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@korak-c-blog
Regrets Collect Like Old Friends || Korak & Neraj || Flashback
Neraj estava tão absorto em seus pensamentos que sequer notou quando seu amigo entrou na cabana. Já era distraído por natureza e, para agravar esse traço, estava sendo completamente consumido pela culpa naquele momento, sem deixar seus pensamentos fugirem de Amisha. Quando foi chamado pela segunda vez, virou a cabeça e finalmente percebeu a presença de Korak. Ele não estava usando roupas e, apesar de não ser algo incomum e Neraj já ter se acostumado há anos, teria feito alguma piada a respeito do amigo andar nu pelo acampamento em outra situação. No entanto, não estava com humor para brincadeiras e sequer chegou a se perguntar se alguém teria o visto andando como veio ao mundo pela ala de dormitórios masculinos. “Oi” respondeu, com a voz quase fúnebre, antes de voltar o olhar para o colar que havia encontrado. Não sabia se Korak o reconheceria — provavelmente não — nem se queria falar sobre aquilo com o amigo. Não gostava de discutir sobre Amisha com ele, afinal, já havia afirmado reconhecer o erro que havia cometido ao namorá-la e que não sentia sua falta. Deveria ser incoerente Neraj se sentir mal ao pensar nela para alguém que não possuía mais informações. Às vezes pensava em contar o que havia acontecido, no entanto, sempre mudava de ideia, sem conseguir vencer a vergonha de confessar o problema com as drogas, as brigas com Amisha e todas as mentiras.
Korak era seu melhor amigo há tanto tempo que nem se lembrava de quando não se conheciam. Com exceção do seu relacionamento com a ex, contava tudo para ele. Era estranho ter um segredo entre eles. Neraj sabia que, como psicólogo, Korak com certeza já havia escutado histórias muito piores, entretanto, não sabia como ele reagiria ao ouvir algo assim sair da boca de seu amigo. Temia que os anos de mentiras acabassem destruindo a amizade dos dois e tinha certeza de que não conseguiria ficar sem Korak. Eles eram tão próximos que chegavam a parecer uma pessoa só às vezes. Frequentemente eram confundidos pelos outros, Neraj já estava até acostumado a esclarecer que não era o amigo. Podia contar nos dedos as ocasiões em que ficaram mais de uma semana sem conversar. O que faria se aquela amizade acabasse? O que faria se aquela amizade acabasse por culpa dele? Não conseguia sequer imaginar uma resposta.
O risco era grande demais, no entanto, Neraj não aguentava mais guardar aquele segredo. Não sabia se seria capaz de finalmente confessar o que o incomodava tanto em relação à ex-namorada, mas precisava tentar mais uma vez. “Eu encontrei o colar da Amisha. Devo ter deixado cair na minha mala sem querer” comentou, com a mesma voz tétrica, mantendo o olhar focado na bijuteria. Ele respirou fundo e se preparou para dar mais detalhes, porém, não conseguiu. Temia a reação de Korak à verdade, contudo, também temia que perdesse a oportunidade de ser perdoado pelas mentiras caso demorasse mais para confessar tudo que havia feito. Eu sinto muito, pensou e abriu a boca para pronunciar as palavras, mas não disse nada.
A paciência era algo que o homem deveria ter, de fato, para suportar a extensão de um silêncio que lhe era desagradável. Saber esperar era uma virtude que ele possuía em determinados momentos, mas que lhe faltava quando se tratava de assuntos delicados. Não precisava ter estudado para saber que o assunto, fosse ele tratado naquele momento ou não, que se surgiria naquele momento era delicado. Bastava olhar para a pose ainda mais dispersa de Neraj para saber que algo estava acontecendo ao amigo. Qualquer piada que outrora ele poderia ter feito pela falta de roupas – embora fosse parte de sua identidade, ele também possuía o conhecimento de que não estava utilizando roupa alguma ao caminhar para a cabana que Neraj dividia com um garoto que lhe era desconhecido –, não havia sido utilizada. Parecia que aquele amigo que ele conhecia havia sido roubado de si naquele momento, sendo colocado em seu lugar um alguém que se passava por Neraj. Ao menos, era um pensando que sempre acompanhava Korak ao ver como o outro se portava de uma forma estranha para ele. Conhecia tristezas, porém, havia momentos em que as tristezas do outro eram incompreensíveis para alguém que havia estudado para compreender. Sentia-se deveras inútil por não ser capaz de trazer o amigo de volta quando tal fato ocorria, sendo sempre obrigado a assisti-lo em seu caminhar sozinho, por não ser capaz de entender de fato o que estivera acontecendo a ele.
