We are made of fake smiles â Nivee & Tristan
Os olhos azuis da rainha exibiam um brilho melancĂłlico, enquanto seus lĂĄbios estavam esticados em um sorriso nĂŁo muito verdadeiro. Estava sentada em sua penteadeira, encarando a si mesma no espelho enquanto uma empregada habilidosamente arrumava seus fios. Nivee nĂŁo gostava de olhar-se muito no espelho. Sempre se assustava com o quanto o quanto suas feiçÔes se pareciam com as de sua mĂŁe, embora devesse a cor de suas orbes Ă seu pai. Sua prĂłpria aparĂȘncia fazia com que seu peito se retorcesse em dor, a saudade pesando como chumbo em seu coração. Com a saudade tambĂ©m vinha o desejo de vingança. A mulher sabia que nĂŁo era racional, mas nĂŁo conseguia evitar pensar no quando queria uma punição para aquela que tirara a vida de seus pais injustamente. Respirou fundo. âNada de pensamentos negativosâ, censurou-se enquanto voltava os olhos para suas mĂŁos, cruzadas no colo.
âEstĂĄ pronto, Majestadeâ
Nivee entĂŁo levantou, apreciando o belo trabalho feito em seus cabelos, metade solto, metade preso. Ajeitou o vestido prateado no corpo e sorriu, pegando as jĂłias. AnĂ©is, colar e coroa. E Ă© claro, a pulseira de casamento. Pegou a delicada pulseira dourada e colocou-a no braço esquerdo, o lugar de onde supostamente ela nunca deveria sair. PorĂ©m, aquela pequena pulseira apenas a lembrava  que apesar de ter pertencer e ter outra pessoa sĂł para si, ainda se sentia terrivelmente solitĂĄria e desamparada. âLicença para me retirar?â inquiriu a outra mulher, sempre educada e solĂcita. A rainha branca respondeu que sim e caminhou atĂ© a janela de seus aposentados. Aquele cĂŽmodo possuĂa uma vista privilegiada de todo o pĂĄtio externo e jardim. A beleza majestosa do lugar a agradava e acalmava.
Poucos minutos depois, ouviu uma batida grave na porta. Nivee hesitou. Ela iria âpassearâ com seu marido. Os dois sempre passeavam pelo castelo, entretanto ela sabia que nĂŁo era apenas pelo prazer da companhia um do outro. Embora nunca dita em voz alta, a rainha sabia que se tratava apenas de uma tĂĄtica para enganar a corte, convencĂȘ-los de que seu casamento era tĂŁo forte e sĂłlido como seu reinado. Embora conseguisse convencer os outros, Nivee jamais convenceria a si mesma. ApĂłs um pequeno momento de hesitação, ela abriu a porta, sem nenhum traço de animação ou alegria em seu rosto. Na verdade, suas sobrancelhas uniam-se um pouco acima dos olhos, deixando-a com uma expressĂŁo um tanto triste.
Os boatos se alastraram como fogo; rĂĄpido e perigoso. Mais um vez a preocupação batia-lhe a porta: os Liddell, netos da querida Alice, mundanos que porventura - ou talvez nĂŁo - caĂram na toca do coelho assim como a avĂł. As memĂłrias ainda lhe eram frescas, quase palpĂĄveis. Lembrava-se quando Alice pusera os seus pĂ©s no PaĂs da Maravilhas, e as consequĂȘncias por o fazĂȘ-lo; caos, guerra, sangue, mĂĄgoa. NĂŁo poderia, tampouco iria, permitir que este fatĂdico se repetisse novamente. Entretanto como impediria? NĂŁo tinha uma resposta, como para tantas outras perguntas. Encontrar uma maneira de levĂĄ-los de volta a sabe-se lĂĄ de onde vinharem, claro, era um plano em andamento, porĂ©m mantĂȘ-los vivos era uma outra histĂłria. A caçada aos Liddell chegou aos seus ouvidos como mais uma dor de cabeça. Medidas precisavam ser tomadas. PorĂ©m ele era a segunda voz, necessitava das palavras da sua Rainha antes de agir. E foi isso que acarretou a convidĂĄ-la para um passeio no jardim do castelo aquele dia. Discutiriam o que deveria ser feito, o que nĂŁo deveria ser feito; assumiriam seus papeis de Rei e Rainha.Â
- A rainha o espera, sua graça - A voz rouca de um dos seus incontĂĄveis soldados preencheu o recinto, despertando Tristan dos seus pensamentos. O homem acenou, e pĂŽs-se Ă caminho dos aposentos de Nivee. Um traje aristocrata de um branco-leitoso cobria-lhe o corpo, a coroa jazia em sua cabeça como de praxe; perfeitamente apresentĂĄvel para sua Rainha. Seus passos soavam como desespero, mas sua postura continuava impassĂvel, seus olhos opaco. De fora, era impossĂvel descreve o estado real de espĂrito que o Rei encontra-se. Ele tomava aquilo como um benefĂcio, era verdade. O dia que deixasse transparecer todo o pandemĂŽnio em seu cerne, era o dia que falhara consigo mesmo. Afinal, quem confiaria sua vida a um Rei que demonstrasse desesperança? NinguĂ©m.Â
Suspirou pesadamente jĂĄ Ă porta do cĂŽmodo de Nivee, dois guarda, um de cado lado da sua silhueta, acompanha-o. Um batida foi necessĂĄria para denuncia sua presença, aguardando sua Rainha o receber com os braços atrĂĄs das costas. Quando a porta abrira, e a fisionomia feminina aparecera, os lĂĄbios de Tristan curvaram-se em um sorriso; o tĂpico seu, sem mostrar os dentes. A primeira coisa que notara fora a tristeza escrita na face da esposa. DoĂa-lhe vĂȘ-la assim. Oh, como machucava-o. Alguns intraterrenos poderiam dizer que a maior conquista de Tristan fora se torna Rei. NĂŁo estavam errados, no entanto, seu maior ĂȘxito, na verdade, seria colocar um sorriso verdadeiro no rosto de Nivee. Permear sua alma de jĂșbilo. E em nome da ĂĄrvore, conseguiria. - Minha Rainha - Disse, enquanto curvava o corpo para frente, uma reverĂȘncia formal. Logo em seguida os dois soldados imitaram seus movimentos, reverenciando-a tambĂ©m. - Podemos? - Perguntou-a, oferecendo seu braço no intuito que ela entrelaça-se no seu.










