dedos de sal
se eu fosse te escrever uma carta, sujaria os dedos para falar do vil, penetrá-los-ia por inteiro no sal, fazê-los-ia atravessar cada grão áspero que se coloca no arranhado mergulhar, teria que abri-los, esgarçá-los, como se pudessem separar-se das juntas que os ligam, todas as linhas das mãos, eternas, tortas, esburacadas, descontínuas, inconclusas, manchadas, todos os nódulos, todas as curvas, todos os pelos, todos os espaços entre unhas e cutículas, é preciso que o sal vá até o sabugo e faça arder, é preciso que o branco se misture ao vermelho da pele, é preciso que os dedos já não se encostem, mas se esfoliem, rocem como lixa, é preciso revolver o sal como terra, apertá-lo, senti-lo cortar, espremê-lo como se pudesse dar origem a alguma coisa que ainda não existe, é preciso matar de sede a dor,