A pausa de seu amigo era compreensível, porém, o ambiente convergia em uma expectativa incompreensível. Havia o misticismo que não combinava com o ceticismo da profissão que ele desejava seguir algum dia, sendo assim, a atmosfera da cabana era perceptível por sua pele sensível a qualquer manifestação natural. Todavia, não estava preparado para o que viria a seguir. Obviamente que não se esquecera de Amisha, a ex-namorada de seu amigo. Fora em um desses momentos que ele havia visto que o amigo havia mudado e que não havia conseguido salvá-lo, como havia desejado. Clayton, que sempre se orgulhou de não possuir pensamentos ruins para com as pessoas, dispensou tal pensamento ao se recordar da memória da outra. Sabia que os mortos mereciam respeito, porém, o rapaz não conseguia ter uma memória que fizesse tal ato ser concretizado. Não era ódio que circulava por suas veias, mas sim desprezo pela figura de Amisha. Compartilhar tais pensamentos para o amigo não seria adequado, afinal, nunca de fato soubera sobre os sentimentos de Neraj. Era um assunto que pouco se falava entre os dois por razões que ele não compreendia, mas assim aceitava. Estreitou os olhos diante do objeto e depois suavizou a expressão, olhando para seu amigo. Não fazia sentido para ele o motivo de tal objeto ter causado tal reação, mas, após algum tempo, a imagem de Mira apareceu em sua cabeça. Tudo relacionada a Mira o deixava em pior estado. “Boas ou más lembranças?” Não conseguia tirar de sua mente que, em verdade, a outra havia sido uma coisa ruim. Nunca sentira ciúmes de Neraj, mesmo que fosse completamente explicável a ideia de perder um amigo, porém, sentia-se mutilado sempre que recordava-se de como ele havia se transformado no meio tempo em que ficou refém da ex-namorada. Korak havia perdido seu melhor amigo e era por isso que ele nutria sentimentos tão negativos para alguém que não estava mais presente.
— all you have is your fire ➸ vayton;
Linda estava fugindo de certa pessoa do acampamento. Infelizmente na vida que a garota levava esta não era a primeira vez ou sequer iria ser a última. Fugir era apenas um preço a ser pago por ser uma prostituta, mas a ruiva conseguia se sair bem desaparecendo da vida de seus clientes quando era necessário. A pessoa de quem fugia, não vem ao caso ser mencionado, pois Vans preferia manter seu nome guardado a sete chaves evitando quaisquer pensamentos acerca da pessoa e qualquer boato que poderia ser inventado sobre ela naquele acampamento. Gostava que as pessoas ali não soubessem de seu emprego, porque ela era tratada apenas como uma campista e não alguém que executa um trabalho vulgar. Todavia quando indagavam no que trabalhava a garota apenas ria e respondia que era acompanhante – apenas mais um dos nomes bonitos de sua profissão.
Enquanto andava apressadamente por Andalasia, sua mente não estava concentrada em um lugar especifico para ir, mas sim para um lugar afastado o suficiente para ficar a sós com seus pensamentos. Queria se afastar daqueles campistas, como quem não aguenta mais ficar no olho do furacão. Em um espaço de tempo curto, Linda viu pessoas desaparecerem, pessoas morrerem, crianças assustadas e jovens não sabendo mais como sobreviver aquele pequeno inferno na Terra. Havia visto assassinos dignos das histórias de terror e seres tão malignos que poderiam facilmente ter saídos dos contos de fadas. Andalasia era um pedaço de terra condenado, e as pessoas que os pisavam eram apenas peças de um jogo macabro digna dos filmes após a meia-noite.
Apenas notou onde estava quando parou e olhou em volta não reconhecendo o caminho de volta para as grandes construções. Estava perdida, definitivamente. E não era nem um pouco inteligente ficar perdida naquele acampamento. Havia estado na floresta apenas uma vez, quando havia sido obrigada a conversar com o Homem da Sombra – memória, esta, que a fazia perder o sono – e o lugar não parecia tão amedrontador quando lembrava, muito embora a garota soubesse que nada de bom vivesse ali.
