I’m lost in (you)r art
Aquilo era muito estranho para ele, a intensidade daqueles toques que sentia em seu rosto. Ele ficou se perguntando se era algo da cabeça dele ou se ele não estava imaginando nada, e se fosse o segundo caso, ele ficou curioso para saber porque que aquele garoto agia de tal forma, se era algo dele mesmo. De qualquer forma, se Doyoung não estivesse cansado teria achado tudo um pouco desconfortável, ou não, ele não realmente se importava em ser tocado, mas valia lembrar de que aquele garoto era um desconhecido. E, quando sentiu o corpo dele se chocar contra o seu, olhou para ele com uma expressão atônita como se dissesse “hmmm, tá?” embora estivesse pensando o quanto ele era desastrado e que provavelmente era por causa do tamanho dele – aliás, por que ele tinha que ser tão alto? O queixo de Doyoung mal tocava o ombro dele –, mas assentiu, mostrando que tinha entendido que havia sido somente um acidente.
Prosseguiu com o exercício dos dois conforme havia sido instruído pelo professor e quando foi a vez de devolver a venda para o mais alto, só então percebendo que não sabia o nome dele. Ele se perguntava como é que aquilo iria funcionar, desenhar vendado, não fazia o menor sentido para Doyoung que gostava de ter controle sobre todas as coisas que estava fazendo; a ideia de pintar sem ver o que estava fazendo era ridícula para ele e o deixava um tanto ansioso. Como poderia desenhar algo que se prestasse se não conseguia ver as linhas? As cores? Não fazia sentido. Se sentou ao lado do rapaz para o observar enquanto ele trabalhava. “E você diz isso assim, informalmente?” disse ele ao soltar uma pequena risada nasalar. Por já ter ouvido falar dele, sabia que o rapaz era mais novo do que ele, e não que ele realmente se importasse tanto para pronomes de tratamento, mas foi a primeira coisa que ele pensou em dizer. “Mas obrigado, eu acho” franziu o cenho, incerto novamente, sem saber se o cara estava cantando ele ou se só estava sendo legal. “De qualquer forma, ainda não nos apresentamos, e se vamos ter que ser duplas seria bom saber o nome um do outro. Meu nome é Doyoung.” Ele já sabia o nome de Jiyoung, na verdade, somente o sobrenome dele, mas achou melhor não comentar que já sabia da existência dele e de seus quadros. “E eu vou te deixar em paz para trabalhar” foi a última coisa que disse antes de descansar as mãos em seus joelhos e morder o interior dos lábios, ficando em silêncio.
Jiyong ouvia cautelosamente a voz do menor enquanto tentava assimilar como pintaria o rosto daquele que acabara de conhecer, cuja voz era suave e ternurenta e que acrescia em muito no processo criativo do mais alto. Segundo sua memória fotográfica e até mesmo a memória dos toques, jiyong lançara o primeiro traço na tela, meio incerto se conseguiria proceder com a situação, ou se ao menos conseguiria lidar com o resultado, que tinha grandes chances de sair desfigurado. Nesse âmbito, Jiyong, em seus cursos de desenho passados, fora muito bem preparado para localizar e estruturar o desenho na tela, e, com certeza, usaria isso a seu favor para pelo menos não errar o exato local de todos os componentes do rosto do parceiro.
Ao perceber o silêncio que pairava pelo ar na sala, o jovem sussurrou seu nome para o parceiro, notando que havia deixado-o no limbo de sua ausência de fala, mais conhecido como vácuo. “Bem... me desculpe talvez atrapalhar, meu nome é Jiyong... Kwon Jiyong”. Talvez o outro não houvesse escutado, mas a consciência de Ji agora estava leve. Posicionou-se mais uma vez, coluna ereta, mãos apoiadas nos joelhos, talvez a melhor forma de começar fosse deixar um pequeno alto relevo na tela, mas isso seria complicado e demorado; Jiyong então preferiu pintar direto, mantendo sua mão sempre encostada na tela, talvez funcionasse. O grande problema eram as cores, havia despendido algum tempo procurando a melhor forma de iniciar que acabara esquecendo-se de onde estavam algumas cores, mas bem, uma coisa meio expressionista seria interessante, Doyoung não precisava ter aquela cor de porcelana, ele ficaria bem em qualquer cor, uma aquarela não seria suficiente para exprimir tão única beleza ou talvez aquela tarefa apenas não fizesse sentido.
















