvez seja algo na nossa água?” Semicerrou os olhos, como se aquela fosse uma pergunta que realmente rondava sua cabeça, mas a faceta não durou mais que alguns segundos antes de retornar à expressão natural - apenas um pouco mais nervosa que o comum.
Quando Karan sinalizou para o garçom, as órbes curiosas finalmente tomaram um tempo para se dedicar aos arredores, notando enfim que o restaurante para o qual fora convidada definitivamente era diferente dos locais que costumava frequentar. O visual limpo não vinha apenas da óbvia higiene, mas da meticulosa organização e dos detalhes e decorações de cores claras. Era agradável, para se dizer o mínimo, e caso alguém perguntasse ela não teria problema em admitir que aquele era o local mais chique no qual entrara nos últimos anos. Já tinha absorvido vários detalhes do espaço quando o garçom entregou o cardápio, e agradeceu ao homem antes de folhear o objeto. “Börek” Respondeu com surpreendente rapidez, como se estivesse preparada há muito para responder tal pergunta. “Mas eu não acho que tenham isso aqui…” Aquele comentário escapara em voz alta, mas era muito mais para si mesma que para ele. “Perto da minha casa tem o melhor Börek de toda Istanbul. Mustafa abi cozinha como ninguém, de verdade.” Garantiu, já demonstrando os primeiros sinais de sua incapacidade de falar pouco. “Ah, gerçekten?” Viajar pelo mundo era um dos grandes sonhos da garota, o que explicava o ligeiro brilho em seus olhos diante daquela informação. A pergunta dele que se seguiu arrancou dela uma risada alta, mas Asli logo se recompôs, tentando disfarçar a indelicadeza. “Não, não. Eu…bom, esse não é o tipo de lugar em que você me encontra normalmente.” E assim, voltou a verificar suas opções no cardápio, mas antes que pudesse continuar o assunto, precisou ao garçom sua escolha para a refeição: Mantı. Quando lhe foi oferecido vinho, a garota balançou a cabeça em negativa “Na verdade, você teria alguma bebida com manga?” Seu pedido foi recebido com alguma estranheza por parte do funcionário, talvez porque a maioria dos clientes estaria preocupadíssimo em combinar o vinho perfeito com a massa solicitada. ‘Bom, podemos fazer uma, sim.’ O homem informou, cometendo o mesmo erro de comunicação que Asli ao não confirmar se ela se referia apenas à um suco, ou a um drink alcoolico com a fruta. “Você disse que viaja muito. Já conheceu quais lugares?”
quanto mais o tempo passa, menos karan lembra-se do rosto dos seus pais. eram os detalhes que ficaram em sua memória, o cheiro do perfume do pai, a risada da mãe, quando eles faziam piquenique. então quando asli falou sobre ficar velho e bancar casamenteiros, seu peito apertou. será que sua mãe estaria lhe procurando uma esposa com tanto afinco quanto a avó? ela faria questão de que tivessem um casamento cheio de tradições? será que gostaria da mulher que um dia escolhesse? karan não sabia, mas tinha fé que quando o momento chegasse, algo lhe iluminasse o caminho e as respostas apareceriam na sua frente. ❝ se você estiver certa, provavelmente vou arranjar problemas de saúde por beber apenas refrigerante ❞ brincou. mas logo percebeu que talvez fosse interpretado errado e concluiu ❝ não que eu seja contra casamentos. casamentos são legais. nunca estive em um, mas se essa comoção geral quer dizer algo, deve ser no mínimo interessante. ❞ mandou bem, resmungou em pensamento e continuou a conversa como se não tivesse com as mãos suadas e o senso de autopercepção ativado para não falar mais nenhuma besteira. ele sorriu com a resposta da mulher, achando engraçado como ela dissera rápido. apenas para confirmar, ele passou rapidamente os olhos pelo cardápio. ❝ gosto da sua certeza, mas preciso discordar: o börek da sra. elif é incomparável ❞
karan assentiu. podia ver como toda a energia de asli se elevou com a menção das viagens. ele sorriu, enfim tinham algo em comum além de senhoras querendo casá-los. observou sua reação, parando para analisar mais do que sua beleza estonteante. não, realmente ela não parecia com as outras mulheres que costumava encontrar em lugares como aquele e isso não era algo inerentemente bom ou ruim. apenas refrescante, asli parecia divertida. o garçom deu uma olhada para ele como se indagasse o que ela queria dizer com manga e ele apenas deu de ombros. ❝ o mesmo que a senhorita, mas eu aceito a sugestão de vinho, teşekkür ederim. ❞ o rapaz seguiu seu trajeto para outra mesa, deixando-os outra vez quase às sós. karan fitava o rosto delicado de asli com um sorriso. ❝ minha empresa tem uma sede na califórnia e estou planejando uma expansão para new york ❞ informou. se falasse que viajava apenas por trabalho, seria uma bela mentira. embora seu foco maior fosse os negócios, o homem aproveitava qualquer brecha, qualquer feriado para conhecer um novo país. tinha verdadeiro orgulho de seu passaporte devidamente carimbado. ❝ para diversão, itália, grécia, maldivas, tailândia, indonésia, índia, argentina e- ❞ ele se esforçou para lembrar ❝ argentina, canadá e méxico. talvez tenha mais duas ou três, mas essas são as viagens que mais me recordo. você me parece alguém que gosta de viajar, qual lugar você sonha em ir mas ainda não teve oportunidade de conhecer? ❞