Continuou andando tentando encontrar uma trilha que a levasse para o resto do acampamento onde, definitivamente, estaria mais segura. Seus olhos varriam a floresta procurando qualquer vestígio de ajuda ou de perigo. Seus pés andavam apressados, pois a garota não ousava caminhar normalmente ou sequer correr. Olhou para o céu e percebeu que não era tão tarde assim, ela ainda possuía poucas horas antes do sol de pôr e ficar a mercê dos perigos noturnos que uma floresta digna dos pesadelos poderia proporcionar para jovens donzelas. Não que Linda fosse uma donzela em perigo, não me entenda mal, apenas a ruiva não estava preparada para lidar com forças malignas.
Foi quando, de repente, se deparou com um par de olhos castanhos observando-a. Vans não teve tempo para assustar-se com a aparição repentina dele, pois seu susto foi maior com a cena que presenciava: o homem estava nu e com as mãos cobertas de terra. Seu instinto inicial foi gritar, mas algo no olhar do rapaz fez com que apenas sua mão esquerda fosse levada à boca como sinal claro de susto, sem emitir qualquer som. Levou alguns segundos para abaixar a mão de sua boca e olhar para o homem a sua frente e ousar algumas poucas palavras. – Você, hm, tem olhos bonitos. – Foi à observação mais aleatória que a garota poderia ter feito naquele momento, porém, nada poderia ter sido mais sincero. Sua mente rondava mil e uma possibilidades para ele estar naquelas condições, desde ele ser um assassino com problemas que estava enterrando sua vítima em um lugar que ninguém procuraria, até ele estar possivelmente drogado e a ideia de não usar roupas havia feito sentido em sua mente tomada pelos cogumelos – ela havia visto alguns cogumelos perto de onde eles estavam.
A silhueta do ser que o acompanhava naquela tarde trouxe um sorriso fraco aos lábios, pois ele considerou a possibilidade de haver algum animal selvagem às suas costas e, do qual, ele não conseguiria escapar sem ao menos conseguir alguns ferimentos que viriam a ser curados na enfermaria do acampamento. Seus olhos, castanhos intensos, encararam aquela que estava estática a sua frente e, em momento algum, passou pela sua mente que o motivo viria a serem suas roupas – ou a falta das mesmas. Para ele, não havia qualquer problema na nudez humana, visto que, outrora, os nativos andavam daquela forma sem a preocupação que aqueles que povoavam o mundo nos últimos séculos pareciam com a utilização de vestimentas. De fato, Korak e seus pais acreditavam que o mundo apenas convergia para sua destruição devido à falta de contato dos homens e mulheres com sua mãe. A falta de roupas era uma forma de contato com aquela que os alimentava todos os dias com suas forças, cirandando para que eles possuíssem o melhor possível.
Demonstrando a curiosidade na face – que se deformou em uma típica expressão do sentimento –, o rapaz olhou para trás, tentando ver o que ela havia visto, porém, não identificou nada. Não havia uma razão para o susto, ele pensou, pois Clayton jamais se viu como alguém perigoso. Em verdade, mesmo que sua vida estivesse em risco, ele seria incapaz de ferir por não possuir dentro de si a essência que causava o comportamento agressivo. Obviamente, havia discussões acaloradas quando envolvia-se um assunto que ele estava aberto a discutir sem exaltar-se, porém, não se recordava do momento que havia se portado de forma agressiva com qualquer pessoa. Assim, ele se colocou de pé efetivamente, de frente para a outra esperando que ela dissesse o que estava acontecendo para sua reação e, assim que obteve a resposta um tanto hesitante da outra, o rapaz teve consciência do próprio corpo e da falta de roupas. Muitas pessoas se sentiam desconfortáveis, de fato, com o modo como ele encarava as roupas que lhe eram cedidas.
“Eu”, ele estreitou os olhos para enxergar a claridade no olhar da ruiva. Eram claros e, de fato, bonitos. Trazia luz ao ambiente. “Acho que você também tem olhos bonitos, obrigado pelo elogio.” Sorriu de forma doce, para que ela entendesse que a falta de roupas não era um perigo. Ainda possuía um punhado de terra em suas mãos, assim como seu próprio corpo estava sujo com a terra que outrora havia tocado. Tentara se estabelecer em uma conexão com a terra, porém, havia sido interrompido, fazendo com que seu ritual fosse deixado para outro momento. Ele não estava efetivamente bravo com a interrupção, mas, obviamente, não era de seu gosto. Mas talvez a garota estivesse querendo algo que fizesse com que estivesse ali. Jamais iria saber se não perguntasse a ela o que estava acontecendo, certo?
“Você está com algum problema? Ninguém costuma vir à floresta quando se está bem. Geralmente estamos todos buscando alguma resposta.” Assim como ele estivera há alguns segundos atrás. Ele poderia compreender o desconforto atrás dos olhos da outra, pelo modo como agia. “E eu não sou nenhum louco, se você estiver se perguntando isso. Eu acredito que assim tenho como me conectar de verdade a natureza, se você entende. É uma forma de estar sempre em contato com aquela que lhe provém a sua vida efetiva.” Dissera olhando para o céu encoberto pelo toque de cada árvore, formando uma abóbada. Os olhos se fecharam com o vento que sobrava naquela direção, inalando o aroma natural daquele ambiente. “Vê? Sua pele, seus sentimentos e você, diretamente, se torna mais sensível ao que ela sussurra. Acaba trazendo tranquilidade em dias turbulentos.” A fala deixou seus lábios quando o rapaz novamente abrira os olhos, para novamente encarar a face da outra, deixando claro que ele não era um estranho louco na floresta, embora Korak fosse estranho e louco.
All you need is persistence || Phenny & Korak
{ FLASHBACK }
O rapaz possuía um jeito com as palavras que, provavelmente não pela primeira vez, fazia sua interlocutora se abrir mais do que estava acostumada. No entanto, Daphne era uma pessoa difícil e não pretendia ceder suas informações pessoais tão facilmente. Ela cruzou as pernas descobertas apesar do frio e deu uma risada curta. “Oh, oh. Calma aí, docinho. Você é psicólogo por acaso?” disse, defensivamente, sem esperar receber uma resposta afirmativa. Reconhecia aquele comportamento de seus antigos terapeutas, que se aproximavam com cuidado e, de repente, davam um diagnóstico sem sequer perguntar o que ela pensava sobre isso. Porém, claro, sabia que os profissionais não eram os únicos a supor coisas sobre a vida alheia sem intimidade o suficiente para tal. “Acredite, eu não preciso evitar contato com as pessoas para me proteger. São os outros que precisam” alegou, com a voz carregada de orgulho e um sorriso de lado nos lábios, quase reafirmando o quanto sua fobia era incoerente. De fato, acreditava que se alguém a assediasse novamente sairia com vários ossos quebrados, mas mesmo assim se esquivava de toques em potencial. Evidenciar a contradição de sua mente era expor uma fraqueza, no entanto, precisava deixar claro ao desconhecido que não era uma garotinha indefesa e que havia sim tentado vencer seus medos.
Tentar o quê?, pensou, confusa com a explicação dele. Sua conclusão não era ilógica, porém, Daphne nunca imaginaria que alguém que aparentava tamanha sanidade pudesse ser tão insano a ponto de deixar que uma estranha lhe batesse repetitivamente apenas para ajudá-la. Quando ele terminou de explicar seu raciocínio, a garota não pôde perder a oportunidade de fazer um comentário. “É isso então? Nem sabe meu nome e já vem com esse papinho de me tocar mesmo sabendo das consequências? Você gosta tanto assim de apanhar?” respondeu em um tom malicioso. Pensou em acrescentar algo sobre os negócios de um de seus primos, Caliel, mas logo foi interrompida pelo lembrete sobre a noiva do estranho. Não podia dizer que aquilo a deixava aliviada, afinal, sabia que um compromisso não significaria nada para um agressor, apesar de não acreditar que o rapaz fosse um. É uma pena na verdade, pensou. Ele era bastante atraente e muitos diriam que alguém tão jovem com aquela aparência e um compromisso tão sério era um desperdício, mas Daphne não chegava a se importar com o status civil do desconhecido. “Se você realmente não se incomoda…” falou, indicando que concordava com a proposta. Não acreditava no sucesso daquela terapia, contudo, sentia-se obrigada a aceitar se havia alguma probabilidade de dar certo.
A pergunta acabou gerando um segundo de dúvida, pois ele acreditava que o fato havia ficado claro diante de seus atos, mas poderia ter se enganado como tantas vezes já fizera. “De fato.” Respondeu de forma simplória, não estendendo o assunto como se isso fosse economizar o tempo em que ele falava, fazendo com que o tempo em que ela falava fosse maior. De fato, isso ocorreu, mas a frase acabou sendo carregada pela contradição aqui e ali. Clayton considerou que, se estivessem diante de um juiz, a garota estaria assinando sua sentença de culpa perante a lei devido a contradição entre atos e palavras, porém, ele obteve esse comentário dentro do emaranhado que era sua mente, guardando-o para considerar em seguida. Ainda que desejasse fazer as conexões naquele momento, não pode. Ainda não estava distante do campo minado que era a mente de alguém que precisava de qualquer tipo de ajuda. “Aceitável, também. Mas você quer machucar as pessoas o tempo todo?” Questionou inocentemente, desejando conhecer a resposta, no entanto. Ela sorria, como se o motivo de tal falha causasse orgulho, porém, ela realmente queria viver diante daquele padrão? Um toque, um ferimento? Korak, embora compreendesse a sentimento de proteção, não acreditava que havia qualquer ser humana que desejasse não conhecer de fato o toque alheio, da forma como este poderia ser dado com afeto.
“Eu preciso saber o seu nome, sim, mas eu acredito que não conhecendo-a, talvez faça com que você se sinta mais confortável em conversar comigo, dizendo de forma grosseira”, começou ele, sem abalar-se com a fala da outra. “Porém, se deseja saber o meu nome... Korak, Clayton. Sou indiano, porém fui adotado quando era bem jovem, então jamais verá qualquer semelhança física entre mim e meus pais”, evitou acrescentar, entretanto, que a semelhança estava na peculiaridade dos atos; a falta de pudor diante da preferência em não utilizar qualquer vestimenta, apenas o fazendo em meio social em que fosse deveras requisitado. “Se sente melhor sabendo um pouco mais sobre mim?” Perguntou em um tom que se mesclava com apatia e empatia. “Não gosto tanto de apanhar, é fato, mas é aqui que se encontra um ponto interessante sobre ajuda: geralmente, quando precisamos dela, é por não reconhecemos que precisamos de outro; quando a queremos, entendemos, porém, sabemos que sozinhos somos, de certo, incapazes de exercer o que desejamos e alcançar o ponto que desejamos.” Seus olhos tornaram-se vazio por segundos enquanto divagava. Seus sentidos se dispersaram por aqueles segundos até que finalmente tomara o foco desejado, fazendo com que ele voltasse sua atenção para a garota. “Não é uma terapia comprovada cientificamente, ainda, mas, muitas vezes, colocamos aqueles que possuem medo de altura no topo de um prédio para que ele veja a vista. Algumas vezes, a vista pode ser de fato bonita, basta você entender que jamais caíra dali, pois está seguro consigo mesmo.” Como já havia avisado outrora, ele não disse que iria se aproximar, ficando próximo o bastante para que seus músculos tocassem a pele da outra. Lado a lado, porém, com um toque efetivo, algo que viria a despertar na outra aquilo que a incomodava, ele acreditava.
Ah, você é tão inteligente. Um verdadeiro sábio. O que eu faria sem os seus conhecimentos?
Sábio não, apenas alguém que não esperava a sua resposta, mas que não fora a que eu esperava diante do que eu vejo em alguns momentos. Mas, ainda assim, eu não deveria estar tão surpreso assim. Mas, não, eu não sou um sábio tampouco você estaria em algum lugar com ou sem os meus conhecimentos. Acredito que você tenha os próprios.
“ — Acho que você perdeu um pouco da matéria que fala sobre comportamentos, por que de introvertido não tenho nada, mas de misterioso… Também não, infelizmente.”
“ — Pensei que psicólogos só analisassem as pessoas dentro de um consultório.”
É uma analogia diante da sua preferência. Por que o mistério é algo que te atraia, entretanto, é algo que me deixa curioso. E sim, porém não. É um pouco irritante, eu sei, mas é um hábito analisar o que você vê ao redor e o comportamento dos outros. Você jamais verá alguém com o mesmo olhar depois da faculdade.
“A máscara era necessária? Provavelmente não, mas é legal, então não corte meu barato. É como diz o ditado: Cada um com seu fetiche.”
São nessas horas que eu me pergunto se eu estudei direito porque eu não entendo muita coisa, mas continue. É uma máscara bem legal e introspectivos utilizam muito para se sentirem confiantes.
Consegui, mas não que nem vocês estudados estilo Lie To Me.
Tá. O formato do rosto… tipo um ovo? Não, um círculo? Acho que mais um ovo ao contrário. As sobrancelhas… retas? Ou tipo um parênteses? Isso.
Eu não saberia dizer se você está mentindo para mim ou não. Você bem poderia estar mentindo, e tem direito de fazê-lo, afinal, todos mentem em algum momento sobre algum fato. Mas, se não para dizer a verdade, por que estaria aqui?
Ovo ao contrário quer dizer que a ponta é para baixo, certo? Hm, entendo. Continue.
Um pouco… é difícil… não sei como reagir muito bem.
Não é tão incomum não saber reagir em situações que exigem um controle emocional grande, todavia, sugere empatia. Um ser humano empático é raro.
O que aconteceu?
Pessoas comuns que interpretam microexpressões e sabem o que as pessoas estão sentindo e se forem espertos o suficiente podem ligar uma coisa a outra podem descobrir o que elas estão pensando. Muito estranho.
Sei lá… com pelos? Não sei descrever essas coisas.
Isso é algo que qualquer pessoa pode ter com mais observação. Não é tão complicado e, se você levar em consideração a ideia de que somos como folha de papel em branco, saberá que essa leitura é ainda mais fascinante porém simples. Você nunca conseguiu interpretar uma pessoa?
Tente. Assemelhe o que você lembra com formas geométricas, se for mais fácil. Assim será mais fácil até para mim.
Ah, sim. É complicado também, das pessoas que eu conheço aqui, só uma parece bem o suficiente para falar.
E você tentou?
Não, mas você estudou para ler a mente das pessoas, isso é muito mais assustador do que guelras. Sem ofensas, mas muita gente tem medo de vocês.
Loiro, mais baixo do que eu e bem nerd.
Estudei para compreender a mente das pessoas, não para lê-las. Sua mente fala através de suas emoções, isso é algo que também preciso compreender para que saiba como ajudá-lo de alguma forma. Terapeutas são pessoas comuns, nem amigos nem inimigos.
São poucas descrições para montá-lo na minha cabeça, tem como dizer outra coisa que eu possa usar? Como eram suas sobrancelhas? O formato do rosto?
Acho que isso se aplica mais à sua área, não? Eu estou ajudando com coisas como fazer curativos e levar água e remédios principalmente. Espera, você quer que eu fale com os… pacientes? Eu não sei bem como fazer isso, mas vou tentar. Se você acha complicado, imagine eu.
Um pouco. Na verdade, com pessoas que você conhece. Não vejo tanto trânsito de conhecidos por aqui, algo que é assustador.
Porque é estranho e terapeutas assustam. Acho que foi por curiosidade, meu irmão já fez milhares de sessões e eu sempre tive curiosidade de saber como funcionava e o que eles falavam.
Por que você me acha assustador? Eu não tenho guelras, por exemplo.
Como era seu irmão?
Conversar sobre o que? Eu quero ajudar essas pessoas, isso não é bom?
Sim e não. Ajuda é relativo, Daphne. Veja, para alguém cujo trauma é visível, mas não perceptível, a ajuda pode ser algo horrível, pior do que o próprio ferimento. Todavia, para alguém que procura por ajuda reconhecendo sua condição, é uma dádiva.
Tente conversar sobre situações que os faça fugir do contexto atual. Fale sobre situações que vivenciara com eles e assim poderá fazê-los se sentirem mais calmos em conversar. É complicado fazer com que falem com você, é fato, mas é melhor do que não tentar, certo?
Tá, entendi.
(…) Você está esperando eu falar? Porque eu não sei o que falar.
Falar sobre sentimentos te deixa desconfortável, pelo que vejo
Por que você aceitou o conselho dela, para começar. Se falar acerca de sentimentos é algo que não é confortável para você, estou curioso.
Talvez esses ombros largos tenham atrapalhado sua visão, huh?
Disponha. Exatamente, não consigo saber que essas pessoas estão aqui nesse estado e não tentar ajudar pelo menos.
Nunca malhe demais para que você não fique com ombros largos e não veja o bebedouro ao seu lado. É uma dica que devemos seguir para a vida e você também.
Já tentou conversar com alguém? Embora um desconhecido seja útil, um conhecido pode ser ainda mais acolhedor.